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‘3 DICAS’ – Capelanias hospitalares
“Pandemia interpela à proximidade, apesar do distanciamento”
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O diretor do Departamento da Pastoral da Saúde do Patriarcado de Lisboa considerou, no programa ‘3 DICAS’, que “as questões da assistência espiritual religiosa” deveriam estar “nas medidas de contingência”. A emissão dedicada às ‘Capelanias hospitalares’ contou ainda com um médico de Medicina Interna, Guilherme Magalhães, que sublinhou “a importância da dimensão espiritual” na recuperação dos doentes.

 

No início da pandemia, os capelães hospitalares afirmaram-se “angustiados” por não poderem dar apoio aos doentes com covid-19. “Manifestámo-nos angustiados porque as novidades que afetam a vida humana, sobretudo se nos põem em frente à morte, angustiam imenso. Não fomos só nós, os capelães, que nos angustiámos, mas todo o pessoal da saúde se angustiou muito. E também os próprios doentes”, observou o padre Fernando Sampaio, diretor do Departamento da Pastoral da Saúde do Patriarcado de Lisboa, no programa ‘3 DICAS’ de dia 8 de junho, sublinhando que “as medidas de contingência” afastaram “um pouco” os capelães dos doentes, “porque isso era necessário para defesa dos próprios doentes, para defesa dos próprios profissionais”. “Como andamos de serviço em serviço, muitas vezes torna-se complicado o controle de quem nós contactamos e não se sabia, sobretudo no início, se as pessoas estavam infetadas ou não, e tornava-se muito complicado”, acrescentou, nesta emissão dedicada às ‘Capelanias hospitalares’. Com o confinamento, os capelães passaram a estar “em chamada para os próprios doentes”. “Isso criou, de facto, esse afastamento; no entanto, esse afastamento foi útil e era necessário para clarificar as coisas ao nível do próprio hospital, para nos ajudar a nós também, e para ajudar os profissionais”, reforçou.

Quando tudo ficou “clarificado”, em termos de contingência, os capelães começaram “a visitar os doentes”. “Evidentemente que em relação a esta situação dos doentes infetados, nós estamos bastante mais afastados. As medidas de contingência, em si, não contemplam a questão da assistência espiritual religiosa e, no fundo, contempla apenas a sobrevivência das pessoas. Este é um tempo que nos faz refletir a todos nós. Do ponto de vista da dimensão espiritual, é um tempo que nos interpela fortemente, que nos interpela à proximidade, apesar do distanciamento”, considerou este sacerdote, que é capelão do Hospital de Santa Maria há praticamente 35 anos.

 

A importância das famílias e das comunidades

O padre Fernando Sampaio é também presidente da Coordenação Nacional das Capelanias Hospitalares e foi questionado, neste ‘3 DICAS’, sobre os ecos que lhe têm chegado dos restantes capelães hospitalares da diocese. “Cada hospital é um mundo próprio, e nem todos reagiram da mesma forma”, começou por responder. “Houve capelães que permaneceram nas capelanias – como é o nosso caso, aqui, no Santa Maria –, mas houve outros que acabaram, de acordo com as administrações, por ir para casa. Isso não significa que o hospital ficasse sem capelão, significa apenas que muitos dos nossos colegas ficaram de chamada. Quando os doentes queriam, solicitavam e os capelães vinham”, acrescentou, assegurando que “a grande maioria das capelanias permaneceram com os capelães presentes”.

Deste tempo de pandemia, houve dois aspetos que chamaram a atenção deste capelão. “Ficámos em chamada e as chamadas diminuíram drasticamente – também os doentes diminuíram a sua presença nos hospitais, e não tivemos muitas chamadas de doentes com covid”, referiu. No entanto, na solicitação da assistência espiritual religiosa houve algo que “fez a diferença”: “a intervenção das famílias a pedir assistência para os seus familiares que estavam doentes e a intervenção das comunidades cristãs a pedir assistência para os doentes das comunidades”. Foram aspetos que “criaram uma diferença enorme”. Neste sentido, o padre Sampaio destacou “a importância das famílias como porta-vozes dos doentes” e “a importância das comunidades cristãs neste sentido de apoio às famílias e apoio aos próprios doentes”.

 

A fé como fonte de alívio

Neste nono programa ‘3 DICAS’, o padre Fernando Sampaio garantiu ainda que “as questões da fé, como as questões emocionais, são extraordinariamente importantes como apoio e como fortalecimento para os próprios doentes”. “Nos doentes em fase terminal, nos doentes com sofrimento severo, ou com ansiedade, geralmente a fé é fonte de alívio na ansiedade, fonte de sentido e fonte de bem-estar no sofrimento severo. O que quer dizer que, neste tempo de pandemia, o facto de os doentes estarem em solidão fez acrescer a angústia dos próprios. Esta é a minha suposição. Eu visitei alguns doentes, para dar a santa unção ou prestar assistência aos próprios doentes, e eles expressavam isso: a angústia grande de estarem sozinhos”, assegurou, sublinhando que “os elementos da fé, os elementos habituais ligados à celebração dos sacramentos ajudam no sentimento de pertença, ajudam os doentes a perceberem que a comunidade está com eles, que a Igreja está com eles”.

Do tempo de pandemia, este sacerdote lamentou que “muitos doentes” tenham “passado mal”, com uma “angústia muito grande”. “Sobretudo os doentes idosos, que se queixavam da ausência da própria família. Foi um tempo de angústia muito grande, que nos deve ensinar a todos, e eu lanço aqui uma ideia: porque é que as medidas de contingência não hão de conter, também, as questões da assistência espiritual religiosa, as questões do apoio emocional? Porque é que se há de cuidar das pessoas no sentido físico, do corpo, no básico, e não se há de olhar as pessoas na sua totalidade?”, questionou o responsável pela Pastoral da Saúde do Patriarcado de Lisboa.

 

Experiência “desafiante”

O ‘3 DICAS’ contou também com a presença de Guilherme Magalhães, médico de Medicina Interna, em Cuidados Paliativos, que, devido à contingência da covid-19, está colocado como internista na Enfermaria de Medicina do Hospital Curry Cabral e também na Urgência do Hospital de São José, que partilhou que a sua experiência, desde o início da pandemia, tem sido “desafiante”. “Penso que é a palavra mais correta. Primeiro, tivemos que criar os circuitos para garantir que não havia áreas de contaminação. Depois, a própria forma como abordávamos os doentes implicava medidas, como vestir os fatos que nos impedem, de certa forma, de comunicar com o doente e impedem que o doente veja uma cara, o que acaba por desumanizar um pouco o contacto com o doente. Houve profissionais, no Hospital de São José, que plastificaram fotografias deles e colocaram junto ao peito, com o nome. O que fizemos, por vezes, era colocar o nosso nome no fato, com uma caneta, e púnhamos uma frase, para ser diferente para o doente que está ali a ver-nos e perceber que está ali um médico, que está ali um enfermeiro”, contou.

Afirmando ter um “gosto preferencial” pelos cuidados paliativos, este médico garantiu que tem procurado, “sempre”, “humanizar” o contacto com cada doente. “Como o senhor padre Sampaio estava a falar há pouco, há, da parte de alguns profissionais, pouca sensibilidade, pouca atenção, para a parte espiritual. Acho que é esse o tendão de Aquiles nos profissionais de saúde, que leva a que não sejam tantas vezes chamados os capelães”, apontou, lembrando depois dois casos, no Hospital Curry Cabral: “Conseguimos que uma mulher visitasse o seu marido em fase terminal e conseguimos que uma filha visse o pai, após seis meses”.

Guilherme Magalhães destacou ainda os telefonemas “aos familiares” dos doentes, para “os tranquilizar”, e as possibilidades das novas tecnologias. “Outra coisa que conseguimos e foi excelente – e o meu agradecimento à NOS – foi a instalação de Wi-Fi nos dois pavilhões covid, que permite aos doentes mais jovens e aos doentes mais idosos, com ajuda, que possam fazer videoconferência com os seus familiares, para diminuir este isolamento que é tão impactante e que é muito difícil. Para mim, os doentes são os grandes heróis”, manifestou.

 

Vida de fé

Este médico de 38 anos é casado e pai de três filhos (o mais velho com 5 anos) e, durante a pandemia, esteve dois meses afastado dos filhos e só viu a mulher uma vez por semana… “Foi muito interessante, porque houve períodos em que eu conseguia rezar, pelo menos, a oração da noite com os meus filhos e acho que era muito importante, principalmente com o mais velho, que já reza o Pai-Nosso, a Avé-Maria, o Anjo-da-Guarda…”, recordou, lembrando ainda que teve de acabar por fazer uma coisa que  “achava ridículo”, os “abraços virtuais, encostando o telemóvel ao ombro”. A celebração da fé foi também vivida com a esposa. “Com a minha mulher, combinávamos sempre a hora a que ‘íamos’ à Missa, para estarmos em Deus ao mesmo tempo, em oração, para celebrarmos a mesma Missa e sentirmo-nos mais próximos”, partilhou.

Sobre a importância da fé na sua missão, Guilherme Magalhães disse ser “a pedra angular, sem dúvida”. “Os cuidados paliativos tentam abordar o doente de uma forma total. Não só a parte física, psicológica e social, mas também a parte espiritual. É importantíssimo o médico estar apetrechado de informação sobre as várias religiões e sobre as várias fés. A mim, enquanto médico, uma coisa que é importantíssima no momento em que eu estou perante o doente é senti-lo como uma dádiva de Deus na minha vida. Nem sempre é fácil, com as correrias e as coisas todas que existem no hospital, mas olhar para o doente e ver que está ali uma pessoa – ‘Estive doente e vieste visitar-me’ é a frase mais certa que nós, médicos católicos, devemos sempre levar perante um doente. Por vezes, não é o medicamento, não é o exame, que melhora o doente, mas sim a relação terapêutica entre o profissional e o doente, que dá confiança, dá esperança ao doente”, considerou.

 

Deus no hospital

Nesta emissão do ‘3 DICAS’ – que pela primeira vez não decorreu em direto, para não coincidir com o fecho da edição em papel do Jornal VOZ DA VERDADE –, este médico destacou ainda ser “importantíssima” a presença dos capelães hospitalares e dos voluntários da capelania nos hospitais. “Já tive várias experiências de pessoas que estavam afastadas e que no momento de fragilidade queriam rezar mais, queriam rezar o terço. Enquanto médico, gostaria de estar ao lado deles e de rezar o terço – já houve uma vez ou outra que o consegui –, mas os voluntários, aqui, são essenciais, porque os capelães são muito requeridos em várias coisas. A presença do senhor padre nas enfermarias dá uma tranquilidade aos doentes que eu acho que é importantíssimo”, defendeu, assumindo que “há ainda pouca sensibilidade dos profissionais de saúde para esta área”.

Guilherme Magalhães garantiu ainda que, neste tempo de pandemia, “nunca” chegou a duvidar da presença de Deus no hospital, e disse “admirar os doentes que conseguiram estar serenos e cumprir as regras com aquilo que era exigido”. “Mais do que os profissionais de saúde, acho que os doentes são uns heróis, que conseguiram cumprir o confinamento. São os verdadeiros heróis e agradeço todos os dias o testemunho que eles deram”, terminou este médico.

 

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As ‘3 DICAS’

Neste programa do Jornal VOZ DA VERDADE, dedicado às ‘Capelanias hospitalares’, foi o médico Guilherme Magalhães que deixou as três dicas.

1.ª DICA: “A importância da vida, para uma questão que é tão importante, como a questão que foi debatida no Parlamento, da eutanásia, que veio mostrar que a nossa vida é importante e interfere com a vida do outro. É muito importante cuidarmos não só da nossa vida e da vida do outro – aqui, a parte contraditória da pandemia, com a lei que agora querem aprovar na Assembleia. Por isso, é importante a autonomia do doente, mas também é importante lembrar que, dessa autonomia, faz parte o respeito pelo outro.”

2.ª DICA: “A vulnerabilidade, que permite-nos repensar a nossa vida, permite-nos cingir àquilo que é essencial e à futilidade das coisas do nosso dia-a-dia e permite-nos também perceber que nesta pandemia houve, de facto, coisas que deixaram de acontecer, e que eram do nosso dia-a-dia, como o futebol ou a cultura, e passámos a viver literalmente daquilo que é essencial, que é a comunidade familiar, a célula da sociedade. A vulnerabilidade deve estar presente na nossa vida, não como uma coisa derrotista, mas como algo construtivo, que nos permite viver com esperança para o futuro, sabendo que somos frágeis.”

3.ª DICA: “A oração, ou a espiritualidade, é muito importante para ajudar as pessoas, de certa forma, a dar a sua tranquilidade, a dar serenidade para a incerteza que existe relativamente ao futuro, relativamente àquela pessoa que nos é próxima e não sabemos o que vai acontecer. A oração a Deus Nosso Senhor é essencial para nos mantermos em união, todos, não física, mas, de certa forma, por via do Espírito Santo, que acaba por nos unir numa teia invisível. Eu senti isso nos momentos em que estive em oração com a minha família, com amigos e com a minha mulher.”


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