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No Camboja, os cristãos precisam de ajuda depois de anos de perseguição
Renascer do holocausto
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A igreja do Padre Totet Banaynaz é um memorial dos anos de violência e barbárie que se abateram sobre o Camboja. As paredes esburacadas de balas são a legenda desses tempos em que os cristãos foram duramente perseguidos. A comunidade quase foi dizimada e só agora está a renascer. Mas são ainda muito poucos e muito pobres. Por isso, o Padre Totet pede-nos ajuda.

 

A Igreja foi construída no século XIX. As suas paredes, ainda com marcas de feridas de balas, são o testemunho silencioso dos tempos cruéis que se abateram sobre o Camboja durante o regime comunista do Kmer Vermelho e da guerra com o Vietname. Foram tempos inumanos de violência e de perseguição. Foram tempos em que a comunidade católica foi praticamente dizimada. Entre 1975 até ao final da década de noventa, as religiões foram proibidas e rezar em público tornou-se uma ousadia praticamente impossível. Nessas décadas de penumbra e sofrimento, os cristãos foram duramente atingidos. As poucas igrejas que existiam foram destruídas ou profanadas. O Padre Totet Banaynaz é simpático. O seu sorriso carinhoso tem ajudado muitas pessoas a descobrir Deus pelas terras do Camboja. Não é fácil ser sacerdote num país onde a comunidade católica é extremamente reduzida. Mas não é a falta de fiéis que o faz esmorecer. Pelo contrário.

 

A única católica

A história do país, desde esses anos trágicos em que o Camboja ficou manchado de sangue, prova que é sempre possível renascer apesar dos holocaustos. Sempre que sente desânimo perante alguma contrariedade, o Padre Totet lembra o exemplo de uma das suas paroquianas, uma mulher já idosa que durante cerca de 15 anos foi a única católica em Prek-Toal, uma localidade que não é mais do que um conjunto de casas construídas sobre jangadas de bambu na foz do rio que corre de Battambang até ao lago TonleSap: “Não havia padre nem comunidade cristã”, explica Totet Banaynaz. Mas isso não a impedia de, todos os anos, pelo Natal, juntar vizinhos e amigos e comemorar o nascimento de Jesus. Hoje, há por ali, na margem do rio, uma igreja flutuante assente também sobre jangadas de bambu. Esta igreja que oscila ao sabor do rio tem vindo a ser cada vez mais procurada pelos habitantes da região. São crianças e adultos que se preparam para o baptismo e a primeira comunhão.

 

Desafio maior

O Padre Totet é uma espécie de guardião de um tesouro que parece escondido no meio da selva. A igreja do rio surpreende sempre os que se deslocam por ali nas compridas jangadas tão comuns no Camboja. É estranho, no meio da densa vegetação, escutar o chilrear das crianças que andam na catequese ou os rumores de orações quando a comunidade se junta para a missa. Para o Padre Totet, o desafio maior é responder à fé crescente das comunidades que vivem do rio e que moram nas suas margens. São pessoas com vidas empobrecidas, austeras, habituadas apenas ao essencial. Mas são pessoas que descobriram, ao longo dos tempos, a riqueza da fé. E o Padre Totet sabe que não pode desiludi-las. A existência ali, naquele serpentear de rios, de uma comunidade católica num país marcado por uma perseguição religiosa tão feroz como o Camboja é, já de si, quase um milagre.

 

Memória de insultos

A comunidade do Padre Totet divide-se essencialmente por duas igrejas. A do rio, que se equilibra docemente no rumor das águas, e a outra, meio encravada na densa vegetação, que foi fundada por um missionário francês no século XIX. Os tempos de violência do regime comunista e depois também a guerra entre Camboja e Vietname deixaram marcas. E feridas. A própria igreja, nas suas paredes ainda esburacadas, testemunha esse tempo de violência, dor e morte. As paredes têm buracos de balas. Imensos buracos de balas. Mas resistiu e é hoje um símbolo da presença cristã naquela região da Indochina. O Padre Totet quer recuperar a igreja, devolvê-la ao sonho inicial do missionário francês que a fez erguer do nada no ano de 1881. Recuperar a igreja será um sinal de triunfo perante a memória dos insultos a que esteve sujeita durante o regime sanguinário de Pol Pot. Diz o padre: “Durante esse tempo, esta igreja tornou-se um lugar muito secular, sem respeito”. E recorda como na ânsia da perseguição aos cristãos, o templo foi profanado. “A Igreja foi estábulo para vacas e mais tarde fábrica de descasque de arroz. Todos os sinais de santidade tinham desaparecido. Mas as pessoas têm boa memória.”

 

Receber alguma coisa…

As pessoas têm boa memória, mas são muito pobres. “A nossa colecta diária é de cerca de 3 euros”, explica o padre. E acrescenta que os três euros representam, em toda a sua pobreza, muita generosidade. Recuperar a igreja significa ter de envolver pessoas de fora. A comunidade local não tem recursos para tanto. “Dependemos sempre de pessoas de fora que queiram ser missionárias connosco… Eu trato os benfeitores que nos apoiam como parceiros missionários”, diz o sacerdote. “Temos sempre algo para lhes dar: o exemplo da nossa vida, a nossa simplicidade e o nosso sofrimento.” E o exemplo de fé que cresce de dia para dia. Agora, na aldeia da igreja que ainda tem marcas de balas nas paredes, há já setenta baptizados. São como que uma semente que tem vindo a crescer em terra fértil. Recuperar a igreja é o sonho do Padre Totet. Ele pede-nos ajuda. “Digo sempre às pessoas de cá: ninguém é tão pobre que não tenha nada para dar. E ninguém é tão rico que não possa receber alguma coisa.”

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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