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Semear é preciso

Há na pintura “O Semeador” de Vincent Van Gogh uma janela luminosa para a parábola que Jesus conta no evangelho de hoje. Os inúmeros campos de trigo pintados por Van Gogh, cheios de sol e cores vibrantes, retratam a alma atormentada e apaixonada do pintor. Realizou oito releituras do quadro de Millet com o mesmo nome e, na mais famosa, o camponês parece flutuar no meio do quadro, andando fora do caminho, lançando energicamente as sementes, que alguns corvos debicam, sob um sol elétrico e cores vibrantes. Como Cristo semeando a vida em pleno sol. Não é possível ficar indiferente à vida e obra de Van Gogh que pode ser apreciada na exposição “Meet Vicent Van Gogh” ali ao Terreiro das Missas, junto ao Museu da Electricidade em Belém.

 

O semeador da parábola é surpreendente: não escolhe nem prepara o terreno; semeia abundantemente, por todo o lado; em terrenos devastados e calcinados pela guerra, ódio e miséria; terrenos de sofrimento e aflição; terrenos férteis e acolhedores. A sua atitude é de gratuidade e esperança. É um homem de acção, que se abre para o amanhã e o futuro, que aceita com paciência a lentidão do crescimento e a contrariedade dos obstáculos. Vive a alegria de semear antes da expectativa de colher. Porque a semente que lança não se esgota. Chama-se evangelho, boa nova para todos os terrenos, capaz de produzir muito apesar da sua aparente insignificância. E tudo começa por um movimento: “Saiu o semeador a semear”. Quem não lembra a “Igreja em saída” que o Papa Francisco tanto tem insistido? E como realizar essa “saída” nos tempos difíceis de contingência que a pandemia nos reclama?

 

No “Sermão da Sexagésima” do Padre António Vieira saboreamos uma admirável argumentação sobre esta parábola: “Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras!” Cristo é o semeador e também a semente. Que morre nos terrenos da paixão e ressuscita no bom terreno.

 

A pequenez da semente e o lento germinar fazem desistir alguns. Outros desanimam porque esperam colher muito semeando pouco. A cultura do imediato e o “pronto-a-consumir” impedem a abundância e a beleza dos frutos. Há uma ousadia em “semear entre lágrimas”, quando apetece desistir e fechar as portas à esperança. Tão semelhante às palavras de Miguel Torga: “Todo o semeador / Semeia contra o presente. / Semeia como vidente / A seara do futuro, / Sem saber se o chão é duro / E lhe recebe a semente.

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