Lisboa |
Cónego João Rocha (1934-2020)
Uma vida de “entrega a sério!”
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O cónego João Rocha faleceu no passado dia 6 de julho, aos 85 anos. Colegas, amigos e paroquianos recordam, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o percurso do “gentleman” empreendedor que, apesar de ter impulsionado a construção de duas igrejas, “fez mais a Igreja das pessoas do que a dos tijolos”.

 

“Conheci-o no seminário, quando entrei. Ele já era teólogo, era do curso do senhor D. José Policarpo”, precisa, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o cónego Janela, amigo do cónego João Rocha, com quem manteve uma amizade de uma vida. “É um amigo que parte e que eu sinto falta”, assume este sacerdote, lembrado dos inúmeros momentos de convivência e de trabalho pastoral que, juntos, desenvolveram e que passou por várias gerações. Enquanto pároco de São Nicolau, nos anos 70, o cónego António Janela teve como vigário o cónego João Rocha – enquanto este foi pároco de São Mamede – e lembra-se da importância de um grupo informal, composto por párocos daquela zona da cidade, que se foi juntando, durante esse período, uma vez por mês, para jantar e para “acertar coisas práticas”, relacionadas com a gestão das paróquias. “E eu sou o último que ficou do grupo inicial. Foi um grupo que começou da necessidade de acertarmos coisas práticas, mas também foi desse grupo que nasceu a Capela das Amoreiras e, depois, a Capela do Colombo e também a Escola de Leigos. O João era um dos fundadores”, recorda o cónego Janela. “Era um gentleman, um homem que apreciava muito essa convivência e era, de facto, um bocado forte nas suas convicções, tendo sempre um sentido crítico das coisas, mas com uma perspetiva muito eclesial”, recorda este sacerdote.

No ano 2000, o cónego António Janela sucedeu ao cónego João Rocha como pároco da Portela, paróquia que tinha um templo dedicado há menos de dez anos. A passagem de testemunho “foi a melhor possível”, lembra. “Éramos amigos! Eu sou muito diferente dele, mas nunca deixou de me chamar a atenção. Encontrei uma marca pastoral muito forte. Era um homem que tinha a sua abertura, o que tinha a dizer, dizia, mas não era pessoa que afastasse”, sublinha este amigo, salientando também o trabalho “relevante” que o cónego João Rocha desenvolveu enquanto responsável do Secretariado das Novas Igrejas (1970-1988) e do Secretariado do Ensino Particular Diocesano (1971-1978).

 

Ao serviço

Após a ordenação sacerdotal, em 1969, o cónego João Rocha foi, durante onze anos, fâmulo [colaborador próximo] do então Cardeal-Patriarca, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, e desempenhou também outras funções na Cúria diocesana, inclusive com o seu antigo colega de curso D. José Policarpo. No entanto, durante os 59 anos de sacerdócio, foi, sobretudo, a missão de pároco que lhe ocupou cerca de um terço da sua vida sacerdotal. Primeiro, em São Mamede, entre 1974 e 1986, onde referiu ter sido o introdutor, em Portugal, no ano de 1985, da valência de Apoio Domiciliário, entretanto replicada por todo o país. Depois, entre 1986 e 2000, na Paróquia da Portela, onde encabeçou o projeto de construção da igreja, sem descurar a animação pastoral e comunitária de uma nova comunidade.

 

“Uma vida desafiante”

Na Paróquia de Cristo-Rei da Portela, o padre João Rocha “fez mais a Igreja das pessoas do que a dos tijolos”, destaca, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre Carlos Silva, natural daquela paróquia, recordando a “proximidade” do sacerdote que o desafiou a pensar em entregar a sua vida à Igreja. “Quando acabei o curso de Química, com 24 anos, ele chamou-me e perguntou-me, na cara, se nunca tinha pensado consagrar-me. A pergunta apanhou-me desprevenido porque estava farto de pensar nisso e não tinha tido coragem nenhuma para avançar”, revela o atual diretor do Externato de Penafirme. “A resposta foi evasiva, mas ele percebeu e não se aborreceu nada com isso. Deve ter entendido que, por ali, havia, alguma confusão”, acrescenta. Mais tarde, em 1996, por iniciativa do seu pároco, o então jovem Carlos Silva recebe um convite para uma atividade do Pré-Seminário e foi por aí que começou o acompanhamento vocacional, levando-o à entrada no seminário, no ano 2000. Era o terceiro rapaz daquela paróquia a entrar no seminário. “O padre João Rocha foi sempre alguém muito próximo no acompanhamento, muito atento às capacidades de cada um ir respondendo, sem insistir. A sua vida era uma entrega a sério! Não foi uma questão de história ou de um acontecimento. Essa vida entregue foi desafiante para mim. Foi uma prova de que era possível e que era uma vida bonita”, recorda este sacerdote, hoje com 47 anos.

 

Na busca pelas “pedras vivas”

A partir do ano de 1999, o cónego João Rocha recebeu outra missão, como pároco de Santa Joana, Princesa. Em comum com a paróquia anterior: a construção de uma igreja. No entanto, e mais uma vez, o foco da sua ação não foi apenas a preocupação com o betão, mas o cuidado com as “pedras vivas”. “Ele mexeu muito a nível pastoral”, refere ao Jornal VOZ DA VERDADE Paula Borges, uma paroquiana de Santa Joana, Princesa, que conheceu o sacerdote quando este chegou à paróquia. “Não havia grupos de catequeses... Eu, o meu marido e o padre João Rocha andámos à procura dos contactos dos miúdos que tivessem cá andado na catequese para chamá-los novamente”, recorda. Paula lembra que, em 1999, aquela era uma paróquia “muito envelhecida” e que funcionava numa pequena capela, numa escola. “Como bom gestor que era, o padre João Rocha desdobrou-se em negociações para a construção da igreja”, salienta esta paroquiana, destacando o cuidado do sacerdote em prever que a construção do complexo paroquial libertasse também a paróquia de outros encargos, através da concessão do equipamento social e outras formas de exploração.

A presença no acompanhamento das famílias também se fez notar por parte do cónego João Rocha. Paula Borges testemunha isso, recordando o facto de este sacerdote ter casado as suas duas filhas. “Ele tentou puxar imenso pelas famílias. Eu e o meu marido éramos dos casais mais novos e ajudámo-lo a ir buscar outras famílias. Tocou a muitos nesta paróquia e percebia perfeitamente quando alguém estava mais em baixo e precisava de apoio”, assegura Paula, que lembra a “capacidade de iniciativa” do sacerdote para a realização de atividades. “Ele tinha imensa iniciativa e isso ficou demonstrado nas atividades que organizou durante o ICNE [Congresso Internacional para a Nova Evangelização, que decorreu em Lisboa, em 2005]”.

 

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Um “construtor que foi para além do cimento”

Na Missa exequial do cónego João Rocha, o Bispo Auxiliar de Lisboa D. Américo Aguiar agradeceu a “vida tão rica” do sacerdote apontado como um “construtor que foi para além do cimento”, numa referência aos projetos de construção das igrejas de Santa Joana, Princesa e da Portela, de que o sacerdote, agora falecido, foi responsável. “Para além de construir o edifício também teve a preocupação de construir a Igreja propriamente dita, a comunidade”, sublinhou.

Na homilia da celebração que decorreu no passado dia 8 de julho, na Igreja de Cristo-Rei da Portela, D. Américo Aguiar referiu os quase 60 anos de caminhada sacerdotal do cónego João Rocha e deu-os como exemplo para superar os desafios que se colocam a cada geração. “Sessenta anos… vemos que a vida mudou, vimos como este sacerdote – e outros que aqui estão – já viveram momentos tão diferenciados da própria Igreja, da própria sociedade, daquilo que são os desafios colocados às pessoas, instituições, mesmo hoje, quando estamos aqui todos ´mascarados´ por estarmos a responder a um tempo que não imaginávamos viver e que nos é colocado como um desafio. Queremos dar graças a Deus por este nosso irmão, por tudo o que significou agarrar os desafios que foram sendo colocados pelos sucessivos Cardeais-Patriarcas de Lisboa. A todos eles foi correspondendo com o seu ‘sim’. Em todas as áreas onde serviu, em tudo o que teve a sua presença, os testemunhos são positivos”, realçou o Bispo Auxiliar de Lisboa, pedindo a intercessão do sacerdote junto de Deus, para que “continue a construir a Igreja e, principalmente, que se dedique à área vocacional”. “Que ele possa, junto de Deus, ajudar-nos a espalhar a semente da vocação, por esta nossa Igreja, por este país, porque a messe é grande e os trabalhadores são poucos”, desejou D. Américo Aguiar.

texto por Filipe Teixeira; fotos por Filipe Teixeira e arquivo
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