Doutrina social |
Pandemia
Há mais vida para além do Covid
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O estado de emergência primeiro e o de calamidade a seguir obrigou-nos a entrar no inédito e impensável, sentindo-nos como no meio de uma tempestade. Os noticiários começavam e terminavam à volta disso. A pergunta que desde o início se levantava “quando é que voltamos ao normal?” foi-nos ensinando a moldar a resposta: temos de viver o hoje que temos e esperar a surpresa que o amanhã nos vai trazer. A vida tem de continuar e, no complexo das ações e dos sonhos, foram muitas as vozes que foram emergindo da tempestade referindo um dado essencial: a vida não é só pandemia; há mais para além do Covid.

 

A aprendizagem que é necessária

Apesar das dimensões e do impacto da mesma, podemos hoje dizer que estamos mais preparados para enfrentá-la. Bastaria uma ligeira incursão na história da “gripe espanhola” de há 100 anos. Mais do que no tempo estamos afastados nas condições dos hospitais, nos conhecimentos e práticas científicas, no acesso aos medicamentos, na abordagem global do problema e tudo isto num contexto de uma comunicação globalizada. Nem o sistema de saúde, nem o acesso aos bens alimentares ou aos combustíveis ficaram sem controle. Por isso, ainda que tudo seja muito sério, há muito mais que não pode ficar na sombra: temos outros vírus tão mortíferos ou mais do que o Covid; temos outros “inimigos” ferozes e conhecimento para os atacar. Temos a fome em grande escala, a ausência de cuidados de saúde, as guerras, os refugiados, a discriminação e o desrespeito pelas minorias, os fundamentalismos e o terrorismo, um fosso maior entre ricos e pobres, e como coroa temos a crise climática.

 

Os outros inimigos

Para além da pandemia, a preocupação pela fome foi a mais constante na comunicação social. Já era uma praga chocante e vergonhosa, mas com a pandemia tornou-se obscena. O Diretor do Programa Alimentar Mundial, David Beasley, disse que os impactos trazidos pelo Covid-19 colocaram o mundo em território desconhecido e fala de “situações de fome de proporções bíblicas”. Devido à pandemia, pelo menos 265 milhões de pessoas estarão em risco de morrer à fome; é quase o dobro daquilo que apontavam as previsões antes dela. Nalguns territórios há milhares de pessoas, não só com fome, mas no limiar da morte por causa dela. Essa anda ligada à guerra e ao seu suporte que é o comércio de armas, bem como ao investimento militar contrapondo com o desinvestimento em sistemas de saúde. Por isso, há poucos dias, o Presidente da Comissão do Vaticano para a Covid-19 apresentou a sua preocupação com o “tsunami” de crises humanas e defendeu a aplicação do dinheiro gasto em armamento no reforço dos sistemas de saúde.

Os efeitos da pandemia constatam-se facilmente nos grupos já fragilizados pelos efeitos das agressões ao ambiente.

Na celebração do Dia Mundial da Terra, a 22 de Maio, o Secretário-Geral da ONU propôs à comunidade internacional ações concretas para salvar o planeta dizendo: “O impacto do coronavírus é imediato e terrível. Mas há outra emergência profunda, a crise ambiental do planeta”. Nessa linha a Diocese de Manaus e várias ONGs alertaram para o estado de calamidade nunca visto naquela região amazónica e pediram ajuda urgente. O próprio Papa Francisco telefonou ao arcebispo de Manaus, pedindo informações sobre a situação e alertando para as consequências globais; é que os gases de estufa são como os vírus, que ignoram fronteiras nacionais.

 

Aprender de novo a ver

Ninguém previa ou estava preparado para isto. No entanto a vida tem de continuar para além do coronavírus. Mas não pode ser igual à que se vivia antes. Provavelmente terá de ser uma vida mais simples, mais modesta, menos centrada nas coisas e mais nas pessoas, na sua dignidade, nas suas necessidades básicas, mas também metafísicas e espirituais, e mais respeitadora do planeta que nos foi dado como casa comum. Só assim teremos um olhar mais apurado que nos leve a entender a mesquinhez de quem vive embrulhado em si mesmo e assim pensa, como escreve o poeta Fernando Pinto, que “é muito mais grave jogar um papel no chão na Suíça do que queimar uma floresta inteira na Amazónia… é muito mais intolerável o chador de uma muçulmana que o drama de mil desempregados em Espanha… é mais revoltante um português sem telemóvel do que um moçambicano sem livros para estudar”.

texto pelo P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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