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“Cuidar da casa comum é a concretização da nossa missão cristã”

O teólogo Juan Ambrósio entende que a encíclica Laudato si’ vem dizer à Igreja que “as questões do cuidar da casa comum é um exercício da identidade cristã”. No 5.º aniversário da encíclica ecológica e social do Papa Francisco, o programa ‘3 DICAS’ contou ainda com a presença do presidente da Zero, Francisco Ferreira – que considerou a Laudato si’ uma “encíclica de alerta”, “muito marcante” –, e apresentou a Rede Cuidar da Casa Comum, que quer “dar a conhecer a encíclica”, segundo referiu Rita Veiga, da comissão executiva.

 

Passados cinco anos da publicação da Laudato si’, a encíclica comprometeu a Igreja na emergência de salvaguardar os recursos naturais do planeta? Teólogo e professor da Universidade Católica Portuguesa, Juan Ambrósio respondeu, no ‘3 DICAS’, ter assistido a “diversas dinâmicas”. “Num primeiro momento, este texto foi recebido com surpresa e entusiasmo, e com um certo ‘é bom falar destas coisas do ambiente’. Ele surgiu muito próximo daquele grande encontro em Paris, onde se procuraram grandes compromissos, mas, vamos ser sinceros: num primeiro momento, nas comunidades cristãs, ficou por esse entusiasmo primeiro. Não considero que tenha havido uma leitura e uma receção deste texto como houve, por exemplo, da Evangelii Gaudium, que foi um texto lido por praticamente todas as comunidades. Mas, agora, sim, com a atitude, com o chamar constantemente à atenção para esta temática, a encíclica está, finalmente, a ser rececionada, a ser posta em cima da mesa”, analisou. Para este teólogo, na emissão transmitida em direto na noite da passada segunda-feira, 20 de julho, “estas questões não são questões que estão para além do Evangelho”. “Dito de outro modo: temos esta atitude, somos cristãos, e, porque somos cristãos, também temos de cuidar da casa comum, como se fosse simplesmente uma consequência. Não! Julgo que este texto nos vem dizer que as questões do cuidar da casa comum, de modo a que ela não seja simplesmente um espaço ocupado, mas possa ser um lar habitado – e esta transformação de espaço ocupado para lar habitado é fundamental –, é também um exercício da nossa identidade cristã, é também a concretização da nossa missão cristã. Ou seja, trata-se do mesmo Evangelho”, observou, sublinhando que, para si, “vai sendo cada vez mais claro que os dois grandes pilares onde assenta o pontificado de Francisco – e, portanto, os desafios que são lançados à Igreja neste momento – são a Evangelii Gaudium e a Laudato si’”. “Ou seja, uma Igreja constantemente renovada e em missão, para cuidar da casa comum”, resumiu.

 

“Nós também somos Terra”

No passado dia 24 de maio, com a ‘Oração comum pela Terra e a Humanidade’, teve início o Ano Laudato si’, convocado pelo Papa, que pretende, segundo referiu Francisco, “chamar a atenção para o grito da Terra e o grito dos pobres”. No ‘3 DICAS’, Juan Ambrósio considerou que estes dois gritos gritam em uníssono e reclamam respostas conjuntas. “Essa é uma das grandes dimensões que Francisco traz para cima da mesa. Quase que diria que é o mesmo grito, até diria assim: o grito da Terra e o grito da humanidade, e, dentro dessa humanidade, os pobres têm um lugar especial”, apontou. “Há uma coisa que este texto diz e di-lo de uma maneira muito clara, logo nos seus primeiros números: nós também somos Terra. O ser humano também é Terra. Portanto, nós não somos um ser à parte, nós não somos simplesmente alguém que ocupa o planeta, alguém que ocupa um espaço. Nós somos também membros desse planeta que não é simplesmente um lugar para ocupar, mas uma Terra para habitar por todos”, reforçou, desejando que “esta casa possa ser um lar, e um lar para todos, onde não haja descartados, onde não haja sobrantes”.

Para este professor da Universidade Católica, uma “dimensão fundamental” da encíclica – “inclusive, talvez mais hoje, cinco anos depois, e com esta situação de pandemia” – é que “tudo está interligado”. “Com o que acontece no mercado de um país longínquo, todo o mundo pára por causa disso. É interessante percebemos como tudo está interligado e não temos outra solução se não em conjunto, como uma só família humana, lidar com estas coisas”, frisou. Por isso, no final, Juan Ambrósio voltou a sublinhar que “o cuidado da casa comum deve ser assumido como traço não só característico, mas identificativo, da identidade cristã”.

 

“Uma encíclica de alerta”

A 15.ª e última emissão do ‘3 DICAS’ contou também com a participação de Francisco Ferreira, presidente da Zero, uma associação não-governamental de ambiente, que começou por refletir sobre se o mundo terá aprendido algo com a pandemia, em termos ambientais. “Realmente, a pandemia, por um lado, reduziu muito os níveis de poluição, porque ficámos em casa, o uso do carro diminuiu muitíssimo, também os aviões, a atividade industrial e, portanto, vimos e usufruímos de cidades de forma completamente diferente, ouvimos o ruído dos pássaros em vez dos aviões, respirámos ar mais puro, e sem dúvida que foi um grande benefício que o confinamento nos trouxe. Mas, há sempre o reverso da medalha – para além de toda a crise, obviamente, que está em causa, do ponto de vista social e económico – e estamos agora com várias ameaças e uma delas é precisamente a crise de confiança no uso do transporte público e o recorrer ao automóvel. Felizmente, as cidades estão a dar sinais de restringir, em muitas vias, o automóvel para permitir o uso da bicicleta e o andar a pé. Depois, temos o problema dos plásticos. Há muitas associações, à escala mundial, que fazem recolhas nos oceanos e já estão a descobrir máscaras e luvas…”, referiu Francisco Ferreira, considerando que “a pandemia deveria, acima de tudo, questionar-nos sobre o tipo de sociedade que temos e o futuro que queremos”. “Por algum motivo, o Papa Francisco acaba por lançar o Ano Laudato si’ e lançar 200 ‘mandamentos’ relativos àquilo que pode ser um novo alerta, cinco anos depois de ter lançado a encíclica”, observou.

Este ambientalista sublinhou ainda, durante o programa do Jornal VOZ DA VERDADE, como cada um pode contribuir para um mundo mais sustentável. “A primeira coisa é que é importante percebermos que todos temos uma missão. Há realmente um conjunto de mudanças que nós podemos e devemos fazer na gestão dos resíduos, na escolha da nossa alimentação, dos produtos, do evitar o desperdício, do uso da água… Tudo isso, penso eu, são oportunidades que ganharam força, mas que têm agora de continuar, ainda com mais veemência, neste período de desconfinamento, de um voltar não ao tipo de funcionamento que nós tínhamos, mas sim a um funcionamento mais amigo dos outros e mais amigo do ambiente”, desejou.

Francisco Ferreira considerou ainda que a Laudato si’ “foi, sem dúvida, muito marcante, não apenas para os católicos, mas para muitos movimentos e organizações de ambiente à escala europeia e mundial”. “Há muitos movimentos ligados ao ambiente que estão ligados a diferentes Igrejas, quer Igrejas cristãs quer mesmo de outras religiões. Francisco, efetivamente, promoveu um sentido ecuménico e um sentido de alerta que chamou a todos. Aliás, a própria encíclica tem apenas um ou dois capítulos verdadeiramente mais direcionados para os católicos, porque, de resto, é uma encíclica de alerta, em linha perfeita com aquilo que o secretário-geral das Nações Unidas, o engenheiro António Guterres, tem vindo a alertar, para a necessidade de nós fazermos um desenvolvimento que não deixa ninguém para trás, que não exclui os países em desenvolvimento, que respeite os direitos de todos, que salvaguarde, acima de tudo, as próximas gerações. Portanto, foi uma lufada de ar fresco, que se juntou aos jovens de todo o mundo com o movimento que a Greta Thunberg dinamizou e, portanto, há aqui uma conjugação de vontades que tem de passar como uma verdadeira mudança da sociedade em relação ao respeito pelo planeta, e, acima de tudo, respeito por quem vem a seguir”, frisou o presidente da Zero.

 

Dar a conhecer a encíclica

A Rede Cuidar da Casa Comum esteve também representada no ‘3 DICAS’, com Rita Veiga, da comissão executiva, a referir que esta é “uma organização completamente informal”, que reúne “diversas entidades”. “Em 2017, ainda com a professora Manuela Silva – impulsionadora da rede – entre nós, numas conversas na Fundação Betânia, começámos a ver que a encíclica Laudato si’ tinha um conteúdo muito importante, mas não estava a fazer eco no meio católico. Propusemos criar a rede no sentido de haver uma estrutura que se estendesse e abrangesse todos, ou quase todos”, contou, sublinhando que a rede “propõe-se essencialmente dar a conhecer a encíclica, e levar as pessoas a aprofundar a sua mensagem”. “A partir daí, a dois níveis, por um lado conseguir uma conversão pessoal, uma conversão espiritual, baseada na proposta da Laudato si’; e também fazer uma conversão em relação à vida das pessoas, as formas concretas, os seus estilos de vidas, os seus comportamentos. Para isso, a rede propõe uma dinâmica, que pretendia que fosse sobretudo alargada nas paróquias, mas aí não teve grande desenvolvimento”, lamentou.

Em junho, o Vaticano lançou um ‘manual’ de aplicação da Laudato si’ e apontou a Rede Cuidar da Casa Comum como um exemplo na divulgação da encíclica. “Sem dúvida que isso trouxe-nos maior responsabilidade”, considerou Rita Veiga. “Sentimo-nos honrados e soube bem, mas de facto não podemos ficar parados. Entre nós, na comissão executiva, o que conversámos foi que isso nos aumentava a responsabilidade, mas aumentava a motivação. Não é um peso, é uma forma de dar ânimo, porque é o reconhecimento daquilo que nós temos tentado fazer”, acrescentou. Rita Veiga destacou ainda que “os meios humanos e materiais” da rede “são muito escassos”, mas querem “dinamizar” a ação. “Esperamos, ao longo do verão, e até entrarmos no famoso tempo da criação – que se prolonga de 1 de setembro até 4 de outubro –, conseguir dinamizar a nossa ação e dar visibilidade aos nossos objetivos, muito através das entidades com quem trabalhamos. Para isto, temos um instrumento bastante importante que é o nosso site [www.casacomum.pt]”, lembrou.

No contexto do Ano Laudato si’, que se prolonga até maio de 2021, a Rede Cuidar da Casa Comum vai “sinalizar”, no dia 14 de novembro, “o terceiro aniversário da rede”, segundo revelou Juan Ambrósio, que também integra esta organização. “Queremos divulgar aquilo que consideramos ser a nossa missão e a nossa visão, envolvendo todos os membros da rede”, referiu. Este teólogo destacou ainda a “parceria” da rede com o Instituto Diocesano da Formação Cristã para “desenvolver um curso online sobre a Laudato si’”. “Será um curso gratuito, aberto a toda a gente que se queira inscrever, onde vão participar vários membros da rede e outras pessoas. Está atualmente a ser construído esse itinerário, que começará a ser divulgado em outubro e iniciará em novembro”, anunciou, frisando igualmente a “parceria com a Universidade Católica”, que “está a marcar este ano com várias ações perto do dia 24” de cada mês. “Uma delas será também em parceria com a Rede Cuidar da Casa Comum”, revelou. “Este Ano Laudato si’ tem por objetivo a elaboração de um compromisso, a sete anos, para um futuro sustentável”, terminou Juan Ambrósio.

 

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As ‘3 DICAS’

Nesta emissão dedicada à encíclica Laudato si’, foi o teólogo Juan Ambrósio quem deixou as três dicas, no final do programa em direto. “Deixo três dicas enquadrando numa coisa que Francisco disse e que considero muito importante: quando estamos, agora, numa de regresso ao normal, que chamamos ‘novo normal’, que este ‘novo normal’ não seja só porque andamos de máscara e, porventura, de luvas e que tenha outra novidade. Regressar à vida no ponto em que nós a interrompemos, não serve. Numa categoria teológica, a ressurreição não é isso. A ressurreição não é o retomar a vida, voltar à vida no momento em que a vida biológica terminou… essa vida continua, mas continua com uma dimensão nova e uma dimensão que nos abre a outras dinâmicas”, observou o professor da UCP, antes de deixar as três dicas.

 

1.ª DICA: “Os estilos de vida. O que é que cada um de nós é capaz de mudar no seu estilo de vida, tendo em conta que a encíclica propõe que tenhamos estilos de vida mais sóbrios, na linha da sobriedade. O que nós podemos fazer a este nível? Cada um, concretamente, mudando algo no seu estilo de vida, na maneira como consome, na maneira em que gasta recursos.”

 

2.ª DICA: “A dimensão do cuidado comum seja também incorporada na nossa maneira de viver a espiritualidade e viver a conversão. Que a nossa conversão não seja: ‘será que eu cumpro as normas morais, será que eu sigo a doutrina’, mas seja capaz de integrar, também, toda esta dimensão do cuidado da casa comum como elemento constitutivo, identificativo, do que é a identidade e a missão cristã.”

 

3.ª DICA: “Ao nível das comunidades cristãs e das paróquias, dos grupos, das associações, dos movimentos: que compromisso, cada um, é capaz de assumir neste contexto da Laudato si’. Para isso, pode usar aquele ‘manual’ onde se referem as 200 sugestões, que ainda não está disponível em língua portuguesa, mas vai estar, certamente, rapidamente. Seria importante que as paróquias se envolvessem e percebessem que também lhes é pedido um gesto concreto.”

 

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