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Que tesouros procuramos?

O que mais custa na desgraça deste vírus é não poder estar com os meus netos; abraçá-los e dar-lhes beijinhos!” Desabafava assim uma avó entre lágrimas, que, sem saber, se tornava porta-voz de um dos sofrimentos maiores desta pandemia: a distância entre avós e netos. No fundo, o doloroso distanciamento entre os nossos “maiores” (bela expressão quando a outra, “velhos”, tem amargo sabor a “descartáveis”!) e a infância dos que lhes são queridos.  A memória dos avós de Jesus, que a liturgia assumiu com os nomes de Joaquim e Ana, e hoje recordados, possa fazer-nos lutar por esse tesouro do convívio de gerações, da riqueza de experiências que se partilham, da sabedoria e novidade que se abraçam, do passado e do futuro que se encontram.

 

É admirável o tesouro da tecnologia, mas nunca substituirá o tesouro do afecto, do toque, do abraço ou do beijo. É importante o tesouro da economia, de acordos de recuperação e entreajuda financeira como o que foi aprovado na União Europeia, mas mais importante ainda a honestidade e responsabilidade na aplicação do dinheiro para o bem comum e não para a ganância e a desigualdade. São fundamentais os tesouros da saúde, da educação e da justiça, mas é preciso continuar a lutar para que sejam acessíveis a todos, sem distinções nem exclusividades. É essencial o tesouro da vida, que nos convoca a comprometer o coração na sua promoção e defesa, conscientes da sua fragilidade e grandeza.

 

O reino dos Céus, narrado por Jesus em sete parábolas, é Ele mesmo. Ele é a semente, pequena e cheia de vida; o fermento escondido que faz crescer o pão; que morre para dar vida; que cresce no meio do mal e reconhece-se pelos frutos; é o tesouro e a pérola preciosos que precisam ser procurados e escolhidos; é a rede que tudo recolhe e onde é preciso escolher o melhor. Assim, o reino dos Céus exige um trabalho de discernimento. É preciso a coragem de uma escolha decisiva: dar tudo para guardar o melhor. É um trabalho de coração o discernimento: só um coração que ama sabe fazer a boa escolha, à semelhança de Salomão que pediu a Deus “um coração inteligente”.

 

O tesouro que é Jesus Cristo transforma-nos também em tesouros. Únicos e preciosos. Por isso importa inventar novos modos de proximidade e comunhão para estes tempos difíceis. Convívios antigos e novos, vermo-nos e ouvirmo-nos com maior atenção, dizermo-nos quanto somos importantes uns para os outros. Pede-se criatividade e ousadia para colocar em primeiro lugar o melhor. Será que não há tesouros de futuro a descobrir, quer na relação renovada com Deus, quer na de uns com os outros?

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