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Na Libéria, o centro de acolhimento de Ganta é um mundo à parte…
O sapateiro da leprosaria
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No norte da Libéria, no meio da floresta, como se estivesse escondido, existe uma leprosaria e centro de reabilitação para tuberculosos. É em Ganta. Parece um fim do mundo. Para muitas das pessoas que por ali vivem, Ganta é, de certa forma, todo o mundo. O trabalho que as Missionárias da Consolata desenvolvem em Ganta é ajudado por Martin Dolo. Não é enfermeiro, nem médico, nem psicólogo. É apenas sapateiro, mas quase faz magia…

 

A lepra é uma doença insidiosa, faminta, que vai corroendo a pele, que vai deixando marcas. A lepra é ainda hoje uma palavra que assusta, que afasta, que repugna. Ali, em Ganta, no norte da Libéria, as Missionárias da Consolata fazem muito mais do que cuidar daqueles homens e mulheres a quem um dia foi diagnosticada a doença. As irmãs são mais do que enfermeiras ou médicas. Cuidam das pessoas, procurando devolver-lhes o sentimento de dignidade que a lepra parece corroer. A Libéria é um país marcado pela guerra, pobreza e morte. A esperança média de vida é de apenas 45 anos. A história recente do país está ainda marcada pelo fantasma da guerra civil. Foram anos de um conflito aterrador que deixou marcas em todo o lado, em todas as pessoas. De alguma maneira, na Libéria são todos sobreviventes. Ali, em Ganta, também. A falta de comida e o analfabetismo andam de mãos dadas neste país africano, o único que não foi colonizado por nenhuma nação europeia.

 

Sobraram as paredes

Em Ganta, na leprosaria, vive-se num mundo à parte. O espaço sofreu várias vicissitudes. No final da década de 90 do século passado, em plena guerra, tornou-se necessário reabrir a leprosaria. Foi necessário quase começar tudo de novo. O que existia era quase nada. Apenas escombros do antigo centro. A guerra transporta, muitas vezes, o pior de que o ser humano é capaz. O local foi saqueado, as camas, os móveis e as casas de madeira dos doentes foram arrancadas e transformadas em lenha. Cozinharam com pedaços de móveis, com bocados de portas, de janelas, de soalho. Sobraram as paredes. Aos poucos o centro foi reabilitado. Hoje, alberga dezenas de pessoas. As irmãs procuram que todos ali possam ter uma vida tão normal quanto possível. Essa é também a missão de Martin Dolo. Ele é sapateiro. Ali, no centro, é no entanto muito mais do que isso. É quase um fazedor de magia pela forma como consegue fazer sapatos de quase nada. Ali, diz, nada se perde. “O material é dispendioso e nós não conseguimos arranjá-lo. Por isso, não desperdiçamos. O nosso desperdício é mesmo desperdício total, aquilo que já ninguém consegue usar”, diz, soltando uma gargalhada.

 

Devolver o andar

O seu sorriso é uma das vitaminas do centro. Martin não deixa ninguém indiferente. Ele sabe que faz mais do que sapatos. Devolve o andar a todos os que vivem por ali. E, às vezes, isso é quase um milagre. Enquanto arranca pregos já retorcidos de pedaços de couro que pretende ainda transformar em solas, Martin explica com uma eloquência muito própria toda a sua arte. “Não fazemos sapatos para pessoas comuns, mas para aquelas que tiveram lepra. A lepra é um problema de pele, mas quando um problema de pele afecta os nervos, quando a ferida fica tão infectada que não pode ser controlada, então provavelmente tem de ser extraída pelo médico. Essa é a principal razão pela qual cá estamos. Para fazer sapatos para pessoas que não têm dedos dos pés.” Cada utente é, por isso, único. Não há duas pessoas com marcas iguais. A deformação na pele e no corpo provocada pela lepra é quase como uma impressão digital. Martin diz que o seu objectivo é apenas esse, fazer sapatos para pessoas com lepra. Ajudar.

 

Paciência de artesão

Ali, em Ganta, todos se conhecem uns aos outros. Todos sabem as suas histórias, todos compartilham aquele espaço que é uma espécie de refúgio. Um santuário de amor e carinho onde estão protegidos de uma sociedade que continua a ter dificuldade em lidar com a doença. Martin Dolo faz mais do que sapatos. Devolve o andar devolvendo a confiança às pessoas a quem manufactura, com paciência de artesão, sandálias, botas, chinelos… São sempre mais do que sapatos, pois procuram também esconder a lepra. Principalmente para os mais jovens, os que ainda não se resignaram com uma vida diminuída. “Têm vergonha, têm medo de ser estigmatizados, porque são sandálias para a lepra. Isso acontece sempre com os jovens. Procuramos fazer sapatos mais modernos, mais extraordinários, mas com protecção, para que não se note… que é aquilo que eles receiam.” São sapatos que escondem. São quase um milagre. Das mãos e do engenho de Martin Dolo nascem sapatos que trazem felicidade e devolvem esperança. No norte da Libéria, no meio da floresta, como se estivesse escondido, existe uma leprosaria e um centro de reabilitação para tuberculosos. Por lá trabalha um homem que não é enfermeiro, nem médico, nem psicólogo. É apenas sapateiro, mas quase faz magia…

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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