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António Bagão Félix
O estigma da velhice e a pandemia

Há poucos meses, a actual legislatura começou com a excitada prioridade dada à eutanásia travestida de morte clinicamente assistida. Logo de seguida, um traiçoeiro vírus pandémico arrastou todos os projectos de lei, aprovados na generalidade, para um período de nojo parlamentar. Mas, eis que, agora, certos partidos se apressam a terminar a discussão e votar favoravelmente esta lei, indiferentes à petição popular contra tal lei e vergonhosamente alheios aos efeitos desta pandemia. A eutanásia e o vírus exprimem metaforicamente a distância entre a pressa e a emergência, entre a morte consentida e a vida dignificada, entre o direito à morte matando e o dever de cuidar.

Na angústia da COVID-19, os mais velhos têm sido os mais atingidos por esta doença e a sua taxa de letalidade é clamorosamente maior. À data em que escrevo, 17 de Julho, 86,3% dos óbitos são de pessoas com 70 ou mais anos, ou 95,2% se considerarmos os óbitos acima dos 60 anos. Pena que, para os casos ocorridos em lares e outras instituições de acolhimento, as autoridades lhes tenham reagido em vez de os tentarem prevenir logo de início. Não é preciso ser um expert para se concluir que, sem acções planeadas de precaução, um dos mais graves rastilhos epidémicos se concentraria naqueles estabelecimentos.

De um modo predominantemente subliminar ou implícito e pelo mundo fora, há crescentes afloramentos eticamente discriminatórios de estratificação geracional, incidindo sobre os mais velhos. Tomam a forma de juízos sobre a escolha entre quem já viveu muito e quem ainda tem muito para viver, de constatações sibilinas de que “já não vale tanto a pena”, de apreciações do tipo “foi assim com o vírus, seria assim com outra qualquer doença”. Intui-se que, no espírito de muita gente, há um certo “alívio social” com a notícia - sob a forma estatística - de que a larga maioria dos mortos está concentrada nos velhos. Tudo embrulhado em lindas palavras e eufemismos generosos que escondem um raciocínio generalizado de opção (ou alheamento) utilitarista. Sabemos - tal como ordena a lei natural da vida - que quem nasce primeiro deve, em regra, morrer primeiro. O que não podemos aceitar é que se acelere, de um modo injusto e discriminatório, esta forma de eutanásia social, geracional e terminal.

Os velhos não podem esconder os sinais exteriores da sua idade. Mas, durante décadas, foi um fartar de correcção política para que o velho não o parecesse. Assim nasceu o dito conceito europeizado de “envelhecimento activo”, que é obrigatório proclamar em qualquer discursata política. Assim germinou uma escala de vocábulos para evitar o estigma semântico de velho. Outrora, o velho poderia ser chamado de ancião, como expressão de respeitabilidade diante da sabedoria que a vida dá. Derrubada a ancianidade, conceito considerado retrógrado, tornou-se generalizada a nova raiz lexical da velhice - a idade - e, assim, o termo mais genuíno de velho se transformou na forma anódina e quase abstracta do idoso, do que tem idade. Os eufemismos continuaram e passou-se de idoso para sénior, sem que se aproveitasse a riqueza dessa mesma senioridade na sociedade contemporânea, pois que, cada vez mais, se cultiva o novo, o recente, o renovado, e se distrata o velho, o antigo, o longevo. Mas eis que, perante este repto dramático da pandemia, o sénior voltou a ser idoso e o idoso regressou a velho. Na óptica predominante de se ver a velhice como um peso e um sarilho, ser velho tornou-se mais obviamente inútil, embaraçador, descartável. Uma espécie de posta-restante da sociedade. Velho não dá retorno, só dá prejuízo, pressente-se no interior da hodierna sociedade. A respeitabilidade dos “cabelos grisalhos” tende a ser desconsiderada. Eis que, por fim, a pandemia veio reportar à luz do dia a denominação de utente (que palavra tão feia!). É assim que nos é noticiada a morte. Os velhos estão a morrer mais como utentes do que como pessoas. Utente do lar, utente da casa de repouso, utente da unidade de cuidados continuados, utente de hospitais. E tudo vemos com a distância de uma tela que se encarrega de nos tornar insensíveis ou nos anestesiar, de tão mecânica e repetidamente tudo ser noticiado ou explorado sem rebuço.  

No começo deste insondável futuro, o vírus escolheu os velhos como primeiras vítimas e as autoridades conformaram-se com este diktat viral. Vítimas literalmente falando, mas também vítimas de uma via dolorosa de andar entre ali e acolá à espera da sua vez, vítimas pelo agravamento do “eclipse “dos avós que não se podem aproximar dos netos neste dramático confinamento geracional, que vai além do geográfico. Para muitas pessoas velhas, o confinamento já era uma realidade e agora suportam o confinamento do próprio confinamento. Mas, enquanto a maioria das pessoas estão confinadas para não adoecer, velhos em instituições de acolhimento estão a morrer por estarem confinados. Cada vez mais num forçado pacto com a solidão.

Se bem reparamos, diante da doença, do isolamento, da pobreza, da supressão de laços familiares e de proximidade, da morte, hoje tudo se quantifica em euros, percentagens e estatísticas indolores e assépticas. Não se ouvem os gritos dos velhos porque não são sensoriais, antes estão entranhados nas suas almas. Frequentemente, diz-se que não há dinheiro. Dinheiro que, todavia, tem havido para perdoar dívidas de milhões de caloteiros encartados, de contumazes devedores, de bancos transformados em banquetas fraudulentas, de pequenos ou grandes caprichos políticos ou clientelares, etc. Em toda esta crise, incomoda-me muito a obsessão para que a economia volte rapidamente ao que era. Que diabo, por uma vez, deixemos de falar na obsessão da economia para falarmos em proteger as pessoas e salvar vidas. Eu sei que é preciso voltar a revitalizar a economia, mas a maneira, como a maior parte das vezes, a questão é colocada, já transporta em si o vírus de que nada de essencial irá mudar.

Circularam várias versões de uma frase elucidativa: “aos vossos avós foi-lhes pedido para irem à guerra. A vós pedem-vos para ficar no sofá. Tenham juízo!” Há quem - julgando ser eterno - pense que as quarentenas são uma forma de punição. Alguém lhes pode explicar definitivamente que mesmo pretensamente imunes ao vírus ou assintomáticos, podem ser transmissores para os mais velhos? 

Receio que, com o decorrer do tempo, se alargue ainda mais a distância entre um certo Portugal dos pequeninos (não necessariamente na idade) e o Portugal dos velhinhos.  

Como disse o Papa Francisco, “estamos todos neste barco. Ninguém se salva sozinho.”

 

(Por opção, não se segue o chamado AO)