Entrevistas |
Mirna Montenegro, autora do livro ‘Aprender a ser cigano hoje’
“Estando com eles, percebi o quão difícil é viver nas margens”
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A autora da tese de doutoramento ‘Aprender a ser cigano hoje - Empurrando e puxando fronteiras’, agora publicada em livro pela Editorial Cáritas, fala da sua experiência de mais de 20 anos de trabalho junto da comunidade cigana, onde aprendeu a “fazer dos obstáculos recurso”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, Mirna Montenegro refere que “ninguém pode ser excluído da sua função de bem-estar com o outro, em qualquer espaço”, e que essa missão, para o bem-comum, é responsabilidade de todos.

 

Começou a apresentação do livro ‘Aprender a ser cigano hoje’ por ler um poema que escreveu, no ano 2002, num momento de grande “turbulência” no Bairro da Bela Vista, em Setúbal, que conheceu em 1992 – e sublinhava que foi ali que achou “o sentido da generosidade” e a “harmonia na desordem”. Foram essas as maiores descobertas que essa realidade foi-lhe apresentando?

Sim. A maior descoberta foi, no meu curso de educadora, ter tudo planificado ao milímetro e, quando cheguei ali, ter deixado de planificar porque tinha que agarrar o imprevisto, o caos e a desordem. E, face àquilo que eu tinha na altura, havia que improvisar e dar a volta, porque nada estava escrito sobre a forma como se lida com o imprevisto, o acaso e a desordem, porque não cabe nos livros que nos ensinam na escola. Aprendi a fazer dos obstáculos recurso, a dar a volta, a improvisar, a procurar coisas positivas onde as pessoas só vêm negativo.

 

Foi essa experiência que procurou partilhar com esta obra que é a sua tese de doutoramento?

A obra está escrita de forma recorrente, recursiva e muito deambulatória entre a teoria e a prática e a prática e a teoria, ou seja, tudo o que se apregoa nos livros, tem confirmação na prática ou não. É um diálogo e um alerta permanente que tenho perante a vida e que tentei, como escrevo e como fui interpelada – porque é o meu pensamento que está em ebulição –, agarrar, o que não é tão linear como parece.

 

Na exortação apostólica ‘Evangelli Gaudium’, o Papa Francisco apresenta a figura do poliedro onde devem “confluir” todas as partes, mantendo a sua originalidade e procurando assim “um bem comum que verdadeiramente incorpore a todos”. Este é um objetivo que ainda hoje permanece distante dos nossos responsáveis políticos?

A intenção é essa. Os caminhos para chegar à concretização dessa intenção é que às vezes são desastrados, desajeitados… Dão azo à violência porque não são suficientemente assertivos, nem incisivos na sua mensagem, no vazio que, às vezes, existe e no qual as pessoas que são a favor da violência se metem.

 

Como é que olha para essa realidade de violência?

Muito preocupada e assustada. Uma pessoa que defende ou que tenta dar dignidade à pessoa humana dos ciganos ou das pessoas negras é ostracizada, violentada até pelos brancos, pelos seus pares. É caricato porque se tomo partido ou defendo os que são perseguidos ou rejeitados, sou rejeitada pelos brancos. Isso é muito preocupante.

 

O que foi determinante, e o que mais a ‘puxou’, para trabalhar junto das comunidades ciganas e, em particular, junto das crianças?

Em primeiro lugar, porque sou educadora. A minha formação inicial é cuidar das crianças e fazê-las desabrochar. Enquanto educadora, fui colocada ali [Bairro da Bela Vista, Setúbal] pelo Ministério da Educação, num projeto de animação informal e comunitário. Isso é que, para mim, foi a maior dádiva, um acaso que transformou a minha vida. Aprendi o outro lado da escola, o outro lado das instituições, o verdadeiro sentido da vida das pessoas que não cabem nos cânones dos livros e das instituições, os que vivem à margem de tudo. Estando com eles, percebi o quão difícil é viver nas margens.

Foi uma escolha que fiz porque me apaixonei pelo desafio, pela dificuldade, pela interpelação. Sou uma pessoa inquieta, fui educada por uns pais também inquietos, vi muitas realidades diferentes, também sofri na pele o ser emigrante, também sofri xenofobia quando estive no estrangeiro. Revi-me nas pessoas que estavam ali comigo, senti-me identificada com elas e tentei, já que tinha esse privilégio, fazer o melhor que pudesse e soubesse para emancipar e libertar essas pessoas e dar-lhes melhores perspetivas de vida, estando com elas com a dignidade que merecem.

 

E nunca se arrependeu?

Nunca. Não me arrependi porque é tudo muito ponderado. Eu não durmo de noite a pensar em algumas coisas que se passam durante o dia. À noite, penso se fiz bem, mal, se deveria ter feito assim ou de outra forma algumas das coisas que fiz durante o dia, marcadas pela urgência da ação. Faz parte da minha formação profissional, familiar, humana.

 

Na sua opinião, o que foi mudando e o que ainda falta fazer na integração destas comunidades no nosso país? Como se gere tanta diversidade?

A diversidade vai sendo cada vez maior. Gerir o que é visível e que nos interpela torna-se uma urgência. Gerir a diferença, que é invisível, é uma missão. À medida que vamos desocultando as diferenças culturais, tornam-se tantas e tão diversas que é difícil geri-las sem melindrar. Daí que se torna difícil de gerir no sentido de saber qual é a bitola, aquilo que poderemos considerar o maior bem-comum dentro dessa diversidade. Porque até os direitos universais humanos são dos ocidentais, não pertencem a outras culturas. É uma tarefa sempre inacabada porque havemos sempre de encontrar diferenças para gerir. Nesse sentido, no seu dia-a-dia, cada um de nós deve fazer o seu quinhão para o bem-comum e tentar não agredir o outro, saber escutá-lo. São coisas simples que fazem a diferença.

 

Essa missão que, como diz, é de todos nós, também passa pela educação...

Sim, na educação e em tudo o que são espaços públicos. Por exemplo, até nos guichets da administração, temos que dar o exemplo, na forma como atendemos as pessoas. Porque uma pessoa que é mal atendida, agride. Claro que a educação é importante e começa em casa – não na escola. Se as famílias, quando vão ao hospital, à Segurança Social, ao centro de saúde e são mal atendidas, com pedras na mão, levam para casa desaforos e desabafos... as crianças ouvem, as crianças sentem que os pais foram humilhados e levam isso para a escola. E, muitas vezes, a escola é o espelho do que vêm na sociedade. A escola não forma tábuas rasas. Ninguém pode ser excluído da sua função de bem-estar com o outro, em qualquer espaço. Não é a escola que faz milagres.

 

A partir do seu conhecimento, qual tem sido a presença e o contributo da Igreja Católica junto das comunidades ciganas em Portugal?

Como em tudo, há locais onde funciona melhor e outros menos bem. Da minha experiência, sobretudo no Projeto Nómada, de trabalho em pareceria, conseguimos cativar várias parcerias de pessoas muitos crentes e ligadas às Igrejas e que participaram nas nossas atividades. Tanto é uma parceria a nível individual, de gente com uma vida paroquial muito intensa e que adere a estas propostas, como pessoas, numa forma organizada, em locais onde trabalhámos, com as misericórdias, com as IPSS de cariz católico... Nós agarrávamos todas as pessoas que nos apareciam, no sentido de as levar a aderir a uma ideia de bem-comum, de dignidade do ser humano.

 

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Mirna Montenegro tem 61 anos, é licenciada em Educação de Infância, pela Escola Superior Maria Ulrich, e iniciou, em 1991-1992, o trabalho junto das crianças das comunidades ciganas no Bairro da Bela Vista, em Setúbal.

 

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Uma sociedade onde todos caibam

Na apresentação do livro ‘Aprender a ser cigano hoje’, o Cardeal-Patriarca de Lisboa apelou a uma maior inclusão das comunidades ciganas – e não só –, onde cada “contribuição” pode e deve ajudar a reconstruir, como um todo, o Portugal de amanhã. “Quando o Papa Francisco avançou com a ideia do poliedro, na sua exortação apostólica ‘Evangelli Gaudium’ [EG 236], como princípio constitutivo de sociedades onde caibamos todos, naquilo que temos em comum e que é próprio de cada um, isso causou alguma estranheza porque nós olhamos mais pelo global, pela esfera em que todos os pontos são equidistantes e onde a realidade fica indistinta; mas o Papa insiste no poliedro, nesta realidade que é certamente global, mas que tem muitas faces”, sublinhou D. Manuel Clemente, no passado dia 3 de setembro, na Feira do Livro, em Lisboa. “Cada face enriquece o todo e não se perde o conjunto. Assim, é mais verdadeiro”, prosseguiu.

Na apresentação desta nova obra da Editorial Cáritas, o Cardeal-Patriarca partilhou que esta reflexão do Papa Francisco lhe surgiu por diversas vezes enquanto lia o livro ‘Aprender a ser cigano hoje’, de Mirna Montenegro. “Nós somos todos portadores de uma memória que se cimentou na nossa infância e que, por vezes, é muito difícil de destruir. Mas a nossa realidade de agora, em Portugal, é esta: cerca de uma centena de nacionalidades residentes, com uma enorme variedade cultural e sociocultural nas histórias que transportam, consciente ou inconscientemente. (...) Esta inclusão numa sociedade a reconstruir, não será o Portugal do antigamente, será um Portugal novo, que acontecerá com todas estas contribuições bem-vindas”, afirmou D. Manuel Clemente, que classificou esta obra de “imprescindível para realmente conhecer a comunidade cigana em Portugal”.

 

Casa comum

Para que uma inclusão da comunidade cigana possa ter sucesso, o Cardeal-Patriarca apontou um sistema escolar – “que está a dar frutos” –, mas em que tudo se articule, “não apenas a proposta oficial da escola – porque essa é geral –, mas também a inclusão das famílias, com as suas próprias tradições, através de mediadores e tudo o mais que a sociedade transporta”. “Se isto acontecer em relação à realidade cigana e a todas as outras comunidades que aqui temos, tão variadas, elas sentir-se-ão em casa, naquela casa comum que nós havemos de construir e que ainda não existe”, sublinhou. Na criação destes “espaços comuns de reconstrução social”, para que todos se “sintam em casa”, “teremos que ser muito prudentes, cautelosos, nada ideológicos, muito abertos, muito recetivos”, alertou o Cardeal-Patriarca.

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