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Irmãs Verónica Benedito (A-dos-Cunhados) e Madalena Silva (Mafra) professam na Aliança de Santa Maria
Todas de Deus
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São de paróquias da zona Oeste do Patriarcado de Lisboa, estão ambas na casa dos vinte anos, e começaram a amadurecer a vocação nos campos vocacionais para raparigas promovidos pela diocese. A irmã Verónica Benedito, de A-dos-Cunhados, queria ser jogadora de futebol, enquanto a irmã Madalena Silva, de Mafra, sempre quis ser professora e constituir família. Agora, professaram na Aliança de Santa Maria com o desejo de se entregarem “totalmente” a Deus e à Igreja.

 

A irmã Verónica Benedito, de 22 anos, é a mais nova das duas jovens de Lisboa que professaram na congregação Aliança de Santa Maria (ASM) no passado dia 12 de setembro, em Fátima. “Sempre cresci a ouvir o nome de Deus lá em casa. A minha mãe é catequista, o meu pai também pertencia a um grupo de oração da comunidade e os dois pertencem ao coro. Desde pequena que eu ia, ao colo, com os meus pais, ao ensaio do coro e, desde cedo, fui para a catequese. Gostava muito de ir à catequese e tenho ainda um grupo de amigos que se manteve até hoje. Lembro-me, também, muitas vezes, de falarmos sobre cânticos para a Missa, sobre o Evangelho do próximo Domingo, sobre a noite de oração…”, conta, ao Jornal VOZ DA VERDADE, esta jovem, que tem dois irmãos, a Carolina, de 16 anos, e o pequeno Lucas, de apenas dois.

Natural de A-dos-Cunhados, sempre viveu perto do Seminário de Penafirme, que costuma receber os campanários para rapazes e também os campos vocacionais para raparigas, além das noites de oração organizadas pela vigararia. E foi precisamente num campo vocacional que a ‘aventura religiosa’ começou, há dez anos, quando Verónica tinha 12 anos. “Estava na catequese, no 7.º ano, e a minha catequista convidou-me, a mim e a umas amigas, para um campo vocacional. Claro que não foi logo assim o despertar da vocação, até porque eu queria era ser jogadora de futebol, mas esse foi o meu primeiro contacto com irmãs”, recorda. “Gostei muito desse campo vocacional e comecei a ir regularmente. Havia campos no Natal, na Páscoa e no verão, e depois também os intermédios, chamados ‘Mais Além’, que eram mais curtos, só de um fim-de-semana”, acrescenta.

Durante três anos, Verónica conheceu diversas congregações religiosas. Quando tinha 15 anos, uma irmã convidou-a a participar num campo de férias da Aliança de Santa Maria. “Foi nesse campo que eu me comecei a perguntar se Deus também me estaria a chamar para me consagrar. Não tive grande ‘iluminação’, nem ‘aparição’, mas foi aí que comecei a sentir um chamamento mais forte”, assume, frisando que “esta decisão foi mais do coração do que propriamente pública”. “Lembro-me que não falei logo com os meus pais. Pedi acompanhamento às irmãs, era também acompanhada por um sacerdote do Patriarcado, e comecei uma vida de oração mais intensa, a rezar e a pedir ao Senhor que me mostrasse o que é que Ele queria de mim; mas não foi uma mudança de vida muito drástica, porque o que fazia continuei a fazer, nomeadamente os estudos, no Externato de Penafirme”, salienta.

Nesse tempo, além do acompanhamento com uma religiosa, a Aliança de Santa Maria só pediu uma coisa a esta jovem de A-dos-Cunhados: oração. “A nível de congregação, além do confronto com uma irmã, para perceber, no fundo, a voz de Deus, só me pediram oração, ou seja, que rezasse”, revela, destacando ainda os “dias passados nesta casa de formação, em Fátima, como experiência de ver como é a vida das irmãs, para começar a perceber o que fazem, qual o carisma da congregação…”

 

“Acolheram-me como eu sou”

Aos 18 anos, quando terminou o Ensino Secundário, Verónica Benedito entra na ASM, para iniciar o noviciado. “Estou aqui há quatro anos. Eu queria ser toda de Deus. Quando entrei, fui percebendo que o tempo de noviciado é um tempo de me conhecer a mim, de conhecer a congregação, de aprofundar a relação com Deus. No fundo, ir percebendo que aquilo a que Deus me chamou, eu, consciente e livremente, como disse no dia dos votos, também quero. E quero estar toda ao serviço do Reino. O tempo do noviciado é este tempo de perceber as minhas motivações e foi um tempo muito bom, porque também a congregação me acolheu, as irmãs, cá em casa, acolheram-me tão bem, acolheram-me como eu sou, e ajudaram-me a fazer este discernimento”, manifesta, hoje, em tom agradecido, esta jovem religiosa.

À noticia da entrada na ASM, os amigos, “aquele grupo mais restrito”, apoiaram-na “muito” e “ficaram muito felizes”. Com a família, “houve diversas reações”. “Alguns ficaram muito felizes e apoiaram desde o início, outros tiveram uma reação de surpresa, porque não estavam à espera”, observa, destacando ainda que o seu pároco, o cónego Eduardo Coelho, “reagiu muito bem” e apoiou “sempre muito”. “Foi sempre uma presença constante, junto de mim e da minha família, até ao dia de hoje”, garante.

A irmã Verónica Benedito professou os primeiros votos a 12 de setembro, numa celebração na Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima. “Foi um dia maravilhoso. Aquilo que se foi construindo, nestes quatro anos, e também para trás, pude dizê-lo publicamente. Dizer que eu quero isto, eu quero mesmo isto. No fundo, naquele dia, o Senhor tomou-me. Agora pertenço ao Senhor, nesta congregação, e estou ao serviço para aquilo que Ele quiser”, refere. Em termos de formação, segue-se o juniorado, de pelo menos seis anos, até aos votos perpétuos. “Agora vou mudar de casa, vou para A Comunidade do Anjo, que é outra casa da congregação aqui, em Fátima. É um tempo de continuar este caminho, mas agora vai começar a vida de uma outra forma e começam também os trabalhos apostólicos”, destaca a jovem religiosa.

 

Planos de vida trocados

Além da irmã Verónica Benedito, professaram os votos temporários na ASM mais três religiosas, entre as quais a irmã Madalena Silva, de 24 anos, natural da Paróquia de Mafra. “Também nasci no seio de uma família católica, mas não cresci a ter um envolvimento tão ativo na paróquia como a irmã Verónica contava. A minha mãe sempre me foi dando a conhecer Jesus, contava-me passagens do Evangelho, tal como a minha avó. Recordo-me de ser pequena e ela levar-nos, a mim e ao meu irmão, a conventos antigos e contar-nos histórias da vida monástica, que me encantavam muito”, partilha ao Jornal VOZ DA VERDADE. Visitas à parte, a verdade é que as vocações não são algo estranho a esta família. “O meu irmão mais velho, o Rui, que tem 25 anos, está nos Jesuítas. Eu entrei em 2017 na Aliança de Santa Maria e o Rui tinha entrado um ano antes, em 2016, na Companhia de Jesus. Fez o noviciado, professou, fez dois anos de estudos e agora mudou-se para Roma, para continuar os estudos”, revela, a propósito da família que tem ainda duas irmãs mais novas – a Maria, de 13 anos, e a Luz, que tem sete – e que sempre viveu em Mafra. “Na altura em que estava quase a entrar para a congregação, os pais trocaram de casa e fomos viver para o Sobreiro, que é mesmo ao lado”, salienta.

Quando era pequena, Madalena diz que seguiu um percurso de catequese normal e entrou no grupo de jovens. E foi já no 12.º ano que uma colega de turma a convida a participar num campo vocacional do Patriarcado de Lisboa. “Ela já participava há algum tempo e convidou-me. Eu tinha 17 anos, tinha participado num ou noutro retiro do grupo de jovens, mas nunca tinha percebido o sentido da palavra vocacional. Participei neste primeiro encontro sem saber ao que ia, e recordo-me de não ter consciência de que havia tanta diversidade de congregações, que havia religiosas que usavam hábito, outras que não usavam, dependendo da missão…”, conta, recordando-se que “neste primeiro campo vocacional a Aliança de Santa Maria não teve nenhuma animadora”.

Madalena, nesta altura, “tinha muitos planos” para a sua vida. “Estava a terminar o Secundário e tinha muito claro que queria seguir a via profissional, queria ser professora – desde muito pequena que queria dar aulas – e nessa altura até namorava. Portanto, de todo, não pensava na vida religiosa. Até que comecei a perceber que as pessoas que estavam a participar no campo vocacional, para além de serem só raparigas, punham a hipótese de Deus para uma vida de especial consagração. Isso incomodou-me muito. Primeiro, achei que estava no sítio errado, porque claramente aquilo não seria para mim. Pensava casar, ser mãe de família e ter uma vida diferente; mas achei aquelas jovens muito normais, alegres, muito parecidas a mim, mas que tinham essa questão, até porque o campo vocacional era muito orientado nesse sentido, de saber o que Deus quer de mim”, partilha.

 

Comunicar uma alegria

Esta jovem estava então decidida a “não voltar” a estes campos. “Pensei: ‘Não volto aqui, porque isto é para outro tipo de pessoas, não é para mim’. Voltei para casa muito incomodada, muito inquieta. Recordo-me, por outro lado, que ia escrevendo aquilo que era dito nas catequeses e nas meditações, e ia rezando. Tinha uma relação próxima com Deus, e implicava-O na minha vida, mas tinha tudo programado e planeado e nem sequer dava espaço para que Deus entrasse e me mostrasse uma vontade diferente da minha”, reconhece.

A cada convite para novo campo vocacional, Madalena “acabava por ir na mesma”, mesmo sabendo que “estava a ‘desorganizar’ a vida toda”. Como ainda namorava, houve necessidade de “um momento de sinceridade e abertura”. “Não lhe disse claramente que ia seguir este caminho – até porque eu própria também não sabia, nem achava que seria por aí –, mas sentia que tinha de ficar na estaca zero, de perguntar ao Senhor o que quer de mim, sem que eu começasse a pôr alguns entraves”, assume.

Esta jovem de Mafra, então já com 18 anos, conhece as religiosas da ASM. “Quando as conheci, pensei que me identificava com a congregação e achava que era possível a vida de consagração”, frisa. A questão começou-se a tornar mais clara, começou a ser acompanhada pelas religiosas, mas entrou no Ensino Superior, “porque estava tudo ainda muito misturado”. Nos três anos em que tirou a licenciatura em Educação Básica, com “uma vida académica perfeitamente normal”, começa “a viver uma vida de consagração lá fora, neste sentido de pertença a Deus”. “De alguma forma, ia percebendo que tudo o que o mundo dava e a sociedade oferecia – ainda que houvesse coisas aliciantes –, me confirmava mais que não me preenchia, que a alegria que eu tinha experimentado junto destas irmãs, numa entrega total a Deus, era sempre maior”, justifica.

Quando termina o curso, em 2017, Madalena entra então para a Aliança de Santa Maria, para três anos de noviciado e postulantado, até estes primeiros votos: “Não há nada mais sublime do que entregar a vida totalmente a Deus. Aqui, pode-se experimentar a verdadeira alegria, a verdadeira alegria de quem dá, de quem se dá. Via isso nas irmãs e impressionava-me muito – elas que já viviam em pobreza, castidade e obediência experimentavam uma alegria indizível – e posso confirmá-lo agora”.

A irmã Madalena Silva vai partir, “na próxima semana”, para “a Comunidade de Guimarães”, mas não esquece os tempos passados em Fátima, em particular a celebração dos votos temporários: “O dia de sábado, para mim, foi um contar a toda a gente aquilo que eu já vivia no meu interior. No cortejo de entrada, eu descia e tinha essa sensação: estou a comunicar esta alegria aos outros. Porque a consagração que fiz, já desde 2014, quando começo a conhecer a congregação, e a vontade de Deus a meu respeito, e começo, no meu interior, a entregar-Lhe toda a vida, eu estava a fazer agora, publicamente”.

 

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“Ajuda muito ver que há mais raparigas que querem entregar a vida ao Senhor”

As irmãs Verónica Benedito e Madalena Silva, da congregação Aliança de Santa Maria, conheceram-se nos campos vocacionais organizados pelo Patriarcado de Lisboa. “A irmã Verónica já tinha um historial de campos vocacionais mais longo do que eu, de cerca de três anos, mas desde que nos conhecemos que fomos muito próximas”, salienta a irmã Madalena.

Professaram os votos temporários no mesmo dia e dizem sentir que a caminhada de uma ajudou a outra. “Ajuda muito ver que há mais raparigas como nós. Perceber que não somos um caso isolado, perceber que há gente normal e feliz, como nós, que quer entregar a vida ao Senhor. A entrega e decisão de alguém que faz caminho connosco ajuda-nos e fortalece-nos também na nossa entrega”, garantem as jovens religiosas.

 

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Ser o rosto materno de Nossa Senhora

A Aliança de Santa Maria (https://aliancadesantamaria.com) é uma congregação religiosa, fundada em 1966 por duas professoras, Maria Áurea e Maria Clara, que tem como carisma cooperar na nova evangelização através do Coração Imaculado de Maria, com este rosto específico da Mensagem de Fátima. “Em concreto, o nosso carisma é sermos o rosto materno de Nossa Senhora, onde Deus nos quiser enviar, através desta mensagem que nos foi confiada. No fundo, sermos uma mãe”, destaca a irmã Verónica Benedito, garantindo que esta congregação “está ao serviço da Igreja local”. “Nas comunidades onde estamos, fazemos aquilo que é necessário e o que nos for pedido”, lembram as religiosas.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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