Lisboa |
Exposição ‘Olhares cruzados, palavras pressentidas’, patente no Mosteiro de São Vicente de Fora
Diálogo com rostos ‘esquecidos’
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O Cardeal-Patriarca inaugurou a exposição ‘Olhares cruzados, palavras pressentidas’, de João Alvim, que apresenta os rostos das figuras do terceiro plano dos ‘Painéis de São Vicente’ e em que “o figurativo passa a adivinhar uma outra figuração”. Na sessão de abertura da mostra, D. Manuel Clemente manifestou ainda o desejo de que o Mosteiro de São Vicente de Fora “retome o lugar cultural” que já teve em Lisboa.

 

“É com muito gosto que me associo a esta feliz iniciativa – como a outras, algumas já acontecidas e, sobretudo, as que devem acontecer – para que esta casa retome o lugar cultural que já teve na nossa cidade”. Foram estas as palavras iniciais do Cardeal-Patriarca de Lisboa ao inaugurar, no Mosteiro de São Vicente de Fora, a exposição ‘Olhares cruzados, palavras pressentidas’, da autoria de João Alvim. A mostra, que vai estar patente até janeiro de 2021, apresenta os rostos das (discretas) figuras do terceiro plano dos ‘Painéis de São Vicente’, criados por Nuno Gonçalves, no século XV. “Quando, há dias, falava com o João Alvim – porque já tinha visto, em pdf, as pinturas que agora vamos ver – dizia-lhe que a exposição é como ir do século XV para o século XX ou XXI. É assim de Nuno Gonçalves para o Picasso. Porque, se os Painéis de Nuno Gonçalves são, na pintura europeia, uma expressão quase primeva e original da figuração retratista e inédita no conjunto daquelas dezenas de figuras em torno do motivo que ainda hoje é alvo de polémica – e deve continuar a ser, porque já leva um século de polémica a identificação daquelas figuras naquele motivo central –, o que é certo é que depois a pintura europeia vai evoluindo e, sobretudo no século XX – por isso é que falei de Picasso –, em termos de abstração, o figurativo passa a adivinhar uma outra figuração; é exatamente isso que nós vemos agora na obra de João Alvim, por isso, eu felicito-o”, apontou D. Manuel Clemente, na curta sessão que teve lugar no claustro do mosteiro, no final da tarde do passado dia 17 de setembro.

Na presença do diretor do Museu do Patriarcado, padre Bruno Machado, e do vigário geral da diocese cónego Nuno Isidro, entre muitos outros convidados e amigos do autor, o Cardeal-Patriarca lembrou que os ‘Painéis de São Vicente’ – hoje, em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga – foram encontrados precisamente no Mosteiro de São Vicente de Fora, em 1895. “Aqui ficaram guardados os Painéis, durante um tempo que nós não sabemos muito bem quanto, nem exatamente como, mas o que é certo é que ficaram aqui guardados”, recordou D. Manuel Clemente, voltando a reforçar, no final da sua intervenção, o desejo de que o Mosteiro de São Vicente de Fora ganhe protagonismo cultural em Lisboa. “É com iniciativas destas, que liga o mosteiro, a diocese, a cidade, a cultura, que esta casa se reconhece e se oferece, agora”, terminou D. Manuel Clemente, antes de visitar a exposição, no segundo piso do edifício.

 

Fascínio pelas figuras do terceiro plano

O autor da exposição ‘Olhares cruzados, palavras pressentidas’ assumiu que “as figuras que estão atrás nos ‘Painéis de São Vicente’ sempre foram figuras” que o “interessaram”. “Primeiro, porque estavam lá atrás e eu achava-as mais interessantes do que as que estavam à frente – ao contrário da polémica que normalmente existe, que é sempre sobre quem são, e quem não são, aquelas figuras do primeiro plano. Depois, a verdade é que, em termos de pintura, em termos dos rostos, as figuras que estão atrás são de uma qualidade extraordinária, muito avançadas para a época em que foram pintadas. Portanto, a ousadia dessas figuras escuras que estão lá atrás, e que normalmente ninguém repara e parecem fazer um biombo escuro para dar relevo aos que estão à frente, fascinaram-me sempre”, partilhou João Alvim, na sessão inaugural da sua exposição.

O autor recuou depois umas décadas para lembrar como começou a pintura destas figuras do terceiro plano dos ‘Painéis de São Vicente’. “Desde muito criança que ia para o Museu Nacional de Arte Antiga, aos ateliers de miúdos, e foi verdadeiramente aí que eu comecei a desenhar e a pintar. Um dia disse que ia trazer aquelas figuras para a frente: ‘Vou chamá-las, vou-lhes dar individualidade, vou-lhes dar um espaço próprio’. E assim comecei. E fui pintando uma, pintando duas, pintando três e, ao fim de ter pintado uma série delas, acabei por pintar 12, em que respeitei a fisionomia e também as expressões”, contou.

 

“Expressões absolutamente inesperadas”

No final desta primeira série de 12 pinturas, João Alvim disse ter descoberto algo “extraordinário”, que são “as expressões de todos eles”. “Normalmente, diz-se que são figuras que representam a sociedade da época, são as confrarias, são membros da Corte, e acabou aí o interesse sobre elas. Ao pintá-las, tive verdadeiramente de entrar no mundo delas e aí descobri essas expressões, que são expressões absolutamente inesperadas. Por duas razões, primeiro porque elas não olham para as cenas que se passam à frente delas. Elas estão a olhar, todas elas, sem exceção, para o espectador que está a ver a tela. O que é muito curioso. Porque é que elas se abstraem do que se passa ali? E depois, todas elas, eu diria sem exceção, têm expressões que eu direi pouco simpáticas ao evento que ali está. São expressões, algumas, de desagrado, há expressões até muito agressivas, expressões duras, expressões de desconfiança. São todas dentro desta postura”, esclareceu.

Após estas “12 reproduções fiéis”, o autor questionou-se sobre “como continuar”. “Tornou-se-me evidente, a certa altura, que tinha de continuar sem perder totalmente a fisionomia – porque as personagens continuam a ser reconhecíveis –, mas passei a dedicar mais importância à expressão e menos ao aspeto fisionómico. Portanto, são ainda uma série de personagens reconhecíveis, que já não têm uma pintura tão realista, mas têm expressões fortíssimas, muito mais fortes ainda do que na fase anterior”, contou.

 

O que os olhares querem dizer?

A terceira e última fase da pintura dos rostos das figuras do terceiro plano dos ‘Painéis de São Vicente’ trouxe consigo a recriação. “Por fim, chego a uma fase última que é: eu não quero saber da fisionomia, se for reconhecível é, se não for também não me preocupa, vou partindo daquelas expressões e vou recriar aquelas expressões. Portanto, fiz uma quantidade ainda mais significativa de quadros e pinturas só com as expressões. São pinturas em que se sente que essas expressões estão lá; as fisionomias já não estão, mas as expressões estão e bem marcadas”, frisou João Alvim, na inauguração da sua mostra.

A última peça da exposição é uma “tela grande, dentro dessa linha de expressões, também sobre um fundo escuro, quase a recriar o ambiente dos Painéis”. “Aí, a pergunta que se me pôs – e eu não sou de História, mas li o suficiente e aprendi o suficiente para perceber que História é sempre um motivo de interrogação – foi: o que é que Nuno Gonçalves nos queria dizer? Porque é que ele pinta mais de 50 figuras lá atrás, distintas? Tinha alguma intenção? O que é que aqueles olhares queriam todos dizer? Aqui termina a minha abordagem ao tema, com esta pergunta, que obviamente não sou eu que alguma vez irei desvendar…”, manifestou João Alvim.

O autor da exposição ‘Olhares cruzados, palavras pressentidas’ tinha começado a sua intervenção, no claustro, por “agradecer a oportunidade de expor este trabalho” no Mosteiro de São Vicente de Fora. “Confesso que à medida que o ia desenvolvendo, ia-me sempre perguntando: ‘Onde é que posso expor este trabalho?’. E, de facto, a certa altura, percebi que só havia um sítio onde faz verdadeiramente sentido, que é aqui”, observou João Alvim. “Espero que se divirtam com o trabalho que foi feito”, terminou.

 

Visitar estes rostos

Tal como o Cardeal-Patriarca, o diretor do Museu do Patriarcado de Lisboa mostrou também a sua satisfação pela exposição agora inaugurada. “É uma honra poder receber este trabalho do João Alvim, a partir de uma obra que está relacionada connosco – que não está guardada por nós, mas foi encontrada aqui [no Mosteiro de São Vicente de Fora]. Quando o João nos visitou, para dar a conhecer o seu trabalho, impressionou-me muito o diálogo que é possível estabelecer com estas figuras, com estes rostos e, sobretudo, nesta altura em que estamos todos um pouco sedentos do olhar, de nos olharmos sem alguma desconfiança ou medo”, destacou o padre Bruno Machado, no claustro do mosteiro, sublinhando que este “é o tempo propício para visitar estes rostos” ‘de’ João Alvim. “Agradecemos a sua iniciativa. No fundo, provocou-nos e nós deixámo-nos provocar”, completou o diretor do Museu do Patriarcado de Lisboa, desejando que esta seja “uma oportunidade para acolher mais visitantes” e para que “mais público conheça” o Mosteiro de São Vicente de Fora.

 

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A exposição ‘Olhares cruzados, palavras pressentidas’, patente no segundo piso do Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, pode ser visitada de terça-feira a Domingo, das 10h00 às 18h00, até janeiro de 2021. A entrada é gratuita, mediante a compra de bilhete para visitar o mosteiro (preços entre 2,5¤ e 5¤, sendo grátis para crianças até aos 12 anos, sacerdotes e consagrados).

Informações: 218885652 ou www.mosteirodesaovicentedefora.com

 

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‘Painéis de São Vicente’

Obra de enorme importância simbólica na cultura portuguesa e singular “retrato coletivo” na história da pintura europeia. As seis pinturas atribuídas a Nuno Gonçalves apresentam um agrupamento de 58 personagens em torno da dupla figuração de São Vicente.

Uma solene e monumental assembleia representativa da Corte e de vários estratos da sociedade portuguesa da época, em ato de veneração ao patrono e inspirador da expansão militar quatrocentista no Magrebe. Estas figuras, em volumes claramente afirmados, tão caracterizadas pela concentração expressiva dos rostos e atitudes quanto pela requintada definição pictórica dos trajes e adereços, parecem aliar, nesta encenação cerimonial, o intuito de uma evocação narrativa a uma visão contemplativa.

Embora permaneça problemático o pleno entendimento da intenção e significado da obra, crê-se que o autor das tábuas é o pintor régio de D. Afonso V, Nuno Gonçalves, e que estariam originalmente integradas no retábulo de São Vicente da capela-mor da Sé de Lisboa.

in www.museudearteantiga.pt

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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