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Manuel Arouca, escritor: ?A oração é a grande ?arma? do cristão? [com vídeo)
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Depois de muitos anos afastado da Igreja, o escritor Manuel Arouca reconciliou-se com Deus e hoje procura viver a santidade no dia-a-dia. Não abdica do conceito cristão da vida e procura que cada personagem que cria seja voltada para o próximo.

É conhecido do grande público por ser argumentista de várias novelas de sucesso. Quem é o Manuel Arouca que está por detrás das palavras e da escrita?

Eu não comecei a minha carreira de escritor com novelas, mas com livros. A partir daí, estava a acabar o curso de Direito e tive de optar entre a advocacia e a escrita. Era uma época em que as coisas estavam ainda muito no princípio. Mas a opção pela escrita foi uma aventura, com o Tozé Martinho, o Nicolau Breyner. Depois sempre quis conciliar o ser argumentista com a escrita de livros e séries documentais. Desta forma, deixei o Direito e dediquei-me exclusivamente à escrita de argumentos, romances e documentários.

 

Sendo a cultura portuguesa marcadamente de matriz cristã, que educação recebeu ao nível da fé?

Eu tive uma educação muito cristã! A minha mãe era uma mulher de grande fé e lembro-me, em África, que era ela que me dava o Catecismo – um Catecismo em francês, com muitas cores. Fui baptizado, mas na altura do crisma, tinha eu 14, 15 anos, os meus irmãos foram todos crismados e eu não me quis crismar. Nessa altura afastei-me da Igreja… mas afastei-me mesmo! Por outro lado, a minha mãe sempre foi uma referência importante pela sua fé. Mesmo em situações difíceis, era com ela que me acalmava. Por isso, nunca se poderá dizer que cheguei a ser ateu precisamente por causa da minha mãe!

 

Quando se dá o retorno à Igreja?

O retorno a uma vida de fé dá-se em 1997, a propósito de uma peregrinação a Fátima. Era uma fase da vida em que estava mal comigo próprio, o que se reflectia nas relações com os outros. Cheguei inclusivamente a fazer várias experiências, até ao nível um pouco esotérico. Mas depois, tudo mudou. Ao ler um artigo no Expresso de um primo meu, o António Pinto Leite, que fez a caminhada, entusiasmei-me e inscrevi-me na peregrinação seguinte, que partia do Estoril para Fátima. De facto, pelo relacionamento que tinha com a minha mãe, fez sentido ser através de Nossa Senhora que se deu uma grande mudança, não sei se radical mas muito importante na minha vida.

 

Essa mudança, bem como a sua vivência cristã modificaram a forma como vê o mundo, como lida no dia-a-dia com as pessoas?

Eu acho que mudou completamente! Não quer dizer que seja mais fácil – às vezes até parece mais difícil! Quando regressei à Igreja tive aquela fase inicial, que foi uma fase de lua-de-mel, em todos os aspectos, desde a vida familiar, até à profissional. Foi provar o Céu!

Eu costumava dizer: ‘isto agora vai ser tudo extraordinário’. Mas lembro-me de um padre que me dizia ‘Não, espera aí…’ Agora, é claro que os desafios são maiores, mas há sempre este encontro com Deus, que está sempre ao pé de nós, o que nas situações difíceis torna as coisas mais leves e torna a vida com muito mais sentido.

 

Enquanto escritor, costuma inspirar-se nos valores católicos quando escreve?

Claro que me inspiro nos valores cristãos quando estou a escrever. Vai ser agora editado um livro, “Exilados” (ver caixa), que é um livro do mundo, mas é uma história em que não abdico do conceito cristão da vida. Até porque estava a ser hipócrita comigo mesmo se não o fizesse.

Ao mesmo tempo, procuro sempre que as minhas personagens sejam pessoas viradas para o próximo. Considero isso fundamental! Procuro criar personagens em que o amor não seja só um amor físico, mas que seja um amor que vai muito para além do relacionamento físico, sensual ou sexual. Muitas vezes as pessoas não entendem isso, mas esse é que é o verdadeiro amor, que pode transformar o mundo.

 

Falando recentemente de Santo António, o Papa referiu: “Só uma alma que reza pode avançar na vida espiritual”. Qual a importância da oração na sua vida?

A oração é fundamental! Aliás, nem percebo bem essa coisa do ‘católico não praticante’. Eu quando não fui cristão, não fui! Ponto final. Era baptizado – e dizia que era baptizado – mas não mais do que isso.

A oração é a única maneira de estarmos permanentemente chegados ao divino e também ao próximo. Porque a oração torna-se depois uma corrente – e nós vemos isso numa peregrinação, quando há muita gente a rezar. A oração é a grande ‘arma’ de um cristão! Para percebermos a importância da oração, basta pensar que o próprio Jesus, que era fruto do Espírito Santo, filho de Deus, isolava-se para rezar. Ele é o exemplo! Se Ele próprio precisava de rezar, nós muito mais…

 

A santidade vê-se no dia-a-dia, na forma como as pessoas agem, pensam e se relacionam. De que forma Deus o interpela para a santidade?

Penso que Deus nos interpela todos os dias para a santidade! Naquelas situações em que sou mais frágil, percebo quando estou mais despiritualizado, estou menos agarrado à oração e estou mais agarrado ao mundo. Essas situações começam a tomar conta da minha vida. E aí estou logo a ser interpelado e tenho que ir fazer uma ‘lavagem’ para recuperar forças.

 

Poderá então o sacramento da reconciliação ser um dos caminhos para a santidade?

Penso que o principal caminho para a santidade é a obra que deixamos neste mundo. É o que conseguimos fazer através da nossa acção, do nosso dia-a-dia, dos nossos movimentos, dos nossos contactos. Ou seja, o que nós conseguimos que seja positivo para os outros, conseguindo transformar o coração dos demais. Isso é a obra, penso eu, para a santidade! Depois, como é que se chega lá? Se calhar cada um tem os seus caminhos e a sua estrada. Mas penso que há alguns caminhos que são essenciais, como a oração, a Eucaristia e a confissão.

 

A santidade é conciliável com o sucesso?

Conseguimos a santidade quando relativizamos o sucesso. Ou seja, quando o sucesso não toma conta de nós! Aí atinge-se a santidade. Quando o sucesso nos domina, dificilmente conseguimos a santidade. Esse é um dos aspectos que sou muito interpelado no dia-a-dia e na minha vida. Muitas vezes este desejo de sucesso ser nosso e não o sabermos relativizar. Se nós relativizarmos o sucesso como relativizamos o fracasso, estamos em paz com Deus. E estar em paz com Deus é santidade!

 

 

Informação complementar:

Exilados: “Uma história de reconstrução”

Manuel Arouca publicou este mês um romance histórico intitulado “Exilados”. A obra, segundo o autor, conta uma história de reconstrução. “O livro ‘Exilados’ tem muito a ver com os portugueses que foram para o Brasil depois do 25 de Abril, vindos de Portugal e de África. É sobretudo uma história de reconstrução. Reconstrução a nível emocional e reconstrução também a nível material, de pessoas que perderam tudo e tiveram de reconstruir”, conta Manuel Arouca.

A cidade brasileira Rio de Janeiro está em foco nesta obra. “O Rio de Janeiro é uma cidade de grandes contradições, mas tem aquele Cristo Redentor que está muito presente no livro e que nos faz renascer. Aliás, eu próprio quando fiz a pesquisa para esta obra também me senti renascer”, garante ainda Manuel Arouca, salientando a força que está implícita na sua mais recente obra: “Muitas vezes pensamos que a vida está perdida, mas nunca nada está perdido”.

“Exilados” tem a chancela da editora ‘a esfera dos livros’.

 

 

Documentário quer dar a conhecer a presença de Nossa Senhora de Fátima no mundo


“Fátima no mundo” é o título de uma nova série documental que Manuel Arouca tem entre mãos. Contando com o “total apoio do Santuário de Fátima”, este projecto quer “revelar a presença de Nossa Senhora de Fátima no mundo inteiro”. Aguardando apenas “algumas luzes verdes para arrancar com o projecto”, Manuel Arouca entende que “em termos de realização pessoal e de encontro com Nossa Senhora seria algo de fantástico” a produção deste documentário.

Manuel Arouca revela ainda que “Fátima e o mundo” poderá estrear a 13 de Maio de 2012.

 

 

Perfil

Manuel Arouca nasceu em Moçambique, a 3 de Janeiro de 1955. Aos 25 anos decidiu entrar na Faculdade de Direito, mas foi durante esse período de estudante que escreveu “Os Filhos da Costa do Sol” – o seu primeiro romance e um dos mais marcantes best-sellers dos anos 80 – e assim, depois de se licenciar, optou pela carreira de escritor em desfavor da carreira de advogado. Nos finais dos anos 80, Manuel Arouca começou a escrever para televisão, assinando um vasto conjunto de programas emitidos tanto pela RTP como pela TVI.

Na sua obra televisiva destaca-se a novela “Jardins Proibidos” pelo facto de ser a primeira novela portuguesa a derrotar, em horário nobre, a prestigiada novela da Globo, alterando drasticamente o panorama da ficção televisiva em Portugal. A sua ambivalência criativa levou-o a escrever também duas séries documentais, ambas de grande sucesso: “Eusébio” e “Mistérios de Fátima”. Em 2004 interrompeu a actividade como guionista para se dedicar exclusivamente à escrita de “Deixei O Meu Coração Em África”, editado em 2005 e hoje já na sua 9ª edição. Em 2007 regressou à televisão como responsável pelo argumento da novela, emitida pela TVI, “Tu e Eu”. Em 2008 assina para a SIC, “Podia Acabar o Mundo”.

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