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Guilherme d'Oliveira Martins
«Fratelli tutti»

A encíclica «Fratelli tutti» (FT) é uma corajosa invocação de S. Francisco de Assis, a lembrar-nos que os valores éticos do cristianismo obrigam a ver os outros como necessário complemento de nós mesmos. Mas como assumimos que todos somos irmãos? Uma leitura atenta deste documento leva-nos ao encadeamento dos grandes temas sobre fraternidade e amizade social – envolvendo as sombras de um mundo fechado, a compreensão de um estranho no caminho, o pensar e o gerar de um mundo aberto, o coração aberto ao mundo inteiro, a política melhor, o diálogo e a amizade social, percursos de um novo encontro e religiões ao serviço da fraternidade do mundo. «É verdade que uma tragédia global como a pandemia do Covid-19 despertou, por algum tempo, a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos. Recordamo-nos de que ninguém se salva sozinho, que só é possível salvar-nos juntos». Por isso, «a tempestade – dizia o Papa Francisco em 27 de março último no auge da primeira vaga da pandemia – desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso “eu” sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, esta (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos» (FT, 32). Mas a perplexidade continua. Nada continuamos a saber, mas precisamos de um equilíbrio entre o percurso individual de cada um e as possibilidades da consciência social.

Que reação pode provocar hoje a narração da parábola do bom samaritano, o estranho no meio do caminho, num mundo onde constantemente aparecem e crescem grupos sociais, que se agarram a uma identidade que os separa dos outros? Como pode a antiga parábola impressionar pessoas que tendem a organizar-se de maneira a impedir qualquer presença estranha que possa perturbar a tal identidade e uma organização puramente defensiva? Neste esquema, fica excluída a possibilidade de entendermos o lugar do próximo, «sendo possível apenas ser próximo de quem me permite consolidar os benefícios pessoais. Assim o termo «próximo» perde todo o significado, fazendo sentido apenas a palavra «sócio», aquele que é associado para determinados interesses» (FT, 102). Paul Ricoeur distingue nesse ponto a solidariedade e o cuidado ou caridade. Se a solidariedade é necessária, não pode reduzir-se a uma mera lógica assistencial. É preciso cuidar. Se as políticas de Segurança Social têm de se aperfeiçoar, a sociedade é chamada a organizar-se para o cuidado de quem está só ou está a ficar para trás.

«O diálogo social autêntico pressupõe a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como possível que contenha convicções ou interesses legítimos. A partir da própria identidade, o outro tem algo para dar, e é desejável que aprofunde e exponha a sua posição para que o debate público seja ainda mais completo. Sem dúvida, quando uma pessoa ou um grupo é coerente com o que pensa, adere firmemente a valores e convicções e desenvolve um pensamento, isto irá de uma maneira ou outra beneficiar a sociedade; mas só se verifica realmente na medida em que o referido desenvolvimento se realizar em diálogo e na abertura aos outros. Com efeito, num verdadeiro espírito de diálogo, nutre-se a capacidade de entender o sentido daquilo que o outro diz e faz, embora não se possa assumi-lo como uma convicção própria. Deste modo torna-se possível ser sincero, sem dissimular o que acreditamos, nem deixar de dialogar, procurar pontos de contacto e sobretudo trabalhar e lutar juntos». (FT, 203).

Numa sociedade pluralista, o diálogo e a troca são o meio mais adequado para reconhecer aquilo que sempre deve ser afirmado e respeitado e que ultrapassa o encontro ou o consenso ocasional. Falamos de um diálogo que precisa de ser fortalecido e iluminado por razões, por argumentos racionais, por uma variedade de leituras, por contribuições de diversos conhecimentos e opiniões, e que inclui a convicção de que é possível chegar a verdades fundamentais que devem e deverão ser defendidas com determinação e respeito mútuo. Aceitar que há valores permanentes, embora nem sempre seja fácil reconhecê-los, confere solidez e estabilidade a uma ética social. E importa ter em consideração que quando os reconhecemos e assumimos pelo diálogo e pelo consenso, vemos que estes valores basilares estão para além do mero encontro momentâneo. «Reconhecemo-los como valores transcendentes aos nossos contextos e nunca negociáveis» (FT, 211). Os direitos fundamentais assentam na eminente dignidade humana, de dimensão universal. Neste sentido, o consenso é uma realidade dinâmica –, mas como valor essencial é estável no seu sentido intrínseco.