Entrevistas |
Renata Alves, diretora-geral da Comunidade Vida e Paz
“A nossa missão continua a ser levar as pessoas na situação de sem-abrigo a mudarem de vida”
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A diretora-geral da Comunidade Vida e Paz enaltece o trabalho da instituição para fazer face à fome na cidade de Lisboa, no início da pandemia, mas lembra que a propósito é “criar relação e “a pessoa mudar de vida”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, Renata Alves lamenta que as convenções do Estado com as comunidades terapêuticas “não sejam revistas desde 2008” e revela ainda qual “o segredo” da missão desta instituição tutelada pelo Patriarcado de Lisboa.

 

No passado mês de setembro, a Comunidade Vida e Paz publicou o seu ‘Relatório de Atividades e Contas 2019’, onde refere que, ao longo desse ano, a instituição apoiou mais de 420 pessoas na rua e acolheu 290 pessoas para reabilitação e 146 para reinserção. São números que já foram ultrapassados este ano, devido à pandemia?

Curiosamente, não, não foram ultrapassados. No que diz respeito às pessoas apoiadas em situação de sem-abrigo, sim. Nas duas últimas semanas de março, passámos de 420 ceias para 800, porque havia muitas pessoas que não estavam em situação de sem-abrigo, mas que estavam em situações difíceis e deslocavam-se até às nossas viaturas para poderem receber alimento. Por outro lado, éramos praticamente a única instituição que estava a manter o apoio. De facto, em termos de apoio a pessoas em situação de sem-abrigo, o número disparou e neste momento andamos na ordem das 500 pessoas, e muitas das pessoas que apoiámos acabaram por ser inseridas nos centros de alojamento que foram criados, no âmbito da pandemia, pela Câmara Municipal de Lisboa. Portanto, o número mantém-se significativo independentemente de existirem estes centros.

Já nos centros terapêuticos é diferente, porque houve um período em que não admitimos pessoas, sobretudo entre março e abril, e agora a forma como estamos a admitir é também reduzida. Estamos a admitir menos pessoas na medida em que, por um lado, temos que ter condições que garantam a segurança de todos, quer dos que estão internados, quer daqueles que vão ser admitidos; e por outro lado, como houve o encerramento de praticamente todos os serviços públicos – e são esses serviços que encaminham as pessoas para as instituições –, acabaram por existir menos admissões. Não é que não houvesse uma maior necessidade, pelo contrário, podemos dizer é que a lista de espera aumentou significativamente. Temos convenção, no âmbito das comunidades terapêuticas, com a Saúde, e depois, no âmbito das comunidades de inserção, com a Segurança Social, e, comparando os números do ano 2019 para 2020, falamos de menos 40 por cento de entradas nas comunidades terapêuticas.

 

Assumiu o cargo de diretora-geral da Comunidade Vida e Paz a 1 de fevereiro e, um mês depois, o nosso país é assolado pelo novo coronavírus. O que a pandemia mudou na problemática das pessoas na situação de sem-abrigo, em particular em Lisboa? Mudou, por exemplo, o perfil dessas pessoas?

Assumi em fevereiro e já era um desafio enorme, porque eu vinha da gestão de um centro e passei para uma gestão macro, e tive necessidade de me inteirar de todos os projetos da Comunidade Vida e Paz. Com a pandemia, vi-me obrigada a ter que fazer este reconhecimento de uma forma muito mais célere, e passámos por vários cenários neste tempo: tivemos pessoas que ficaram limitadas do tipo de apoio que lhes era prestado por outras instituições e ficaram limitadas também tendo em conta o estado de emergência que fez com que as pessoas tenham ficado em casa. Isso teve efeito nas pessoas que, ao longo do dia, vão arrumar carros e procuram, junto dos restaurantes, obter alguns bens alimentares. Ou seja, isto fez com que, de facto, existissem pessoas a passar fome. E foi nesse período que nós aumentámos e disparámos das 420 para 800 ceias. Depois, houve um período em que os reclusos foram libertados e muitos foram para a rua, porque não tinham sequer resposta. Isso veio alterar um pouco também o perfil. Também há pessoas que são imigrantes e que vêm à procura de trabalho no nosso país e que também se viram privados. Depois, assistimos, ultimamente, a famílias que ficaram privadas do seu trabalho e que, de um momento para o outro, não têm qualquer tipo de rendimento para fazer face às suas necessidades básicas – chegámos a ouvir pessoas que para manterem a casa não tinham condições financeiras para se alimentarem. Pela pressão sentida pela pandemia, e por tudo aquilo que isto provoca em termos da saúde mental, assistimos a pessoas que intensificaram consumos – algumas que até já estavam reabilitadas e outras que, porventura, não tinham episódios e encontraram no álcool uma escapatória para esta situação. Para além disso, na lista de espera para entrar na comunidade terapêutica encontramos a maior parte das pessoas com problemas de saúde mental, aquilo a que nós designamos por pessoas com duplo diagnóstico: para além do diagnóstico das adições, portanto toxicodependência ou alcoolismo, também apresentam diagnóstico de doença mental.

Encontramos aqui, no meio da população em situação de sem-abrigo, estes perfis todos e acredito que vamos encontrar outro tipo de perfis no futuro.

 

Quais as principais preocupações da Comunidade Vida e Paz neste tempo atual?

Estamos com duas preocupações em cima da mesa. Tendo em conta o período de espera das pessoas para entrar em comunidade terapêutica, é de todo importante que elas possam ter um espaço para um período de acolhimento, no tempo que estão a aguardar, para que não se percam. Outra preocupação da instituição é a questão da doença mental. Assistimos, cada vez mais, que a doença mental está a surgir e há necessidade de mais respostas sociais nesta área, e até a própria instituição gostaria de avançar por aí.

Por outro lado, há muitas respostas públicas que ainda estão nem a 50 por cento, o que causa enormes constrangimentos. A juntar a isso, desde 2008 que as comunidades terapêuticas não são olhadas e as convenções, as participações, não são revistas. Quando começámos a distribuir o dobro das ceias e necessitávamos de equipamento de proteção individual, para os nossos voluntários e para os nossos profissionais, lançámos uma campanha que colheu a atenção por parte de particulares, empresas, benfeitores, parceiros, o que nos permitiu podermos estar a respirar. Mas não sabemos o futuro e daí dizer que o facto de não serem alteradas estas comparticipações em comunidade terapêutica torna tudo muito difícil. Vamos ver o que o futuro nos reserva…

 

Devido à pandemia, o Presidente da República considera agora improvável deixar de haver pessoas na situação de sem-abrigo até 2023. Estando no terreno, qual a sua perceção?

A população em situação de sem-abrigo é muito volátil. Temos assistido a alguma estabilidade no que diz respeito ao número de pessoas que apoiamos e servimos diariamente, na rua – gosto sempre de fazer aqui a ressalva que nós não estamos aqui para distribuir alimentação. Esse não é o propósito da Comunidade Vida e Paz. Não significa que, em março e abril, não tivéssemos que nos focar exatamente nisso, porque, de facto, percebíamos que na rua havia mesmo fome; mas fomos retomando depois, até ao tipo de ceia que distribuímos, porque a nossa missão estava a ficar posta em causa no sentido em que distribuíamos a refeição e não havia espaço para a conversa, para criar a tal relação que nós sentimos que é tão significativa para depois levar a pessoa à mudança. Tivemos necessidade de voltar à nossa atuação, que é o estabelecimento da relação e poder ter tempo, da parte dos voluntários, para estabelecer um diálogo e para encaminhar as pessoas para um processo de mudança. Agora, com a chegada do frio, há muitas pessoas que acabaram por ir para os centros de alojamento ou para outro tipo de alternativas. Também sabemos que têm sido criadas algumas medidas, nomeadamente o ‘Housing first’, e há ainda a questão de alguns apartamentos que a Câmara de Lisboa tem lançado e, no âmbito nacional, a Segurança Social criou os apartamentos partilhados – que nós também nos candidatámos e estamos a aguardar, para que possa existir mais esta alternativa, porque percebemos que algumas pessoas, sobretudo aqueles que vieram de uma situação de desemprego recente, podem precisar de um espaço para ficar até encontrarem alternativas no que diz respeito à questão profissional.

 

Mas, perante esses bons sinais, a meta para o ano de 2023 é então irrealista?

Considero que sim, que é muito irrealista. Como algumas áreas, como a restauração e a hotelaria, estão a passar por uma fase muito difícil, encontramos pessoas dessas áreas que não conseguem arranjar trabalho e vão para uma situação de grande vulnerabilidade, ou até situação de sem-abrigo. Sabemos que muitos acabam por vir para a cidade de Lisboa, porque pensam que aqui acabam por ter outro tipo de alternativas, e acredito que a médio prazo iremos ter pessoas nessas condições. Portanto, isto é uma preocupação, porque, independentemente das medidas que vão ser tomadas – não só no âmbito da Câmara Municipal de Lisboa, mas também do Governo –, não vão ser suficientes.

 

Qual o segredo de uma missão como esta, não só a sua, mas também das equipas de rua e das ceias?

O segredo é o amor à missão. O amor, ou seja, a entrega das pessoas. Neste período, quando estávamos receosos que os voluntários – alguns, até por pertencerem ao grupo de risco – pudessem deixar de colaborar connosco, assistimos que muitos se mantiveram, e depois tivemos outros movimentos, outras pessoas que quiseram colaborar. Portanto, o amor à missão, a confiança que as pessoas sentem por aquilo que é a intervenção da Comunidade Vida e Paz, isso faz toda a diferença. O que queremos é ajudar as pessoas a mudar de vida e qualquer pessoa se identifica com a nossa missão. Neste momento, a nossa missão ainda tem mais peso, porque, de facto, estamos numa altura em que nos é exigido, ainda mais, que possamos olhar pelas pessoas em situação de fragilidade e de vulnerabilidade, e em situação de sem-abrigo.

 

Como é que os cristãos, e mesmo as paróquias, devem reagir e atuar quando veem uma pessoa na situação de sem-abrigo?

Aquilo que devem fazer é não julgar, colocar-se no lugar do outro e procurar ajudar a pessoa a sair dessa situação em que se encontra. Tendo em conta que existem tantas respostas que atuam nesta área, podem perfeitamente encaminhar a pessoa para essa resposta, sinalizando. Mas temos aqui duas dimensões: por um lado, uma ajuda imediata, que pode ser matar a fome e as necessidades básicas; mas não ficarmos, apenas, por aí e é de todo importante que possamos investir a ajudar a pessoa para que saia desta situação e consiga dignidade.

 

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O apelo a voluntários para as ceias

Recentemente, através das redes sociais, a Região de Lisboa do CNE - Corpo Nacional de Escutas lançou um apelo aos escuteiros para angariarem voluntários para reforçar a ‘Equipa das Ceias’ da Comunidade Vida e Paz. Por que surgiu este apelo?

As ceias são uma atividade que acontece durante o dia, entre as 14h00 e as 16h30, onde as preparamos para depois serem distribuídas à noite. Por vezes, neste período, os nossos voluntários estão a trabalhar e, por isso, apelámos às pessoas que não estejam em situação de trabalho, ou que estejam em lay-off, que possam também dedicar algum do seu tempo nesta atividade, vindo aqui, à sede da Comunidade Vida e Paz, ajudar.

 

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Perfil

Diretora-geral da Comunidade Vida e Paz desde 1 de fevereiro, Renata Alves é licenciada em Psicologia Clínica e Aconselhamento, pela Universidade Lusófona, e tem pós-graduações em Psicoterapia e Consulta Psicológica e em Economia Social. Mais tarde, obteve certificação em Gestão da Qualidade, Gestão Organizacional, Sustentabilidade Financeira e em Programação Neurolinguística. Desde 2006, e até 2020, dirigiu o Centro de Fátima da Comunidade Vida e Paz, e tem ministrado formação para o terceiro sector na área comportamental, nomeadamente: comunicação, liderança, motivação e gestão de equipas.

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