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Padre Fernando Sampaio
O poder de perdoar

Nenhum pecador pode permanecer na presença de Deus. O Profeta Isaías, depois da visão de Deus, sentiu-se impuro e um serafim purificou-o com uma brasa do fogo do altar (Is 6: 1-7). Pedro depois da pesca milagrosa disse: “afasta-te de mim Senhor, que sou um homem pecador” (Lc 5,8). Para estar em Deus é necessário primeiro pedir perdão dos pecados e ser purificado das culpas. Junto de Deus não há pecado: só o pecador purificado e reconciliado se pode aproximar de Deus: “Sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou Santo” (Lev 19,2).

No baptismo, fomos lavados, santificados e justificados pelo Senhor Jesus e no Espírito Santo, com afirma S. Paulo em 1Cor 6:11. O pecado, no entanto, está sempre espreitando na esquina da rua da nossa vida. Diz S. João que «se dizemos que não temos pecados, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós» (1Jo1:8). Porque caímos no pecado, sentimo-nos e somos pecadores. Como membros de Jesus Cristo, não podemos conformar-nos com o mal nem com o pecado, mas devemos procurar ser santos em tudo na nossa vida porque Deus é Santo (Pe1,15-16).

Como reconciliar-se? Não basta dirigir-se directamente a Deus e pedir perdão? Porquê confessar-se a um padre? Não é só Deus que tem o poder de perdoar?

João Baptista, anunciado a vinda do Messias, proclamava a necessidade de arrependimento dos pecados e conversão de vida. E muitos, confessando os seus pecados, eram baptizados por João. Jesus, quando realizava curas, perdoava também a muitos doentes os pecados. Bem, mas era Deus! Certo, mas também era homem.

Na cura de um paralítico, Jesus quis manifestar que, enquanto homem, tinha o poder de perdoar os pecados e que n’Ele Deus dava esse poder aos homens. Provocou um escândalo e foi acusado de blasfémia porque dizia ao paralítico: “«Homem, os teus pecados estão perdoados». Os doutores da lei e os fariseus murmuravam, dizendo: «quem é este que profere blasfémias? Quem pode perdoar os pecados, a não ser Deus?»” Jesus revelando que tinha o poder de perdoar os pecados, disse: «que é mais fácil dizer: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te e anda?’ Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem, na terra, o poder de perdoar pecados, ordeno-te –disse ao paralítico: Levanta-te, pega na tua enxerga e vai para tua casa». E o paralítico levantou-se, pegou na enxerga e foi para casa (Lc 5,17-25).

Este poder de curar não só o corpo, mas também a alma foi dado por Jesus à sua Igreja para que esta, pela acção do Espírito, exerça o ministério da reconciliação: «Tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja … Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra ficará desligado no Céu» (Mt 16,17-19). E em S. João, depois da Ressurreição, soprando sobre os discípulos, disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoares os pecados, ficarão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos» (Jo 20, 22-23).

É pelo mandato de Jesus e pelo poder do Espírito Santo que o padre perdoa os pecados e reconcilia com Deus, tornando visível o ministério da reconciliação dado à Igreja. Pôr em causa o poder de reconciliar do padre em nome da Igreja, é pôr em causa o mandato de Jesus e o poder do Espírito Santo. Quem assim procede permanece no pecado e chama mentiroso ao Senhor. Nele os pecados são retidos porque não acredita nem obedece à Palavra de Jesus. Como ordena S. João, confessemo-nos. «Se confessamos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a iniquidade» (1Jo 1,9). Não é a Igreja nem o padre que o diz, mas a Palavra de Deus escrita para nós na Bíblia que o ordena.