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“O consumismo sequestrou-nos o Natal”
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O Papa Francisco considera que a crise pode ser um tempo de graça e oportunidade. Na semana em que o Vaticano referiu aceitar vacinas feitas a partir de fetos abortados quando não há alternativa, o Papa convidou os cristãos a oferecerem um presente aos mais carenciados, encontrou-se com o Bispo de Pemba, diocese que abrange Cabo Delgado, e publicou a Mensagem para o Dia Mundial da Paz.

 

1. O flagelo da pandemia é, para o Papa, “um teste considerável e, ao mesmo tempo, uma grande ocasião para nos convertermos e recuperarmos a autenticidade”. No discurso de Natal aos membros da Cúria romana, Francisco fez uma reflexão sobre o significado da crise em geral e dos benefícios que dela se podem retirar, mesmo em tempos de covid-19. “Este é o Natal da pandemia, da crise sanitária, económica, social e até eclesial que atingiu, sem distinções, o mundo inteiro. A crise deixou de ser um lugar-comum dos discursos e da elite intelectual para se tornar uma realidade partilhada por todos”, afirmou. Por isso, este flagelo pode tornar-se “uma grande ocasião para nos convertermos e recuperarmos a autenticidade”.

Para o Papa, a crise pode ser uma oportunidade. “Quem não olha a crise à luz do Evangelho limita-se a fazer a autópsia dum cadáver. Estamos assustados com a crise não só porque nos esquecemos de a avaliar como o Evangelho nos convida a fazê-lo, mas também porque olvidamos que o Evangelho é o primeiro a colocar-nos em crise. Mas, se reencontrarmos a coragem e a humildade de dizer em voz alta que o tempo da crise é um tempo do Espírito, então, mesmo no meio da experiência da escuridão, da fraqueza, da fragilidade, das contradições, da confusão, já não nos sentiremos esmagados, mas conservaremos sempre a confiança íntima de que as coisas estão prestes a assumir uma forma nova, nascida exclusivamente da experiência duma graça escondida na escuridão”, garantiu.

 

2. O Vaticano considera que a utilização de vacinas contra a covid-19 produzidas a partir de células retiradas de fetos abortados é moralmente aceitável em países onde não houver alternativa e os cidadãos não puderem escolher a vacina. A Congregação para a Doutrina da Fé publicou, dia 21 de dezembro, um esclarecimento sobre o uso de vacina desenvolvidas a partir de linhas celulares provenientes de tecidos obtidos de fetos abortados não espontaneamente. A nota refere que, em países onde não houver alternativa e os cidadãos não puderem escolher a vacina, é “moralmente aceitável” usar vacinas anti-covid-19 que usem esse tipo de células.

O texto de esclarecimento inclui alguns exemplos: “Em países onde vacinas sem problemas éticos não são disponibilizadas para médicos e pacientes, ou onde sua distribuição é mais difícil devido a condições particulares de armazenamento e transporte, ou quando vários tipos de vacina são distribuídos no mesmo país, mas, pelas autoridades de saúde, os cidadãos não estão autorizados a escolher a vacina a ser inoculada, é moralmente aceitável usar vacinas anti-Covid-19 que usaram linhagens de células de fetos abortados nos seus processos de pesquisa e produção”.

No entanto, o recurso a estas vacinas, “ainda que clinicamente seguras e eficazes, não significa uma cooperação formal a favor do aborto”, sublinha o Vaticano.

Assim, no combate contra o vírus SARS-CoV-2 que causa a Covid-19 “podem-se utilizar todas as vacinas reconhecidas como clinicamente seguras e eficazes, “com a consciência certa de que o recurso a tais vacinas não significa uma cooperação formal com o aborto”, nem deve “de nenhum modo, levar a uma aprovação moral da utilização de linhas celulares provenientes de fetos abortados”.

A Santa Sé pede às empresas farmacêuticas e às agências governativas de saúde que “produzam, aprovem, distribuam e ofereçam vacinas eticamente aceitáveis que não criem problemas de consciência, nem aos agentes de saúde, nem aos próprios vacinados”.

 

3. No último Angelus antes do Natal, o Papa Francisco alertou para os riscos do consumismo e convidou a ajudar os que mais precisam, em tempo de pandemia. “Neste momento difícil, em vez de nos lamentarmos do que a pandemia nos impede de fazer, façamos alguma coisa pelos que têm menos: não, ao enésimo presente para nós e para os nossos amigos, mas antes para alguém necessitado”, apelou o Papa, no passado Domingo, 20 de dezembro, no Vaticano.

Contra a habitual correria das compras, Francisco deixou um outro conselho. “Para que Jesus nasça em nós, preparemos o coração, rezemos, não nos deixemos arrastar pelo consumismo – tenho de comprar presentes, de fazer isto e aquilo… num frenesim de fazer coisas. O importante é Jesus”. Segundo referiu, “o consumismo sequestrou-nos o Natal. O consumismo não está na manjedoura de Belém. Nela está a realidade, a pobreza e o amor”.

 

4. O Papa Francisco recebeu, no dia 18 de dezembro, D. Luiz Fernando Lisboa, Bispo de Pemba, em Moçambique, que abrange o território de Cabo Delgado, onde ao longo dos últimos anos se tem verificado atividade terrorista. O teor da conversa não foi tornado público, mas o bispo revelou que o Papa manifestou a sua “proximidade e grande amor” pelas comunidades afetadas. “Durante a audiência de 40 minutos, o bispo de Pemba informou o Papa Francisco sobre a grave situação humanitária [em Cabo Delgado]. O bispo disse que o Papa falou da sua preocupação para com o povo sofredor de Cabo Delgado, bem como com todos os moçambicanos”, refere o Vatican News.

 

5. Na mensagem para o 54.º Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2021), dedicada à “cultura do cuidado como percurso de paz”, Francisco propõe “um leme” e “uma bússola” que orientem a humanidade gravemente marcada pela pandemia. Publicado a 17 de dezembro – dia em que o Papa celebrou o 84.º aniversário –, o texto recorda como esta “crise sanitária da covid-19 agravou fortemente outras crises inter-relacionadas, como a climática, a alimentar, a económica e migratória, e provocou grandes sofrimentos e incómodos”. Francisco não esquece os que “perderam um familiar ou uma pessoa querida, mas também os que ficaram sem trabalho” e agradece aos profissionais que se desdobram ao serviço dos outros, “com grande fadiga e sacrifício, a ponto de alguns deles morrerem quando procuravam estar perto dos doentes a fim de aliviar os seus sofrimentos ou salvar-lhes a vida”.

O Santo Padre propõe ainda uma “gramática” do cuidado, articulada nos princípios da doutrina social da Igreja: “A promoção da dignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da criação”.

Aura Miguel, jornalista da Renascença, à conversa com Diogo Paiva Brandão
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