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Pedro Vaz Patto
Como se a África não contasse

Numa entrevista recente, o Bispo de Pemba, D. Luiz Lisboa, manifestou a sua indignação pela pouca atenção que no mundo inteiro tem sido dada à tragédia que assola a região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Comparava esse desinteresse com a (sempre justificada) revolta que suscitam atentados terroristas de outra gravidade que ocorrem na Europa. «É como se a África não contasse» - afirmou.

Esta mesma ideia é salientada na nota da Comissão Nacional Justiça e Paz Ouvir o grito do povo de Cabo Delgado. Nela se afirma: «Assistimos a muitas e fortes reações de indignação sempre que atentados terroristas atingem a Europa. Os atentados que hoje atingem esta região do Norte de Moçambique são de uma gravidade extrema, equivalente à dos atentados terroristas que têm atingido a Europa multiplicada por cem ou por mil. Mas não têm recebido uma atenção sequer comparável a estes».

Não será só a distância geográfica a explicar este fenómeno, porque manifestações de protesto contra a violência policial e o racismo nos Estados Unidos suscitam manifestações semelhantes um pouco por todo o mundo.

Se pensarmos noutro tipo de tragédias, também poderemos evocar a ignorância ou indiferença de mundo em geral perante epidemias que atingem África, tão ou mais mortíferas do que a pandemia do coronavírus.

Na verdade, o terrorismo que atinge atualmente a região de Cabo Delgado provocou já mais de duas mil vítimas mortais e calcula-se em mais de quinhentos mil as pessoas deslocadas, que se viram obrigadas a deixar as suas casas para fugir à morte. Há notícia de destruição sistemática de habitações e estruturas missionárias de apoio à população. São descritas atrocidades das mais chocantes.

Para conhecer melhor esta tragédia e o que fazer para a debelar, um grupo de organizações católicas realizou um em meados de dezembro um encontro virtual com D. Luiz Lisboa.

Um dos aspetos que mais me impressionou deste encontro, foi o de que D. Luiz Lisboa, antes de falar da tragédia, falou do que os missionários cristãos em especial, mas também todas as pessoas, devem aprender com o povo e a cultura dessa região: a valorização dos mais velhos, a sede de Deus que leva à participação ativa e interessada em celebrações litúrgicas de várias horas, a generosidade das famílias pobres que têm acolhido a maioria dos deslocados.

Na verdade, África não é apenas local de tragédias e atrocidades. Tem riquezas humanas com que o mundo inteiro pode aprender.

Para enfrentar a tragédia de Cabo Delgado, a Igreja Católica tem estado na linha da frente. Os missionários têm permanecido ao lado das populações até ao fim, sem as abandonar, mesmo quando já não há forças de segurança para as defender. E. com outras organizações têm colaborado no acolhimento das muitas pessoas deslocadas.

Também em Portugal várias organizações católicas se têm mobilizado para que esta tragédia não seja esquecida, para que os responsáveis políticos, portugueses e da União Europeia, façam tudo o que está ao seu alcance para lhe pôr termo, e para que se reúnam os recursos financeiros necessários de apoio à urgente ajuda humanitária.  Trata-se de uma mobilização que parte da Igreja Católica, mas que deve estender-se a toda a sociedade portuguesa.