Entrevistas |
Padre Pedro Lourenço, diretor do Departamento de Liturgia, sobre o «Motu Proprio» ‘Spiritus Domini’
“Todos os fiéis são povo celebrante”
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O diretor do Departamento de Liturgia do Patriarcado de Lisboa considera que, com a carta apostólica sob forma de «Motu Proprio» ‘Spiritus Domini’, o Papa Francisco “reconhece que todos os fiéis são povo celebrante”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre Pedro Lourenço explica como serão atribuídos os Ministérios de Leitor e de Acólito a homens e mulheres das comunidades cristãs e deixa dicas para se ser um bom leitor e um bom acólito.

 

No «Motu Proprio» ‘Spiritus Domini’, o Papa Francisco estabeleceu que mulheres e homens tenham igual acesso aos Ministérios de Leitor e de Acólito. O que significa este documento?

Este documento, do ponto de vista prático, vem confirmar aquilo que o Papa diz na carta de esclarecimento que acompanha o «Motu Proprio», dirigida ao cardeal Ladaria [Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé]: que no decorrer da história, estas coisas não devem aparecer apenas como uma adaptação às exigências socioculturais, mas àquilo que são as necessidades da Igreja. Em primeiro lugar, há que perceber que estes ministérios estavam muito ligados ao ministério ordenado. Até aqui, têm permanecido dessa maneira, como ministérios prévios à ordenação, sendo que o Papa Paulo VI, no documento ‘Ministeria quaedam’, abre a possibilidade a outros ministérios, que possam vir a ser instituídos, ficando esse discernimento a cargo das Conferências Episcopais e com a necessária aprovação da Santa Sé. Mas, na verdade, na nossa realidade concreta, no nosso contexto eclesial, isso nunca aconteceu. Este documento é um reconhecimento da importância desses ministérios, que radicam no sacerdócio comum, batismal, e que se distinguem do ministério ordenado, o sacerdócio ministerial, ou até do ministério ordenado do diácono, e distinguem-se porque existem na própria vida da Igreja. Este passo é uma oficialização disto mesmo: dessa distinção e, ao mesmo tempo, dessa mútua relação. Portanto, o ministério ordenado e os ministérios laicais não se contrapõem, mas são ambos para a edificação da Igreja. Este passo da Igreja surge como concretização daquilo que tem vindo a ser a reflexão da Igreja Universal nos últimos Sínodos, de que estes ministérios existem como expressão da Igreja na diversidade dos seus membros, todos eles chamados a participar na vida da comunidade, nomeadamente na vida litúrgica.

Atenção, que o documento explicita o acesso das mulheres a este ministério, mas é importante ter presente que, na prática, trata-se de dispor esta instituição para mulheres e para homens das nossas comunidades. Ou seja, até agora, este ministério, de modo instituído, estava reservado apenas a homens, porque na prática estava reservado apenas como passo preparatório para a ordenação. Agora, sendo reconhecido como ministério laical que não se reduz ao horizonte da ordenação, trata-se de poder instituir, com o rito litúrgico, mulheres e homens – e, neste caso, homens que não estejam apenas orientados ao ministério ordenado.

 

O Papa estabelece que estes ministérios sejam atribuídos “através de um ato litúrgico institucional”. De que forma isto se pode processar?

Há uma clara disposição do Papa que, pelo facto de esta escolha comportar uma estabilidade e um reconhecimento público, e um mandato da parte do Bispo, requer também um discernimento de como é que isto se fará. E este discernimento compete às Conferências Episcopais, que terão de estabelecer critérios. Ou seja, nós não passaremos a instituir liturgicamente todos aqueles que, nas nossas comunidades, atualmente, exercem o ministério de leitor ou de acólito. Significa um discernimento, a partir dos critérios que forem definidos, para perceber, de facto, as condições de estabilidade na vida da comunidade, para que aquelas pessoas sejam reconhecidas publicamente, e com o tal ato litúrgico, como ministros oficiais na vida da comunidade.

Há uma distinção importante: nós, de certo modo, já tínhamos um reconhecimento de algum ministério – e neste caso, na prática, só de um, que é o de ministro extraordinário da comunhão. Simplesmente, faz-se aqui uma distinção linguística entre instituição e nomeação. A instituição requer o tal carácter de estabilidade e permanência – não se é instituído por dois anos. Não significa que, se as condições de vida daquela pessoa mudarem, ela não possa deixar de exercer esse ministério, claro que sim, e pode deixar de ser acólito ou leitor; mas a pessoa passará a ser leitora ou acólito para sempre, desde que não seja revogado esse ministério. Enquanto a nomeação é sempre temporária, renovável. No caso dos ministros da comunhão, e na nossa diocese, é por cinco anos.

Finalmente, isto requer também – e essa orientação o Papa também a dá – uma revisão do livro litúrgico da instituição dos leitores e dos acólitos. O Pontifical Romano é o livro de uma celebração litúrgica presidida pelo Bispo, e ele, neste momento, tem em conta só os homens, e especificamente os homens que estão no caminho de preparação para o ministério ordenado. Neste caso, o Pontifical terá de ser revisto, também, para esta abrangência aos leigos que pertencem às comunidades cristãs.

 

Este passo dado pelo Papa vem contribuir para uma maior participação dos leigos na vida celebrativa da Igreja?

Ele vem reconhecer a importância de uma coisa que já é assumida, de certo modo, desde a reforma litúrgica: a liturgia não é alguma coisa feita por clérigos para a assistência dos fiéis, mas é uma celebração de toda a Igreja, presidida pelo ministro ordenado, com a participação eventual de outros ministros ordenados. A celebração é de todos, é uma ação litúrgica da Igreja. Portanto, os fiéis, todos eles, participam na celebração. São, de certo modo, povo celebrante. Este passo é, de facto, o reconhecimento disso, mas, claro, com uma oficialização também se dá um incentivo a esta consciência e a esta participação.

 

Quais devem ser as principais características de um bom leitor e de um bom acólito?

O primeiro aspeto, para um bom leitor, é a familiaridade, a intimidade, com a Palavra de Deus. Aquele que a proclama na liturgia, tem de ser alguém para quem a Palavra não é uma coisa estranha e desconhecida, mas tem de significar e pressupor uma convivência que há de ser, antes de mais, Palavra para ele próprio e para a qual ele empresta a sua voz para a comunicar à comunidade. É muito importante aquela citação de São Jerónimo, que o desconhecimento das Escrituras significa um desconhecimento de Cristo, porque Cristo se revela na Escritura. Um segundo elemento que é fundamental é a capacidade de ler bem. Mais do que ler bem, de proclamar. Isto é uma coisa que é pouco tida em conta na escolha de leitores e no próprio exercício deste ministério. Mas proclamar não significa declamar, significa conhecer o texto, conhecer as características literárias desse texto e usá-las no modo como lê e como proclama essa leitura. É um desafio muito grande, daí a necessidade de preparação contínua.

Quanto ao acólito, é importante, fundamental diria, esta proximidade, esta relação profunda com Jesus, este Jesus Cristo que depois serve no altar. Não faz sentido alguém que não tenha uma relação profunda com Cristo, que vá ali só ajudar a levar coisas para o altar. É interessante este passo assumido na caminhada para o ministério ordenado, porque também significa isso: aquele que será chamado a servir Cristo no altar, identificando-se com o próprio Cristo no sacerdócio ministerial, ou até como diácono, passa antes por esta aproximação ministerial ao serviço do altar. Claro que requer, também, um saber estar, reconhecer o que se pede em termos de celebração, do que ela significa, dos seus diversos momentos e da própria postura. Portanto, também requer preparação.

 

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“Não recorrer aos subsídios litúrgicos durante a Missa”

Que sugestões poderia deixar para uma melhor vivência do Domingo da Palavra de Deus, que a Igreja celebra no Domingo III do Tempo Comum (24 de janeiro)?

A Santa Sé, através da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, publicou um documento com orientações que podem ser especialmente valorizadas neste Domingo, mas que não são específicas para este dia, são algo a valorizar habitualmente. Das várias sugestões, por exemplo, há o respeito pela organização do lecionário, respeitando as leituras indicadas sem as substituir nem suprimir, o canto do salmo responsorial, o cuidado na homilia e na sua preparação, a valorização do silêncio… Todas estas coisas podem ser apresentadas, mas é importante que seja dito que elas não são para este Domingo, mas uma coisa óbvia para ter presente. São coisas que nós, na nossa realidade cristã, temos em conta e vivemos, mas não esqueçamos que estas orientações são para a Igreja Universal e que há muitos sítios, por este mundo fora, em que as coisas não se fazem assim ou não há este cuidado e este respeito.

Eu realçava uma coisa concreta que não vem nestas sugestões. Os subsídios litúrgicos são, de facto, preparatórios e para depois se recorrer para uma releitura. E está a ser muito comum o uso destes subsídios litúrgicos durante a própria proclamação da Palavra. Este seria um desafio a ter presente em todos os Domingos, mas a vivenciar de forma particular neste Domingo. As pessoas gostam de ter o papel à frente, em vez de estarem atentas à escuta, e até à visão, daquele que está no ambão.

 

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“Uma mensagem de esperança aos agentes litúrgicos”

Com o falecimento do cónego Luís Manuel, assumiu a direção do Departamento de Liturgia do Patriarcado de Lisboa, em julho passado. O que tem sido possível realizar pelo departamento, neste tempo de pandemia e, agora, de confinamento?

Reconheço a nossa limitação neste contexto específico, comum a todos os sectores da vida da Igreja e da sociedade, neste contexto que estamos a viver, tão exigente. O Departamento de Liturgia tem a responsabilidade de promover a formação litúrgica do Povo de Deus para uma consciente e digna participação nas celebrações litúrgicas, mas, na verdade, muito desta preparação, desta formação, acontece em regime presencial. Com estas limitações todas, mesmo aquilo que já é comum promovermos – como sejam a formação dos ministros extraordinários da comunhão ou a formação litúrgica em âmbito vicarial, em toda a diocese – tem sido impossível. Fizemos a programação do ano pastoral e tínhamos calendarizado estas formações e o rito da nomeação dos novos ministros da comunhão, e tudo isso teve de se cancelar… porque há formações que não se podem fazer numa conversa via Zoom, porque são muitos longas e requerem elementos de preparação. Mesmo assim, conseguiu-se fazer, em novembro, através do Serviço de Acólitos, um encontro de formação diocesano, que iria decorrer na Portela e que teve de ser adaptado para o online. Neste ano, uma atividade que estava a ser pensada, mas que não avançou por esta incerteza, era o Encontro Diocesano de Liturgia, que seria um encontro formativo e celebrativo.

 

Que mensagem gostaria de deixar a todos os agentes litúrgicos da diocese?

Antes de mais, uma mensagem de esperança. Melhores dias virão, acreditamos que sim, mas mesmo neste contexto nós não deixamos de ser cristãos, não deixamos de ter responsabilidades cristãs e não deixamos de ser chamados a contribuir com o que está ao nosso alcance, para a edificação da comunidade, nomeadamente pela vida litúrgica. É importante não desistir, é importante percebermos que, se temos uma celebração, essa celebração deverá ser preparada com todas as condições possíveis para ter dignidade. Não podemos ter um grande coro, temos dois ou três cantores, ou até um cantor, mas é importante não passar ao improviso.

Não esquecer também aqueles que, pelas limitações da idade ou da fragilidade em que se encontram, não podem participar na vida litúrgica de modo presencial. Portanto, a visita e a presença, nomeadamente a comunhão aos doentes, seria algo a não descurar – e a comunhão não é só a comunhão sacramental, mas a presença de um momento orante na vida daqueles que estão mais isolados. Seria um aspeto muito importante a promover pela comunidade cristã e nomeadamente por aqueles que têm responsabilidades litúrgicas.

 

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Perfil

Diretor do Departamento de Liturgia do Patriarcado de Lisboa desde julho de 2020, o padre Pedro Lourenço, de 47 anos, é prefeito do Seminário dos Olivais desde o ano 2000, tendo sido ordenado sacerdote dois anos antes, em 1998.

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