Lisboa |
Preparação da Páscoa
“A grande questão da Quaresma é: o que estamos dispostos a fazer pela nossa alma?”
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De que forma os cristãos podem viver a Quaresma, neste tempo de pandemia e de confinamento? Para o pároco de Óbidos, o tempo litúrgico de preparação para a Páscoa deve ser vivido “como sempre foi a proposta da Igreja”, para “crescer na vida cristã”. Ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre Ricardo Figueiredo convida a aproveitar a Quaresma para “reorientar a vida para Deus” e sublinha a importância de “não perder o vínculo” com os outros.

 

“São 40 dias de Quaresma e o número 40 tem um simbolismo bíblico muito bonito: são os 40 anos do povo no deserto, são os 40 dias que Jesus passou no deserto para ser tentado. Portanto, o tempo da Quaresma é este tempo particular para crescer na vida cristã, para deixar de sermos tentados para vencermos as tentações, com Jesus Cristo e como Jesus Cristo, e assim crescermos na nossa vida espiritual e vivermos, de forma muito particular, aquilo que são as várias dimensões próprias da Quaresma: por um lado, celebrar e recordar a graça e a salvação que vem de Jesus Cristo, e portanto estarmos muito fundados, muito unidos a Nosso Senhor; e, por outro lado, recordarmos o que é o batismo, o que é a fé, o que é a conversão e a penitência, para assim vivermos melhor este tempo”, descreve o sacerdote, de 31 anos, a propósito do tempo litúrgico que a Igreja inicia nesta Quarta-feira de Cinzas, 17 de fevereiro, e se prolonga até ao Tríduo Pascal, que começa a 1 de abril.

Pároco, desde 2017, das duas paróquias de Óbidos (Santa Maria e São Pedro) e também de A-dos-Negros e Gaeiras, o padre Ricardo Figueiredo lembra que “penitência” é, “muitas vezes, uma palavra muito mal compreendida, no nosso tempo – ou, de todo, já não compreendida”. “Mas é muito bonito, sempre, perceber que a penitência é a reorientação da vida para Deus. Vivemos num tempo em que as pessoas fazem tantos esforços pela saúde, pelo corpo… então, a grande questão da Quaresma é: o que é que nós estamos dispostos a fazer pela nossa alma?”, questiona o jovem padre.

 

Partilha de vida, de amizade e de coração

Na Mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa Francisco convida os cristãos a darem-se, referindo que “uma Quaresma de caridade é cuidar de quem está em sofrimento, abandono ou angústia”. Para este sacerdote, num tempo caracterizado pelo distanciamento social, o importante é “o apostolado da amizade”, que “é chamado a ser vivido de outra forma, neste tempo”. “Pelo telefone, pelas redes sociais, por formas que temos de chegar, com pequenos gestos de carinho ou mesmo pela morada das pessoas que não têm tanto acesso a estes meios de comunicação e fazer chegar algum gesto mais próximo e oferecer alguma coisa, um terço ou algo que ajude a pessoa a recordar-se e a não perder a ligação. Esta é a principal dimensão neste tempo de confinamento”, considera o padre Ricardo, sublinhando que “o grande desafio é não perder o vínculo”. “Temos muita facilidade em que os vínculos se desfaçam. O Papa Francisco tantas vezes tem falado do vínculo… e o vínculo é exatamente esta ligação profunda de partilha de vida, de partilha de amizade, de partilha de coração. Este tem de ser o grande desafio para vivermos esta Quaresma: não deixarmos que esta ligação, que este vínculo que se criou com as pessoas, que se criou com Jesus Cristo, se perca. É bonito que a mensagem do Papa Francisco nos leve a meditar sobre as três virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade, para percebermos que o amar o outro, o darmo-nos ao outro, só se entende, em primeiro lugar, se estivermos muito unidos a Jesus Cristo e com uma grande sede de Deus, para depois então nos darmos aos outros”, considera.

 

Reinventar diariamente

Presente nestas quatro paróquias do Oeste há três anos e meio, o padre Ricardo Figueiredo diz que, com a pandemia do novo coronavírus, precisa de se “reinventar todos os dias” para acompanhar o povo de Deus que lhe está confiado. “Todos os dias, temos de encontrar novas formas de proximidade e de estar perto das pessoas, procurando criatividade pastoral e pedindo ao Espírito Santo que mostre novos caminhos”, garante. “Tem sido através das redes sociais, através do Facebook, através do YouTube, e, mais uma vez, estou a preparar uma cartinha para enviar aos fiéis. Sei que as cartas parecem fora de moda, mas, para a população que temos, ainda é uma forma de chegar a ela e é uma grande surpresa para as pessoas receber uma carta do prior”, revela o sacerdote, recordando ainda o seu contacto “pelo telefone” e, para os lares, a “presença à janela, para dizer ‘olá’ às pessoas”. “Sinto muita a falta deles… são gestos que não quero dizer que são o novo normal, mas que é o possível, agora”, frisa.

Nesta Quaresma, o contacto com os cristãos vai passar também pelas confissões: “Com todos os cuidados, como sempre fizemos, com uma barreira física, as confissões são uma forma de estarmos próximos das pessoas e de as pessoas poderem, assim, viver os sacramentos desta forma”.

 

 

‘Quaresma confinados’

Nestas paróquias do Oeste do Patriarcado de Lisboa, os ciclos de catequese online tiveram início com o anterior confinamento, no ano passado. “As pessoas estão mais por casa e esta é uma boa oportunidade para evangelizar e para as pessoas crescerem na fé e se formarem. Os nossos cristãos vivem a fé, e muito bem, mas muitas vezes não têm um conhecimento muito aprofundado daquilo que é a fé que vivem”, considera. Neste sentido, para o tempo litúrgico que se aproxima, o padre Ricardo está a preparar diversas iniciativas. A primeira, tem início já neste dia 16 de fevereiro. “Hoje, terça-feira, vou fazer uma catequese online, intitulada ‘Quaresma confinados’, para preparar precisamente a Quaresma, e já temos cerca de 400 inscrições”, refere o sacerdote.

Para poder participar nesta catequese online, via Zoom, pode consultar a página destas paróquias no Facebook, em www.facebook.com/ObidosAdosNegrosGaeiras.

 

 

Símbolo do Credo e São José

Na próxima semana, quarta-feira, dia 24 de fevereiro, vai ter início um ciclo de catequeses “mais longo”. “Tenho-me dado conta que, muitas vezes, falta o básico à fé das pessoas e, portanto, vamos fazer um ciclo sobre o símbolo do Credo, com 12 catequeses semanais, cada uma sobre um dos artigos do símbolo do Credo, para recordar aquilo que é a nossa fé, exatamente por esta motivação da Quaresma, e depois, no Tempo Pascal, para viver os frutos do que se preparou e do que se viveu na Páscoa”, anuncia o pároco.

No mesmo dia, imediatamente antes deste ciclo de catequeses do Credo, vai ter lugar outra proposta online que está a ser preparada pelas paróquias de Óbidos, em colaboração com a paróquia de Nossa Senhora do Amparo de Benfica: um tempo de oração sobre São José, intitulado ‘Quaresma com São José’. “O padre Nuno Fernandes [pároco de Benfica] e eu lançámos o desafio a várias famílias, de duas equipas de casais, que se cruzam entre si, também para se conhecerem, e vão preparar uma meditação sobre São José a partir da carta ‘Patris corde’, do Papa Francisco, para ser um momento de oração, um momento de partilha e um momento de vivermos em estilo familiar este tempo da Quaresma”, explica o padre Ricardo, sublinhando que esta proposta, nas quartas-feiras da Quaresma, à noite, “é uma oportunidade para as famílias se juntarem, rezarem e refletirem”.

 

 

Vigília de oração, catequese e Senhor dos Passos

Nas noites de quinta-feira, durante o tempo litúrgico de preparação para a Páscoa, as paróquias de Óbidos propõem também uma vigília de oração. “Será um tempo de pregação, feita pelo padre Marco Leotta [pároco da Amoreira, Olho Marinho, Vau e Sobral da Lagoa], ao estilo batismal, de recordação daquilo que é o batismo, e depois também um tempo de adoração do Santíssimo”, refere.

Para a catequese, as duas paróquias de Óbidos e também de A-dos-Negros e Gaeiras estão a organizar o ‘Quaresma together’, que pretende, nas palavras do pároco, “juntar o pessoal”. “A proposta é vivermos a Quaresma em conjunto. Todos os sábados, em duas sessões – uma para o 1.º ao 4.º ano, e outra do 5.º ao 9.º ano –, haverá um tempo de partilha sobre o Evangelho de Domingo e tem como grande objetivo aprofundar estas passagens do Evangelho e preparar um espaço de oração em casa, em família”, deseja o jovem sacerdote.

Sobre a Procissão do Senhor dos Passos de Óbidos, que é sempre marcante para esta terra do Oeste, o padre Ricardo Figueiredo lembra que, “no ano passado, com o início da pandemia, foi tudo suspenso”, mas que, “este ano”, vão “procurar assinalar, pelo menos com um tempo de oração e meditação”, mas que, neste momento, “ainda não está nada finalizado”. “Neste tempo da pandemia e de dificuldade que a população está a viver, a Semana Santa será, com certeza, um tempo de oração e um momento de confiança e de animar a fé, para viver esta união maior e este amor maior a Nosso Senhor”, assegura o pároco de Óbidos.

texto por Diogo Paiva Brandão; fotos por João Fonseca (fotos de arquivo)
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