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Pedro Vaz Patto
Portugueses ciganos
A Comissão Nacional Justiça e Paz acaba de publicar uma nota (acessível em www.ecclesia.pt/cnjp) com um apelo a que os portugueses ciganos tenham acesso a uma cidadania plena que ultrapasse o estatuto inferior de uma minoria segregada. Aí se afirma que, apesar de alguns passos que já foram dados, muito há a fazer nesse sentido (nos âmbitos da educação, da saúde, da habitação e do emprego), em especial no que se refere àquela significativa parcela que vive em situação de pobreza extrema. Denuncia-se o discurso político preconceituoso e hostil contra esses portugueses, que, além do mais, parece ignorar uma realidade complexa e multifacetada, muito diferente (e cada vez mais diferente) das imagens estereotipadas que veicula tal discurso. Como exemplo do que há a fazer para ultrapassar a discriminação, questiona tal nota: quantos estão dispostos a empregar portugueses ciganos como o fariam com outros portugueses?

Na verdade, essa mentalidade preconceituosa e hostil não é de hoje, tem raízes que ultrapassam as gerações. Mas hoje parece ter vencido a barreira do pudor que a limitava a conversas privadas e a afastava do discurso mais público e político.

Não se trata de ignorar que a integração das comunidades ciganas (presentes entre nós desde há séculos) na comunidade nacional apresenta dificuldades que não se verificam com outras. Esse é um desafio com que se defrontam outros países europeus e que também mobiliza a União Europeia, como se refere na nota da C.N.J.P. que cita a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen: «onde está a essência da humanidade quando todos os dias cidadãos ciganos são excluídos da sociedade…?».

Há um passado de marginalização (nalguns países até de perseguição genocida que muitos ignoram) que deixa marcas. Há um esforço de aproximação recíproca a enfrentar de forma incessante. Reacender e reforçar preconceitos e hostilidade é regredir no caminho que tem sido percorrido (que se traduz, por exemplo, num maior acesso de crianças e jovens ciganos à escola).  

Há que evitar generalizações, como, por exemplo, a que associa os ciganos ao tráfico de droga, esquecendo que nessas comunidades há quem muito sofra com a toxicodependência e muito faça para combater esse tráfico.

Há que valorizar as riquezas da cultura cigana, sem cair no relativismo cultural. Não é aceitável tolerar, em nome desse relativismo, os casamentos forçados e precoces. Mas todos podemos aprender com valores da cultura cigana como a coesão familiar e comunitária, ou o apreço pelos mais velhos.

A sociedade justa e fraterna a que todos aspiramos não pode excluir ninguém. Fratelli tutti (Todos irmãos) – é o apelo do Papa Francisco na sua última encíclica, que tem sido elogiada por pessoas de muitas religiões e convicções políticas. É a esse apelo que deve responder a sociedade portuguesa em muitos aspetos e também no relacionamento com os portugueses ciganos.