Entrevistas |
D. Joaquim Mendes, presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família
“Famílias cristãs chamadas a ser o rosto de uma Igreja-mãe”
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O presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família acredita que, se os objetivos do Ano ‘Família Amoris Laetitia’ forem cumpridos, pode acontecer “uma verdadeira renovação pastoral na Igreja”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, D. Joaquim Mendes, que é também Bispo Auxiliar de Lisboa, convida a “uma pastoral familiar de proximidade, missionária”, e apela a “um maior cuidado pastoral e dedicação às famílias” por parte das paróquias.

 

O Papa Francisco convocou o Ano ‘Família Amoris Laetitia’, que teve início a 19 de março. O que o Santo Padre pretende com a instituição deste ano especial? O que este ano pode trazer à Igreja e às famílias?

Com o Ano ‘Família Amoris Laetitia’ o Papa pretende oferecer à Igreja uma oportunidade de revisitar a exortação apostólica Amoris Laetitia, de retomar a reflexão e o seu estudo, para descobrir o seu riquíssimo conteúdo, fruto de um longo caminho sinodal e traduzir na prática as suas propostas pastorais. A celebração dos cinco anos de publicação da Amoris Laetitia representam um estímulo para fazer amadurecer os frutos deste caminho sinodal e dar um renovado impulso à sua aplicação pastoral.

Os objetivos propostos para este Ano são cinco: 1) difundir o conteúdo da exortação para levar as pessoas a experimentarem “que o Evangelho da família é a alegria que enche o coração e a vida inteira” (AL 200); 2) anunciar que o sacramento do Matrimónio é uma dádiva e tem em si a capacidade de transformar o amor humano; 3) tornar as famílias protagonistas da pastoral familiar, passar do considerar as famílias como “objeto” da pastoral, para as  famílias como “sujeito” da pastoral; 4) consciencializar os jovens sobre a importância da formação à verdade do amor e ao dom de si; 5) alargar o olhar e a ação da pastoral familiar para que se torne transversal, de modo a incluir os cônjuges, os filhos, os jovens, os idosos e as situações de fragilidade familiar.

Se formos capazes de concretizar estes objetivos na pastoral ordinária, creio que acontecerá uma verdadeira renovação pastoral na Igreja, as nossas comunidades tornar-se-ão uma “família de famílias” e uma família para os que não têm família, com uma pastoral familiar de proximidade, missionária, que seja o rosto de uma Igreja-mãe e casa de todos e para todos, onde cada família pode encontrar o bálsamo do amor e da misericórdia de Deus, reviver a graça do sacramento do Matrimónio e ser sinal e portadora da esperança e do amor de Deus no mundo, através do seu “exemplo vivente”.

 

O Ano ‘Família Amoris Laetitia’ iniciou-se quando a Igreja já vive também o Ano de São José. Qual a relação entre São José, a família e a Amoris Laetitia?

Há uma relação significativa, espontânea e natural entre São José, a família e a Amoris Laetia. São José foi escolhido por Deus para esposo, pai e guardião da Sagrada Família. Uma figura inspiradora para os esposos que se devem sentir também amados e escolhidos por Deus, para “gerar na carne e no espírito” os filhos, também eles filhos de Deus. Por sua vez, a família, tal como São José, é chamada a guardar a vida, a cuidar da vida familiar mediante o trabalho, a atenção recíproca, o acompanhamento, as relações autênticas, o amor e a doação generosa.

A exortação apostólica Amoris Laetitia é como que uma bússola para esta cultura do cuidado da vida e da família, o seu subtítulo é ‘sobre o amor na família’, “uma proposta para as famílias cristãs, para as estimular a apreciar os dons do matrimónio e da família e a manter um amor forte e cheio de valores como a generosidade, o compromisso e a paciência, encorajando a todos a serem sinais de misericórdia e de proximidade para a vida familiar, onde esta não se realize perfeitamente ou não se desenrole em paz e alegria” (cf. AL 5).

 

Numa entrevista recente afirmou que “é preciso dinamizar a atenção à família nas comunidades cristãs”. De que forma isso pode ser feito?

Com esta afirmação queria simplesmente dizer que é necessário um maior cuidado pastoral e dedicação às famílias, em termos de acompanhamento de quem foi abandonado por um dos cônjuges, das famílias separadas, das famílias com dificuldades económicas, das famílias isoladas, das famílias desgastadas pelo cansaço e pelo sofrimento. E também na proximidade às famílias que ignoram a existência da comunidade cristã no território onde vivem e das famílias desiludidas ou zangadas com a Igreja e aquelas que até se incomodam de ouvir falar dela. Cada família cristã é chamada a ser para estas famílias o rosto de uma Igreja-mãe, de coração aberto e samaritano, testemunhando-lhe o amor de Deus com a proximidade, a escuta, o afeto, a ajuda e a solidariedade fraterna.

 

Considera que as famílias cristãs, enquanto Igrejas domésticas, ganharam um novo protagonismo com a pandemia?

A pandemia atingiu fortemente as famílias, contudo foi admirável como tantas famílias cristãs enfrentaram com fé e amor as dificuldades de cada dia, oferecendo apoio, ajuda material e proximidade moral a quem necessitava. A pandemia fez emergir esta capacidade da família de permanecer unida e solidária para satisfazer as necessidades dos seus membros e do próximo, e fez com que a família se descobrisse como Igreja doméstica e experimentasse “a presença do Senhor que habita na família real e concreta, com todos os seus sofrimentos, lutas, alegrias e propósitos diários” (AL 315).

 

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“Dar um renovado impulso à pastoral familiar”

A Comissão Episcopal do Laicado e Família tem prevista alguma iniciativa para marcar o Ano ‘Família Amoris Laetitia’? De que forma a Igreja portuguesa, nomeadamente as dioceses, paróquias e movimentos, podem assinalar este ano especial?

O Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida tem um conjunto de iniciativas e propostas eclesiais destinadas às Conferências Episcopais, Dioceses, Paróquias, Movimentos eclesiais e Associações familiares, mas sobretudo para as famílias de todo o mundo: um Fórum com os responsáveis da pastoral familiar das Conferências Episcopais, Movimentos eclesiais e Associações Internacionais de Família, que decorrerá de 9 a 12 de junho, sobre “a que ponto estamos com a Amoris Laetitia?”; um projeto de 10 vídeos em que o Santo Padre explicará os capítulos da exortação apostólica, junto com famílias que testemunharão alguns aspetos da sua vida diária, um para cada mês, para despertar o interesse pastoral pela família nas dioceses e paróquias de todo o mundo; a difusão de alguns vídeos com testemunhos sobre o protagonismo eclesial e a fé das pessoas com deficiência; 12 propostas pastorais concretas – “caminhando com as famílias” – inspiradas pela Amoris Laetitia e para a sua aplicação; catequeses de preparação para o X Encontro Mundial das Famílias, em Roma, em 2022; e a celebração de uma Jornada para os avós e os idosos, no dia 25 de julho.

Estas propostas foram elaboradas a partir das necessidades concretas que emergem da pastoral familiar de todo o mundo, com o olhar da Amoris Laetitia e com uma dimensão transversal às várias áreas da pastoral, que o Departamento Nacional da Pastoral Familiar, os Secretariados Diocesanos da Família, os Movimentos eclesiais e Associações familiares procurarão concretizar. Entretanto, neste caminho, estão previstos alguns momentos de reflexão e partilha, e algumas ações conjuntas, como a Semana da Vida, o Encontro Nacional de Pastoral Familiar e, porventura, algum Fórum.

Este ano é uma ocasião para dar um renovado impulso à pastoral familiar, procurando renovar modalidades, estratégias e objetivos da planificação pastoral, para uma pastoral que ponha em evidência a beleza do sacramento do Matrimónio e das famílias cristãs. Há muitas famílias que vivem a sua fé e a sua vocação ao matrimónio de uma forma exemplar, testemunhando que a fidelidade é possível e que a força do amor é capaz de superar as fraquezas e as dificuldades e ir em frente. Os jovens precisam do testemunho de famílias sólidas e felizes que os encoraje a realizar o seu sonho de constituir a sua própria família e não ter medo do sacramento do Matrimónio.

Este Ano ‘Família Amoris Laetitia’ constitui um grande desafio para as Dioceses, Paróquias, Movimentos e Associações de pastoral familiar: uma maior atenção às famílias, um renovado cuidado no seu acompanhamento e um maior envolvimento das famílias como “sujeitos” de pastoral, que exige uma mudança de mentalidade. É uma oportunidade concreta para aplicação pastoral da Amoris Laetitia. Ao longo dos cinco anos da sua publicação, surgiram muitos livros e fizeram-se muitas reflexões doutrinais sobre ela. Agora é tempo de agir, de a olhar como um todo, e valorizar todos os aspetos espirituais e pastorais que ela contém.

A dedicação de todo um ano à pastoral da família cristã é uma oportunidade de apresentar ao mundo o desígnio de Deus sobre a família, que é fonte de alegria e de esperança, tão necessárias.

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