Entrevistas |
Padre Ricardo Marques, missionário português e pároco em Pemba, Cabo Delgado
“Isto é uma tragédia humanitária”
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“Uma tragédia”. É desta forma que o padre Ricardo Marques, sacerdote português que é pároco em Pemba, qualifica o que está a acontecer na província de Cabo Delgado, em Moçambique. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, a partir deste país africano, via chamada através do WhatsApp, este missionário da Boa Nova diz mesmo que “falta tudo” a esta população e destaca o papel da Igreja no conflito: “ser voz das vítimas e acolher e socorrer as pessoas”.

 

O que está a acontecer em Cabo Delgado?

Desde 2017, tem havido ataques de jihadistas islâmicos. Para nos situarmos: Cabo Delgado é a província norte de Moçambique, que faz fronteira com a Tanzânia, e a sua área é igual ou superior a Portugal. Esta província, apesar de ser uma das mais pobres de Moçambique, é rica em muita coisa, como pedras preciosas. A norte, há também bolsas de gás – segundo dizem os entendidos, é das maiores bolsas de gás que existe em África. Portanto, estamos a falar de uma zona junto à fronteira com a Tanzânia. A par disto, tem também reservas de petróleo. É justamente nessa área, na área norte, que desde 2017 se têm verificado ataques com cariz de jihadismo islâmico. Estes ataques estendem-se desde Palma, na região norte, até a zona de Macomia, a 200 quilómetros de Pemba. E têm sido vários os ataques, dos quais o último, em Palma, foi agora mais falado nas televisões e foi muito devastador.

Desde outubro, em toda esta área, estes ataques têm causado muito transtorno na população, que já de si era pobre. Perante estes ataques, as populações têm que fugir – estamos a falar de mais de 700 mil deslocados em toda a província, estamos a falar de mais de seis mil mortos, pelos números que se vão sabendo, e muitas pessoas encontram-se desaparecidas ou em fuga…

 

Qual tem sido o papel da Igreja no conflito e de que forma tem estado ao lado da população?

A Igreja tem tido dois papéis que eu considero muito importantes: temos tentado ser uma voz profética, a voz das vítimas, porque percebemos muita dificuldade por parte das autoridades em lidar com esta situação. Estou convencido que este problema não é um problema só de Moçambique, é um problema internacional, que está ligado a outros países, e até se fala, inclusivamente, do Estado Islâmico. Este é um problema sério, as forças de segurança tentam reagir, mas não têm nem meios, nem formação para fazê-lo sozinhas, e o Governo tem sido extremamente passivo, no meu entender, face a esta situação. Portanto, a Igreja procura ser esta voz profética, porque o povo é que está a sofrer. Ficaram muito conhecidas as declarações do senhor bispo D. Luiz Fernando Lisboa [Bispo de Pemba até fevereiro passado], que muito mexeram com a comunidade internacional. Graças à voz da Igreja, este assunto é conhecido em todo mundo.

Por outro lado, tentamos acolher e socorrer as pessoas. Ainda agora estamos justamente a receber os deslocados de Palma, que estão aqui com a Cáritas e com outras organizações nacionais. Tentamos socorrer com aquilo que é possível. Primeiro, acolhendo, e depois também dando comida, acompanhamento psicossocial, tudo o que está ao nosso alcance. Tentamos colaborar com as autoridades, para que estas pessoas sejam socorridas e tenham, tanto quanto possível, as suas vidas refeitas. Neste momento, isto é uma tragédia humanitária. Uma tragédia…

 

O caminho de reconciliação vai ser longo…

Vai ser longo e difícil. Na história de Moçambique, houve o conflito entre duas partes perfeitamente identificadas, a Renamo [Resistência Nacional Moçambicana] e a Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique] e a Igreja desempenhou, aí, um papel muito forte na reconciliação entre as duas partes. O problema agora é que estamos a falar de uma parte que não se conhece, porque se trata de jihadismo islâmico. Aqui, em Pemba, e em Cabo Delgado, a religião maioritária é justamente o islamismo, e as relações do Islão, propriamente dito, com a Igreja Católica sempre foram pacíficas. Não tem havido nenhum problema, até agora... Atualmente, estamos a falar de um grupo organizado, possivelmente ligado ao Estado Islâmico, com cariz fundamentalista islâmico, que não admite diálogo com ninguém. A Igreja, obviamente, na sua quota parte, desempenha os esforços que são possíveis, no sentido desta reconciliação. Temos trabalhado pela paz com os representantes reconhecidos do dito conselho islâmico e de outras organizações religiosas. Nisso, temos tido ações em comum, mas o passo seguinte é mais difícil, porque é dialogar com alguém cujo rosto não é conhecido.

 

A Diocese de Pemba mudou muito recentemente de bispo, tendo saído D. Luiz Fernando Lisboa que, como já referiu, teve um papel muito importante na mediatização dos ataques.

Sim, o anterior bispo teve um papel preponderante. A palavra de D. Luiz foi a voz profética para a chamada de atenção para esta realidade. Cabo Delgado tem sido palco de constantes violações dos direitos humanos. Não é só de agora, é de há muito tempo. D. Luiz sempre foi este pastor próximo e sempre foi a voz profética no sentido de denunciar estas injustiças. É verdade que mudámos de pastor [o Papa Francisco nomeou D. António Juliasse Ferreira Sandramo, Bispo Auxiliar de Maputo, como administrador apostólico de Pemba], e temos um administrador apostólico, mas a linha da Igreja é sempre a mesma: temos de ser esta voz profética e estar ao lado dos que mais necessitam. Mesmo tendo mudado a liderança, o espírito da Igreja continua. É isso que estamos a seguir.

 

De que forma pode apresentar a sua paróquia e a colaboração que tem prestado aos deslocados?

A paróquia de Maria Auxiliadora situa-se na capital, Pemba, e é a maior paróquia desta cidade – não é a maior paróquia da diocese. Fazemos muito a ação social, porque entendemos que a evangelização parte da Palavra de Deus, da escuta da Palavra de Deus, mas tem que ir muito ao campo social. Aqui, o ambiente foi sempre muito complexo, tanto a nível social, político, económico. Basta dizer, por exemplo, que as pessoas aqui são muito pobres e vivem com menos de dois dólares por dia, o que dá para ter uma ideia da carência. Nós tentamos levar este testemunho de fé na ressurreição de Jesus, levar uma luz de esperança a estas pessoas, e isso traduz-se com a nossa presença, com o nosso testemunho, e, tanto quanto é possível, com estas ações ao nível caritativo, acolhendo as pessoas, escutando-as. Temos vários grupos de apoio psicossocial, que estão justamente a acompanhar estas famílias deslocadas. São traumas que estamos a ouvir. Tentamos ter uma ação tão abrangente quanto possível, de modo a levar algum conforto àqueles que mais precisam.

 

Como a sua comunidade viveu a Páscoa?

Nós estamos marcados pela guerra e estamos também marcados pelo coronavírus – embora aqui os números de covid não sejam tão fortes como na Europa. Mesmo com restrições, nós temos otimizado com as pessoas de forma a que elas possam rezar e manifestar a sua fé. Foi isso que fizemos e, na impossibilidade do culto público – o Governo exigiu que as igrejas fechassem os espaços de culto –, em todas as paróquias organizou-se oração em família. As pessoas reuniam-se em família e nós socorremo-nos dos meios de comunicação, como o WhatsApp e o Facebook, para que as pessoas pudessem ter Eucaristia. Nesta Páscoa, organizámos a Semana Santa com a diocese e conseguimos transmitir todas as celebrações e, de alguma forma, envolver as pessoas, dentro das limitações que temos.

Este tempo é um tempo difícil, como é para todo mundo por causa do coronavírus, mas estamos a fazer um grande esforço para nos readaptar, para nos recriar e, na verdade, nós não parámos a nossa pastoral, mantivemos a assistência aos doentes, continuamos a distribuir a comunhão aos doentes, continuamos a assistir os deslocados, embora respeitando aquilo que são as limitações impostas pela pandemia.

 

Na Mensagem Urbi et Orbi, no Domingo de Páscoa, o Papa Francisco disse ser “escandaloso que em plena pandemia não cessem as guerras”. Como viu estas palavras do Santo Padre?

É sempre escandaloso. Na verdade, nós temos sido testemunhas de que o Papa tem tido uma palavra muito forte nesse aspeto e também sobre Cabo Delgado.

 

Uma última pergunta, muito pessoal: já pensou desistir? Fazer as malas e regressar a Portugal?

Essa pergunta já me tem sido feita por outras pessoas... Eu entendo a dimensão do pastor junto do seu povo. O meu lugar, neste momento, é aqui. No futuro, se o superior dos Missionários da Boa Nova o entender, por obediência, posso eventualmente ser transferido. Mas por minha vontade…

Eu entendo muito a missão da Igreja junto do povo, principalmente num momento mais difícil. Eu estou confortável. É de risco? Sim, é de risco, mas é Deus para mim, é Deus para toda a gente. Entendo que a minha missão é aqui, o meu dever de pastor é aqui, olhando também muito o exemplo de Jesus. Jesus também no momento mais difícil, o momento que acabámos agora de celebrar, o seu Memorial, foi obediente até à morte, e morte de Cruz, foi flagelado, foi insultado, mas foi até ao fim. Deu-nos esse exemplo de vida, de doação de vida, e a missão do pastor é dar a vida pelas suas ovelhas. É isso que eu tenciono fazer. Essa é a minha missão.

 

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Perfil

Sacerdote dos Missionários da Boa Nova, o padre Ricardo Marques, de 43 anos, é pároco de Maria Auxiliadora, na Diocese de Pemba, capital da província de Cabo Delgado, em Moçambique, desde dezembro de 2015. “África era um sonho. Sempre tive um encanto por África, desde que comecei a fazer discernimento vocacional. Após uma experiência, em 2009, em Nampula, fiquei encantado e sempre com esse desejo de voltar a Moçambique. Deus deu-me a graça de concretizar essa paixão, com a vocação sacerdotal e a missão ‘ad gentes’”, refere o sacerdote português, que é natural de Santarém e foi ordenado em 2014.

 

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“As pessoas precisam de tudo”

Quais as principais carências da população e o que nós, portugueses, podemos fazer para ajudar?

Falta tudo… as pessoas precisam de tudo, mas roupa e comida são o mais urgente. As pessoas podem ajudar com donativos, que é imediato. A Diocese de Pemba lançou uma campanha, chamada ‘Juntos por Cabo Delgado’, com a publicação de uns vídeos que também tiveram eco em Portugal. Ou então, podem também contribuir através de nós, Missionários de Boa Nova, que também temos sede em Lisboa, porque há quem goste de ter uma congregação religiosa ligada a este assunto. Quem quiser, pode contribuir e nós agradecemos muito. Aquilo que for possível.

Informações: https://missionarios.boanova.pt/partir/mocambique/pemba 

 

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Cardeal-Patriarca apela à “solidariedade internacional”

O Cardeal-Patriarca de Lisboa manifestou “muita tristeza” pelo conflito e crise humanitária em Pemba, no norte de Moçambique, e deixou um apelo à “solidariedade internacional”, porque as autoridades locais “só por si não conseguem resolver”. “É um problema trágico, que dura há tanto tempo e não tem nenhuma razão de ser”, referiu D. Manuel Clemente, aos jornalistas, antes da celebração de Domingo de Páscoa, na Sé de Lisboa.

 

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“Cabo Delgado: Não nos Conformamos com a Violência!”

Mais de 30 organizações da sociedade civil portuguesa – incluindo a Conferência Episcopal Portuguesa – apelaram ao envio urgente de ajuda humanitária para Cabo Delgado, Moçambique. “A população de Cabo Delgado, em Moçambique, está a viver, desde há quatro anos, violentos ataques, que já fizeram mais de 700.000 deslocados internos, numa catástrofe humanitária sem precedentes na região. A situação é grave e urgente. Exige o envio de ajuda humanitária de imediato”, assinala um comunicado, divulgado dia 1 de abril.

Numa ação conjunta nas redes sociais, as organizações portuguesas “exigem o cessar da violência, o respeito pelos Direitos Humanos e o desenvolvimento sustentado”, e “reafirmam que não se conformam com a violência, com a injustiça e com o desrespeito pela dignidade humana”.

Informações: www.ecclesia.pt/cnjp

entrevista por Diogo Paiva Brandão; fotos do arquivo do padre Ricardo Marques
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