Lisboa |
Duas irmãs do Milharado nas Clarissas de Monte Real
Um ‘sim’ diário a Jesus
<<
1/
>>
Imagem

São duas jovens irmãs de 30 e 34 anos, naturais do Milharado, em Mafra, que fizeram os votos nas Clarissas. As irmãs Cristina e Marina quiseram “entregar a vida a Deus”, numa vida de oração em clausura, onde colocam diariamente “toda a humanidade”.

 

‘Pronto, agora não posso oferecer mais nenhuma. Tenho duas filhas e já cá estão as duas’. Foi com este sentimento que, em 2017, o pai da família Quirino deixava a segunda filha no mosteiro das Clarissas em Monte Real. “Foi muito engraçada a reação do nosso pai. Eu vim em outubro e nada acontece por acaso. Nossa Senhora é Mãe e estava aqui presente, a amparar e a ajudar-nos”, refere ao Jornal VOZ DA VERDADE a irmã Cristina, de 30 anos, que fez os votos simples temporários nas Irmãs da Ordem de Santa Clara de Assis (Clarissas) no passado dia 11 de abril. Para a sua irmã (de sangue e, agora também, de família religiosa) Marina, estas vocações são um presente de Maria para o pai. “O meu pai, apesar de não ser praticante, tem uma grande devoção a Nossa Senhora. Todos os anos tínhamos de ir a Fátima. Embora lhe custe muito – ainda por cima as duas filhas –, a nossa vocação religiosa é algo que ele não esperava e que só no Céu iremos compreender, mas é como que uma gratidão de Nossa Senhora pela devoção que ele tem”, considera ao Jornal VOZ DA VERDADE a filha mais velha, de 34 anos, que entrou nas Clarissas em 2005. Esta religiosa garante mesmo que “o pai nunca disse ‘Não vás’”. “Nunca tentou impedir, nem a mim, nem à irmã Cristina, e teve um ato heróico: ele fez questão de nos vir trazer, fez questão que toda a família nos viesse trazer. Apesar de lhe custar imenso, podemos comparar com a apresentação de Jesus no templo: ele veio trazer as filhas a Deus”, manifesta.

 

Tocada pela adoração

A irmã Marina Sofia foi a primeira a entrar na vida religiosa. Após o Crisma, em 2005, esta jovem, então com 18 anos, começa a interrogar-se. “Não pensava em nada em concreto”, diz. “Nem conhecia quase nada de vida religiosa”, acrescenta, sublinhando também que “nunca tinha tido nenhuma experiência em campos vocacionais”. Certo dia desse ano, Marina vai a Fátima, em família. As avós quiseram então ir à Capelinha do Santíssimo Sacramento, à adoração. “Foi aí que, ao ver uma religiosa em adoração, senti a despertar um ‘porque não?’”, conta. Após aquele momento de confronto, esta jovem “não disse nada a ninguém”. “Embora o meu pai se tenha apercebido de alguma coisa, não disse nada, nem imaginava o que seria”, refere. Na semana seguinte, Marina encontra o site das Clarissas. “Escrevi às irmãs, que me convidaram a vir cá passar uma semana”, relata. Marina estava a terminar o 11.º ano, na área de Informática. “Foi em junho, vim cá passar a semana e foi uma experiência daquelas que não temos palavras para descrever. Tocou-me muito a adoração eucarística e a alegria das irmãs. Foram estes dois pontos que me fizeram perceber: ‘É aqui que o Senhor me espera’. Não havia necessidade de procurar mais nada”, assume, recordando que entrou nas Clarissas de Monte Real “no dia 18 de julho de 2005”. Marina colaborava na catequese e no coro paroquial e, dos amigos do Milharado, teve “reações de surpresa”, mas, “ao mesmo tempo, acharam bem”. “Deram-me força”, garante.

A jovem foi então acompanhada pela mestra de noviças, no tempo de discernimento, terminou o 12.º numa escola da Marinha Grande, fez os votos simples temporários em 2009 e os votos solenes perpétuos cinco anos mais tarde, em 2014. “A minha vida é uma vida normal de uma Clarissa. O centro é a Eucaristia, a oração e a adoração, em que procuramos ter ali, diante de Deus, a humanidade inteira”, partilha.

 

Entregar a vida a Deus

Se Marina entrou na vida religiosa com 18 anos, quando ainda era estudante, a sua irmã, Cristina Isabel, entrou nas Clarissas quando estava já na vida profissional. Foi em 2017, aos 26 anos. “Costumava vir ao mosteiro visitar a minha irmã e passar férias, ou quando as coisas não me corriam muito bem… Uma vez, uma irmã que andava a servir lá fora, disse-me: ‘A Cristina fazia muito bem era fazer como a irmã Marina e dar o salto cá para dentro’. Eu respondi: ‘Nunca na minha vida’, porque a ideia de estar na clausura não me fascinava”, assume. Há cerca de quatro anos, surge então “um convite formal das irmãs”. “Foi um desafio sério, para me deixar experimentar. Pensei: ‘Tens coragem, vem experimentar. Perder, não perco nada… vou e arrumo este assunto de uma vez por todas, digo que não é este o meu caminho e as irmãs ficam mais descansadas e escusam de me andar sempre a inquietar’”, partilha. Cristina trabalhava numa fábrica de iogurtes, na zona do Milharado, morava com os pais e os dois irmãos rapazes, tinha o seu carro e a sua independência. Meteu férias do trabalho e foi, sem dizer nada à família sobre o real propósito. “As intenções guardei-as cá dentro, no silêncio, como Maria, que guarda tudo no coração”, refere. Estávamos no mês de maio, nos dias em que o Papa Francisco esteve em Portugal, para o centenário das aparições. “A semana de experiência, dentro da clausura, mudou tudo aquilo que eu pensava, toda a perspetiva que nós temos lá de fora. Apesar de eu ter cá a irmã Marina, e de ela me contar, não há nada como fazer a experiência. Como São Tomé, ver para crer. Eu tive que vir ver, tocar com as minhas próprias mãos, e ver com os meus próprios olhos para acreditar”, observa.

Estes três anos e meio nas Clarissas de Monte Real, segundo garante a irmã Cristina, foram “muito enriquecedores”. “Temos acompanhamento, que nos ajuda espiritualmente. Foi conhecer Jesus, por quem nos apaixonamos, no nosso dia a dia. O nosso ‘sim’ é um ‘sim’ diário. Todos os dias, lidar com as nossas fragilidades, com as nossas fraquezas, aprender a amar Jesus no irmão”, frisa a religiosa, garantindo que o carisma das Irmãs Clarissas é “viver em fraternidade”.

Sobre a celebração de votos simples temporários, no passado dia 11 de abril, a irmã Cristina diz ter dado o seu ‘sim’ “com firmeza e com vontade”. “É isto que quero para a minha vida. Não porque estou aborrecida com alguma coisa do mundo, mas porque quero entregar a minha vida a Deus. Pelo mundo, pelos jovens, pelas orações, pelas vocações, pela conversão dos pecadores, pelas almas”, deseja a jovem consagrada.

 

Mães umas das outras

A mais nova das duas religiosas, com 30 anos, refere ser “positivo” ter uma irmã no mesmo mosteiro, mas destaca que não entrou na vida religiosa “por causa dela”. “Quem me tocou foi Jesus. Nós não estamos aqui por nenhuma das irmãs”, garante a irmã Cristina. Já a irmã Marina, quase cinco anos mais velha, refere que é “um fortalecimento” ter a sua irmã consigo. “O ‘sim’ dela ajuda-me a recordar o meu ‘sim’, mas nós procuramos que a nossa relação seja igual com todas as outras irmãs. Como a nossa fundadora, Santa Clara, escreve na Regra, nós devemos ser mães umas das outras. Procuro ter por todas o amor que tenho por ela”, assegura.

Além das irmãs Marina e Cristina, a família Quirino, do Milharado, tem mais dois irmãos, ambos mais novos do que as religiosas. “Quando eu já estava aqui, nasceu o mais novo de todos, que tem agora 13 anos, o Francisco Xavier, e há ainda o Mário Jorge, que vai fazer 28 anos”, diz a irmã Marina. “A nossa vocação é um processo de crescimento para eles e, se calhar, para se interrogarem sobre a posição de Deus nas suas vidas”, referem. Sobre a relação com a família, estas religiosas sublinham que “os pais e os irmãos vêm ao mosteiro sempre que querem”. “Agora, com a pandemia, as visitas foram mais limitadas, mas num aniversário, se eles quiserem, podem vir celebrar connosco”, frisam.

 

Em contramão e oração

Para a irmã Cristina, a vertente do carisma que mais a entusiasma e desafia é “a vivência da pobreza”. “Enquanto o mundo procura riquezas, nós buscamos a pobreza que não é a simples recusa das coisas materiais, mas é a identificação com Cristo e sua Mãe, e é também a comunhão com os pobres, nossos irmãos, que não têm o indispensável para viver com dignidade”, responde esta jovem, deixando ainda uma imagem: “Hoje, a vida consagrada é um sinal de contradição para o mundo, é seguir em contramão. Enquanto o mundo busca o ruído, nós procuramos o silêncio; enquanto o mundo procura progredir economicamente, nós buscamos a pobreza; enquanto o egoísmo e a autossuficiência imperam no mundo, nós procuramos a partilha fraterna e a obediência por amor. Se o mundo busca a alegria e o prazer, nós vivemos a alegria do amor de Deus”.

Já a irmã Marina, quando questionada sobre os desafios da vida de clausura, faz silêncio e baixa a cabeça. Depois, de sorriso no rosto, responde: “Toda a vida é um desafio, na medida em que nós procuramos ser fiéis àquilo a que nos comprometemos. Sabemos que o Senhor chamou-nos naquele momento, mas constantemente nos chama à fidelidade. Todas somos diferentes – mesmo sendo irmãs de sangue –, pelo que a vida comunitária é um grande desafio. Depois, temos o grande desafio da fidelidade à oração. Das coisas que mais me toca é de facto a adoração, aquele momento a sós com o Senhor, em que podemos tomar, nas nossas mãos, toda a humanidade e colocar diante d’Ele. Podemos ter a tentação de pensar que estamos aqui fechadas, e a nossa vida pode parecer inútil, mas através da nossa oração conseguimos chegar onde outras não conseguem. Toda a humanidade está à espera da nossa oração”.

 

___________________


Mensagem especial aos jovens

Em plena Semana de Oração pelas Vocações (18 a 25 de abril), as irmãs Marina e Cristina foram desafiadas, pelo Jornal VOZ DA VERDADE, a deixarem uma mensagem aos jovens.

Irmã Marina: “Que não tenham medo de deixar que o Senhor os toque. Todos nós passamos por isso: por vezes, temos medo daquilo que Ele nos possa pedir, mas Ele dá-nos sempre muito mais e nunca nos pede nada que não tenhamos capacidade para dar. Quanto mais nós damos a Deus, é aí que encontramos a nossa felicidade. Este mundo pode-nos oferecer tudo, mas não nos dá nada. Os jovens, hoje, serão felizes na medida em que se abrirem à graça de Deus e deixarem que Ele os toque.”

Irmã Cristina: “É muito importante ajudar os jovens a descobrirem o dom da Eucaristia, a conhecerem Jesus. Não podemos amar aquilo que não conhecemos. Também sou jovem, ainda há pouco tempo estive lá fora, e sei que há muita coisa que nos passa ao lado. É importante aprender a viver a Eucaristia, porque Jesus, que nos ama verdadeiramente, está realmente ali presente de braços abertos, para nos acolher, e tem um projeto lindíssimo para cada jovem. Não tenham medo de escancarar as portas a Cristo.”

 

___________________


O dia a dia no Mosteiro de Santa Clara e do Santíssimo Sacramento

Inaugurado em 1972, o Mosteiro de Santa Clara e do Santíssimo Sacramento (www.clarissasmontereal.pt), em Monte Real, na Diocese de Leiria-Fátima, tem atualmente 34 irmãs, incluindo 14 jovens timorenses (três noviças e onze postulantes), que estão a fazer formação para voltarem à Fundação que as Clarissas têm em Timor, desde 2012. As restantes 20 religiosas são portuguesas. “A mais velha tem 97 anos e, das professas solenes, a mais nova sou eu”, revela a irmã Marina, que completa 35 anos em agosto próximo.

Como é a vida diária neste mosteiro de clausura? As irmãs Marina e Cristina revelam: “Levantamo-nos às 6h30, para meia hora de arranjo pessoal. Às 7h00, no coro alto da igreja, rezamos laudes e hora intermédia, depois temos um tempo de oração pessoal. Às 8h00 temos o pequeno-almoço, a que se seguem os trabalhos – por norma, as irmãs já sabem o trabalho que têm destinado. Ao meio-dia temos a segunda hora intermédia e, após o almoço, rezamos duas partes do Rosário, em comunidade – quando o tempo está bom, vamos passeando pela nossa cerca. Das 14h00 às 15h00 é o tempo que nós chamamos de ‘silêncio maior’, em que as irmãs recolhem às celas para oração pessoal, leitura ou descanso. Rezamos depois a terceira hora intermédia e seguem-se os trabalhos ou estudo de música ou de documentos da Igreja. Às 17h20 temos a terceira parte do Rosário, com o povo, na igreja, e às 18h00 temos Missa, com vésperas incluídas, e um tempo de ação de graças, ofício de leitura ou ensaio da liturgia. O jantar é às 20h00 e depois temos um tempo de recreio – é aquele momento em que estamos distraídas, que conversamos umas com as outras, damos notícias, porque durante as refeições uma irmã faz leitura espiritual ou de jornais e documentos da Igreja. Depois do recreio, pelas 21h40, temos a última oração, as completas, em conjunto, e o recolher às celas, pelas 22h00”.

 

___________________


A irmã Maria Clara (ao centro), Madre Abadessa do Mosteiro de Santa Clara e do Santíssimo Sacramento, em Monte Real, acompanhada das irmãs Cristina e Marina, no locutório – a ‘sala de visitas’ do mosteiro, dividida a meio por um pequeno muro.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
A OPINIÃO DE
Pe. Alexandre Palma
Vivendo numa época pródiga em tantos progressos tecnológicos, talvez nos surpreenda verificar que a...
ver [+]

Pedro Vaz Patto
Grande clamor e indignação suscitou a proposta (entretanto retirada) da Comissão Europeia de aconselhar/proibir...
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
Galeria de Vídeos
Voz da Verdade
EDIÇÕES ANTERIORES