Lisboa |
50 anos da nomeação de D. António Ribeiro como Patriarca de Lisboa
Um pastor que desenvolveu “um convicto apostolado conciliar”
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O Cardeal D. António Ribeiro cumpriu 27 anos, entre 1971 e 1998, como Patriarca de Lisboa e ainda hoje os frutos do seu pontificado são visíveis e testemunhados não só por quem conviveu com o prelado português, mas também por quem – 18 anos após a sua morte – apresentou, numa tese de mestrado, o seu “cuidado para com o clero” e uma linha pastoral que “incluía todos”.

Para o padre Joaquim Loureiro, ordenado sacerdote em 2016, o livro ‘O Padre na Igreja’, da autoria de D. António Ribeiro, lido durante os tempos de seminário, deu-lhe a motivação para aprofundar o cuidado pastoral do antigo Patriarca de Lisboa. “Apesar de não o ter conhecido pessoalmente, fui percebendo o modo como ele tentou formar e estar próximo dos seus colaboradores, do seu presbitério. Fui-me deixando envolver pelas homilias, sobretudo as homilias de Quinta-Feira Santa”, começa por explicar, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o vigário paroquial da paróquia da Graça.

Os tempos em que D. António Ribeiro foi chamado a ser o pastor da Igreja de Lisboa foram conturbados, não só devido à crise de vocações, mas também por ser o tempo de receção do Concílio Vaticano II, com todas as resistências criadas, em Portugal e na Europa. “Ao investigar, fui percebendo que havia uma diocese um pouco ‘partida’ e o que me despertou muito foi ele ter percebido quem tinha que agarrar. Tinha que ter os padres ao seu lado”, afirma o autor da tese ‘«Convosco sou Padre» - O ministério presbiteral no pensamento e ação pastoral de D. António Ribeiro’. “Lembro-me de falar com padres que diziam sentir esse carinho e afetividade da parte do seu Bispo. Para D. António Ribeiro, falar com um padre era sempre uma prioridade”, garante.

 

“Sinais dos tempos”

Natural da aldeia de Pereira, em São Clemente de Basto, no município de Celorico de Basto, D. António Ribeiro foi ordenado sacerdote na Arquidiocese de Braga, em 1953, e foi, depois, enviado para Roma onde se doutorou na Pontifícia Universidade Gregoriana. Já em Portugal, foi assistente da Ação Católica e, em 1967, aos 39 anos, foi nomeado Bispo Auxiliar de Braga, numa missão vaticinada, na ordenação episcopal, pelo Cardeal Cerejeira, como sendo “uma passagem breve”. A 10 de maio de 1971, D. António Ribeiro seria nomeado Patriarca de Lisboa. “A partir do momento em que vestiu a pele de Patriarca de Lisboa, deixou de ser o António Ribeiro”, aponta o padre Joaquim Loureiro, a partir dos testemunhos que ouviu. O período que se seguiu apresentou um “homem que viveu como falava, através de uma vida simples que teve”, que soube ler “os sinais dos tempos” e que, por isso, se fez próximo. Também “a rutura entre a Igreja e o Estado” é uma marca deste Patriarca, destaca o sacerdote, comprovando através do ‘arrojo’ que era, para época, um prelado ter uma intervenção regular na televisão, “sem nada escrito e onde respondia ao que perguntavam”.

 

“Uma Igreja unida”

Ao longo do tempo como Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro imprime na diocese um plano pastoral que é fruto de “uma visão muito alargada”, de quem “sabe ao que vem, e com a capacidade de concretizar”, descreve o sacerdote, de 35 anos. Ao criar estruturas diocesanas – que ainda hoje existem – o Cardeal-Patriarca “não desresponsabiliza os próprios sacerdotes”. Por exemplo, perante o decréscimo de vocações e a criação de uma Pastoral Vocacional e do Pré-Seminário, D. António Ribeiro continuava a sublinhar que era “responsabilidade do padre continuar a rezar pelas vocações”. Também como resposta ao Concílio Vaticano II e com o envolvimento de toda a diocese, foram criadas estruturas como a Casa Sacerdotal – um local onde os padres mais idosos e/ou doentes podem permanecer –, e o Estatuto Económico do Clero – “onde fica estabelecido que todos os sacerdotes ganham o mesmo valor, independentemente dos ofícios”, contribuindo assim para uma maior solidariedade entre comunidades, refere o padre Joaquim, que é também adjunto do Ecónomo Diocesano.

O Conselho Pastoral Diocesano foi igualmente uma estrutura criada por D. António Ribeiro e que, ligada ao Dia da Igreja Diocesana, veio dinamizar a participação dos leigos na vida da diocese. “São estruturas essenciais que surgem do entendimento de que era necessário ter uma Igreja unida”, aponta o sacerdote, que também refere a grande admiração e satisfação com que os leigos recebiam o seu pastor nas paróquias que visitava. “Sempre que ele ia às paróquias, era uma grande festa, as pessoas diziam-me que ele marcava na ida às comunidades”, reforça.

 

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A história da Capela do Rato

Para assinalar os 50 anos da nomeação de D. António Ribeiro como Patriarca de Lisboa, o Jornal VOZ DA VERDADE recupera uma parte da entrevista feita em maio de 2015, por ocasião dos 50 anos de sacerdócio do cónego António Janela, onde é descrito o papel do Cardeal Ribeiro na libertação deste e de outro sacerdote que tinham sido detidos pela Direção-Geral de Segurança (antiga PIDE) para interrogatório, na passagem do ano de 1972 para 1973.

“No período anterior ao 25 de abril de 1974, o padre Alberto Neto era o capelão da Capela do Rato, por ser o assistente diocesano da JEC (Juventude Escolar Católica). Quando ele estava doente, houve uma ocupação da capela por um grupo de cinco cristãos. Perante essa situação, que criou um grande melindre político, o então Patriarca D. António Ribeiro chamou-me e disse para tomar conta daquela capela. Arriscou ali o seu cardinalato! Foi um ato corajoso”, refere o cónego António Janela, lembrado do episódio que aconteceu na passagem do ano de 1972 para 1973. “No final da celebração de sábado, o grupo leu um comunicado, onde afirmava que iria fazer uma vigília pela paz, sem hora para terminar. No dia seguinte, celebrei a Missa dominical, às 11h00, ainda com a capela ocupada, mas sem qualquer perturbação. Nessa celebração li a homilia, que foi preparada pelo padre Alberto Neto, pelo padre Armindo Garcia e por mim. De Domingo para segunda-feira comemorava-se a passagem do ano. Horas antes, fui ao Governo Civil onde me deram ordem para não celebrar nesse dia e eu contestei, argumentando que tinha ordens do meu Bispo para celebrar. Por isso, após a celebração de dia 31 de dezembro para 1 de janeiro de 1973, a polícia selou a capela”, conta. “No dia 1, fui ler a minha homilia ao Patriarca Ribeiro que concordou inteiramente. Quando cheguei à capela, pouco antes de começar a celebração, estava um polícia à porta, e eu disse-lhe: ‘Senhor guarda, o seu chefe e o meu chefe estão, neste momento, a falar um com o outro, em Belém. Ora, o senhor recebeu indicações para não deixar ninguém entrar, mas o meu Patriarca disse-me para entrar. Por isso, eu entro e, depois, o senhor faça o que entender’”, lembra, hoje, sorridente, o cónego Janela, relatando as consequências do seu ato: “Quebrei os selos e entrei. Já depois da celebração ter terminado, ouço uma voz do famoso capitão Maltez – que era o repressor dos movimentos estudantis – a perguntar-me se o podia acompanhar. Na companhia do padre Armindo, fomos, durante 300 metros, até à esquadra da polícia, no Rato. Cá fora, havia um grande e desproporcional aparato. Depois do primeiro interrogatório, fui levado para a DGS (Direcção-Geral de Segurança). Ali fui interrogado, com aquelas técnicas, como vem nos livros, com muitas luzes, de um lado o polícia bom e, do outro, o polícia mau”, lembra. “Pelas 4h00 da manhã, a porta da sala onde estava a ser interrogado abriu-se ligeiramente e eu vejo passar o secretário do senhor Patriarca, o padre Pires. Soube, mais tarde, que o senhor Patriarca estava no piso inferior a dizer-lhes: ‘Ou ele sai imediatamente ou eu vou daqui à morada do Primeiro-Ministro, Marcelo Caetano’. Nos dias seguintes tive vários interrogatórios, mas eles não podiam avançar porque sabiam, por escutas telefónicas, que foi por ordem do Patriarca que eu quebrei os selos da Capela do Rato para celebrar”, recorda o cónego Janela.

texto por Filipe Teixeira
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