Doutrina social |
Migrantes em Ceuta
A vergonha da nossa humanidade
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A narrativa bíblica da Torre de Babel dá-nos a entender que o projeto de construir uma torre “cujo cimo atinja os céus” estava inquinado pela sede de domínio e de poder, o que só poderia conduzir à confusão e ao conflito. A narrativa do Pentecostes dá-nos a perceção de que, pelo contrário, com a luz e força do Espírito, a confusão é superada pelo acolhimento, pelo entendimento mútuo e pela paz.

 

A nossa Babel

Estamos a acompanhar os acontecimentos de Ceuta, com milhares de marroquinos e outros africanos tentando atingir o território europeu, numa aventura cujo desfecho somará sofrimento e problemas exigindo soluções. Revê-se o filme de há um mês, quando cerca de 130 refugiados, ao largo da costa da Líbia, perderam a vida afogados no Mediterrâneo que se vai transformando num provocante cemitério. Repetem-se as tragédias que nas últimas décadas enchem de vergonha a humanidade.

Também nestes dias tivemos mais uma onda de destruição, violência e morte na terra que apelidamos de “santa”; apenas mais um episódio de um problema mal equacionado e não resolvido há setenta anos.

O drama das populações de Cabo Delgado, vítimas inocentes de um terrorismo tolerado e apoiado por interesses sinistros de ganância e corrução ainda está fresco na nossa memória.

E, bem perto de nós, familiarizamo-nos com o caso de Odemira, que afinal veio levantar o véu que escondia situações de exploração do trabalho e da dignidade dos imigrantes.

 

Uma Igreja em atitude de Pentecostes

No dia de Pentecostes os discípulos entenderam que só com a luz do Consolador prometido poderiam dar continuidade à missão do Mestre. Para isso tinham que deixar de viver à volta deles mesmos; tinham que abrir as portas e ir para o meio das pessoas, convidando estas a unirem-se à volta do Senhor. E o “milagre” aconteceu: vindos das mais diversas paragens, falando línguas diferentes, os peregrinos entenderam a mensagem e começaram a seguir o novo caminho. Era a profecia de Joel a concretizar-se, com velhos sonhando ainda com algo de novo e jovens vendo para além do que consideravam já como adquirido. É verdade que os apóstolos têm garantida a presença do Senhor. Mas o caminho será longo e penoso, como o trigo que é lançado à terra ou como um pouco de fermento que se coloca no meio da massa e a vai transformando.

 

Um caminhar com os outros

A fogueira dos refugiados em Ceuta arde bem perto de nós. Estamos em comunhão de sentimentos com tantos crentes que nos despertam para a pergunta constante desde as origens: “Onde está o teu irmão”? Comecemos pelo Papa Francisco que desde o início do seu ministério chamou a atenção para este drama. Por isso, a primeira saída para fora de Roma foi para visitar Lampedusa. E o motivo foi claro: “Senti o dever de vir aqui hoje para rezar e cumprir um voto de solidariedade, mas também para despertar as nossas consciências a fim de que não se repita o que aconteceu”. E, quando mais recentemente aconteceu o naufrágio dos 130 refugiados, ele clamou: “Irmãos e irmãs: interroguemo-nos sobre esta enésima tragédia. É o momento da vergonha”. E continuou: “São pessoas, são vidas humanas, que durante dois dias inteiros imploraram por ajuda, em vão. Uma ajuda que não chegou”.

O drama de Ceuta não é de hoje. Recordo particularmente a mobilização de organizações cristãs europeias sobre a crise migratória e humanitária em Outubro de 2005, condenando a desumanidade da situação e a falta de políticas adequadas para a superar. As palavras “mar de morte!” e “deserto de suplício” configuravam o título do comunicado. Mas o problema já vinha de trás. Tenho presente a reportagem da revista do Público em 09.11.2003 ou ainda uma outra publicada na revista Visão em 13.10.2005. Ambas me impressionaram e sensibilizaram para o que se passava aqui tão perto.

Tive a sorte de conhecer o Bispo de Tânger Santiago Agrelo, de o ouvir e ainda de fazer uma viagem de 800 quilómetros com ele, descobrindo a sua determinação profética de se pôr do “lado” dos imigrantes. Confessava que há duas coisas diferentes: ouvir o Evangelho desde uma patera (pequeno barco) ou ouvi-lo desde a Catedral. Regressado à sua Galiza natal, após a renúncia por idade, perguntaram-lhe se o seu viver com os refugiados lhe tinha deixado marcas. Respondeu: profundas não, indeléveis sim. As suas palavras e o seu exemplo guardam a frescura do Pentecostes.

texto pelo P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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