Domingo |
À procura da Palavra
Jesus dormia
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DOMINGO XII COMUM Ano B

“Jesus, à popa, dormia com a cabeça

numa almofada.”

Mc 4, 38

 

São poucas as referências evangélicas ao sono de Jesus. Não conhecemos o dito popular que “Deus não dorme?” Claro que o seu sentido tem mais a ver com a justiça que pode demorar, mas há-de acontecer. O contraste de Jesus a dormir, serenamente na barca, com a violência da tempestade e a aflição dos discípulos não podia ser maior. Como se não contassem a agitação e o medo mas, simplesmente, aquele sono tranquilo. À popa, no lugar de comando do barco, não estará Ele a convidar-nos a não nos deixarmos dominar pelo medo? O seu sono não será antecipação da morte de onde acordará e nos acordou para a vida renovada e eterna?

 

Fazem parte da vida as dificuldades e as tempestades, os imprevistos e a necessária aceitação do que é imperfeito e frágil. “Passar à outra margem do lago” é sempre uma empresa ousada. É o mandato de Jesus a “ir por o mundo anunciar a Boa Nova”, a rever as instalações que nos prendem e atrofiam, a confiar no amor que se dá sem que haja retorno imediato. E é aí que sentimos como Deus parece dormir, e a barca da vida, dos que amamos, do que sonhamos e projectámos lembra a barca dos discípulos. Aquela distância em que Deus parece deixar tudo nas nossas mãos e elas são tão pequenas e fracas, dói e faz-nos gritar. Precisamos acreditar que Ele tem a última palavra e domina o mar e a morte.


Um ano após vermos o Papa Francisco a atravessar a escura e deserta Praça de S. Pedro, quando o acompanhámos numa imensa oração pela pandemia, ele ofereceu-nos um livro de orações com a frase de Jesus aos discípulos: “Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” E depois de ver o intenso filme “The Father”, admiravelmente escrito e realizado por Florian Zeller e interpretado por Anthony Hopkins, sobre a progressão da demência na vida de um homem e na tempestade que isso provoca à volta, também a pergunta ecoou em mim. Os discípulos, admirados pelo poder de Jesus, perguntam: “Quem é este homem?”; o “pai” do filme, pergunta, “quem sou eu?”. Com a dor e a beleza, o cuidado e a companhia, fui pensando em Jesus a dormir na barca de tantos que sofrem e tantos que cuidam realidades semelhantes. E dei com este texto de autor desconhecido: “Não me peças que me lembre / Não tentes fazer-me compreender / Deixa-me descansar / Faz-me compreender que estás comigo / Abraça-me e pega-me na mão / Estou triste, doente e perdido / Tudo o que sei / é que preciso de ti / Não percas a paciência comigo / Não jures, não grites, não chores / Não posso fazer nada com o que me acontece / Ainda que tente ser diferente / Não consigo / Lembra—te que preciso de ti / Que o melhor de mim já passou / Não me abandones, fica ao meu lado / Ama-me, até ao fim da minha vida”. Mesmo a dormir na barca, Jesus ensina-nos contar com Ele e com os outros para encontrar a paz em plena tempestade.

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