Entrevistas |
Padres Carlos Pinto e Ricardo Jacinto, coordenadores do livro ‘Nascemos da Páscoa’
“Voltar ao mistério pascal”
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É uma obra que reúne “o pensamento e a intuição” do cónego Luís Manuel, antigo pároco da Sé de Lisboa, falecido há um ano. ‘Nascemos da Páscoa - O memorial do mistério pascal’ teve a coordenação dos padres Carlos Pinto e Ricardo Jacinto que, em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, falam da oportunidade de “voltar àquilo que era a forma de comunicar os mistérios da liturgia e, em particular, este mistério pascal”, e destacam a importância deste sacerdote na vida da Igreja, “na esteira de grandes liturgistas”.

 

‘Nascemos da Páscoa - O memorial do mistério pascal’: que livro é este?

Padre Carlos Pinto: Foi quase imediato o título que surgiu para a obra, porque de facto acaba por ser o refrão de muito daquilo que vamos encontrar, por um lado, nas conferências ou nos textos que agora se apresentam, mas também aquilo que era muito o motor da maneira como o padre Luís dirigia e falava acerca destas coisas. Portanto, o objetivo principal foi não só recordar a pessoa dele, nesta ocasião do primeiro aniversário do falecimento [12 de junho], mas sobretudo fixarmos – porque não há nada escrito, ou há muito pouco – aquilo que fomos ouvindo ao longo do tempo, seja nas aulas, seja nas conferências. O desejo era podermos guardar, meditar e podermos voltar àquilo que era a forma de comunicar os mistérios da liturgia e, em particular, este mistério pascal, centro de tudo aquilo que ele ia falando e partilhando.

Padre Ricardo Jacinto: O empenho do cónego Luís Manuel nos vários afazeres que teve – a nível de professor de Filosofia, de professor de Liturgia na Faculdade de Teologia, de diretor do Departamento de Liturgia do Patriarcado de Lisboa, de mestre de cerimónias patriarcais, de pároco da Sé e de muitas outras coisas em que era solicitado – foi tão grande que nós tínhamos necessidade de parar e tentar pôr alguma coisa por escrito. Habitualmente, nas conferências e nas formações que dava, ele levava muito pouca coisa escrita. Levava esquemas, levava textos de apoio, mas texto escrito, conferência escrita, era muito raro. Portanto, foi este trabalho de tentarmos pôr alguma coisa por escrito, que fixasse as intervenções dele.

 

O que esta obra traz de novo?

Padre Ricardo: O que a Igreja tem de maior novidade – e isso para o cónego Luís Manuel era claro – é a certeza de que, mais do que tudo e acima de tudo, ela vive da Páscoa de Jesus. Portanto, o facto de entender-se a si próprio, entender a vivência dos mistérios, entender a vida da Igreja e até os outros, no modo como nos relacionamos com Ele, a partir da Páscoa, a partir da morte e da ressurreição de Cristo, dá uma crueza, mas ao mesmo tempo uma autenticidade, que era próprio do cónego Luís Manuel. É importante e necessário voltar à fonte, e esse era o objetivo contínuo do cónego Luís Manuel, em tudo o que dizia, em tudo o que fazia, em tudo o que celebrava. E a fonte, para nós, é clara: é a Páscoa de Cristo.

Padre Carlos: Ele tinha aquela expressão: ‘Nascemos na Páscoa, vivemos de Páscoa em Páscoa, até à Páscoa eterna’ – daí, também, o título do livro. Ouvir isto dele, da maneira como o dizia, como expressava esta realidade: paixão, morte e ressurreição, reduzindo o mistério a estes três momentos, mas ouvi-lo constantemente, com a maneira, a alegria e o entusiasmo, aquilo passa a ser novidade, no sentido de tornar-se uma redescoberta daquilo que é o princípio, a fonte, o cume de toda a nossa vida. Talvez os textos relidos neste contexto sejam uma novidade. Cristo é sempre o mesmo, mas a maneira como nos aproximamos d’Ele será uma novidade.

Padre Ricardo: O cónego Luís Manuel tinha esta sabedoria, e certeza, de que de tudo o que a Igreja faz, de tudo o que a Igreja ensina, a fonte de onde parte, e onde quer sempre chegar, é a Páscoa de Cristo. Pela extensão da sua palavra, pela insistência da sua palavra, torna-se novidade, de facto.

 

Como surgiu a oportunidade de publicar este livro?

Padre Carlos: Aquando da morte do cónego Luís Manuel, senti como apelo e desejo que pudéssemos passar a escrito alguma realidade do seu pensamento. Partilhei isto com o padre Ricardo e, a partir daí, foi tentar perceber, daquilo que foi a sua ação, onde poderíamos encontrar um corpus que fosse viável e em tempo útil, porque a ideia era podermos marcar o aniversário da morte com aquilo que de melhor podemos preservar, que é o seu pensamento e a sua intuição. As conferências proferidas nos encontros nacionais de Pastoral Litúrgica, em Fátima, entre 1997 e 2018, eram um corpus fácil de fixar, porque haviam os áudios todos do Secretariado Nacional de Liturgia, a quem depois partilhámos esta intenção e que, automaticamente, abraçou como seu este projeto.

Padre Ricardo: A estas conferências juntou-se mais um ou outro documento que ele escreveu por causa de São Vicente, um sobre a água batismal na liturgia, uma comunicação ao Conselho Presbiteral, por causa do modo de celebrar, e também a homilia do senhor Patriarca nas exéquias do cónego Luís Manuel, que achámos conveniente e que se enquadrava dentro deste quadro.

 

O cónego Luís Manuel falava dos mistérios de Cristo numa linguagem muito simples e muito vivida…

Padre Ricardo: As pessoas que têm muito conhecimento têm necessidade de fazer orações de sapiência. Os sábios falam de coisas importantes em linguagens simples, que as crianças entendam. Esta era, entre outras, uma característica do cónego Luís Manuel, que às vezes levava quase ao espanto. Ou seja, como é que conseguia falar de coisas tão densas, tão sérias e tão fundas de uma maneira tão acessível. Ele, de facto, era um comunicador espantoso. Ouvir os seus áudios e preparar os textos para a publicação foi de novo aproximarmo-nos de uma maneira de expressão, com exemplos comuns, às vezes até jocosos ou de brincadeira, mas tinha sempre a possibilidade, entre uma gargalhada e quase o choro, de nos levar ao centro da coisa. E isso não é capacidade de todos.

Padre Carlos: Nessa maneira de ser, entre o jocoso por vezes e o extremamente denso, era a experiência de ser, efetivamente, um mistagogo. Ele conduzia-nos, literalmente, ao mistério, por essa forma de falar, por essa forma de estar, às vezes a expressão do olhar – ele era muito expressivo em tudo, seja no tom de voz, seja no gesto. E tudo isso contribuiu, de facto, para chegar a este mistério da Páscoa.

 

Já é possível ter noção da importância deste sacerdote na vida da Igreja?

Padre Ricardo: Penso que ainda é cedo para isso. Nessa vertente, a primeira expressão foi na tarde do dia 14 de junho de 2020, quando o senhor Patriarca [D. Manuel Clemente] presidiu às exéquias do senhor cónego Luís Manuel, na Sé de Lisboa, e o colocou como figura eminente da renovação, ou da adaptação contínua, do movimento litúrgico em Portugal, na esteira de grandes liturgistas como monsenhor Pereira dos Reis, cónego José Ferreira ou padre Manuel Luís. O senhor Patriarca apresenta-o como uma figura de relevo, não por grandes inovações, ou por grandes rasgos de novidade propriamente, mas pela insistência e vontade contínua de tornar, a todos, acessível a presença e a celebração dos mistérios. De não deixar ninguém para trás. Nunca vi o cónego Luís Manuel queixar-se e dizer ‘para aqueles, não vale a pena’. Fosse em ambientes pequenos, em ambientes nacionais, no estrangeiro, fosse para poucas ou para muitas pessoas, letradas ou não letradas, o cónego Luís Manuel sempre teve esta preocupação contínua: a grandeza dos mistérios, de que a Igreja é guardiã e intérprete, torná-la acessível a todos, pela compreensão dos gestos, das palavras, do que celebra e de como celebra. E isso é admirável.

Padre Carlos: Quando tivemos o ano da liturgia na nossa diocese, no contexto do Sínodo, isso foi uma marca muito visível no rosto e na maneira como as pessoas saíam dos encontros com ele. Percebia-se este desejo de fazer chegar a todos a compreensão daquilo que se celebra. Talvez essa seja a grande marca dele, porque era a tónica, a constância daquilo que dizia, com este intuito muito particular de celebrar, celebrando, não apenas de estar, não apenas de assistente, mas, de facto, de testemunha de um mistério.

 

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O que mais recordam e guardam do cónego Luís Manuel? Que marcas deixou na vossa vida sacerdotal?

“Conheci o cónego Luís Manuel quando estava no ano propedêutico, no Seminário de Caparide. Ele fazia as aulas de Liturgia e no fundo era uma introdução e o descobrir a liturgia nesta vertente do mistério e desta compreensão do mistério da Páscoa que celebramos. Depois, na faculdade, e aí já num outro nível, e nas celebrações. Depois de ordenado, em 2009, fomos partilhando um pouco mais a vida, a dimensão do ministério. O que mais guardo dele é este amor à liturgia, que procuro vivê-lo pessoalmente e ajudar a viver neste sentido. Recordo a sua humanidade, a sua proximidade, a sua capacidade de acolher, de tornar simples e descomplicado aquilo que teimamos em complicar. Foi, de facto, um companheiro de viagem – curta, no meu caso –, que guardo muito. Aquilo que procuro fazer é recordar aquilo que ele fazia, e a maneira como fazia, e tentar percorrer esse caminho, em termos pessoais e com a própria comunidade.”

Padre Carlos Pinto

 

“Entrei no seminário em 1995, ainda estava o cónego Luís Manuel em Roma. Lembro-me de ele começar na Sé de Lisboa e do entusiasmo que foi, da sua parte, embelezar, cuidar da Sé e das celebrações patriarcais – uma tarefa concreta que lhe deu D. António Ribeiro. Muitas vezes estive na preparação das celebrações, e era tudo manifestação desse cuidado para que a celebração do Bispo tivesse e expressasse a beleza daquilo que é. Guardo isto, de facto. Depois, nunca cheguei junto do cónego Luís Manuel sem ser recebido com um abraço ou um sorriso. Portanto, o acolhimento, a delicadeza, o respeito. Fui ordenado em 2002, e foi o aproximar-me a nível do ministério. Com o tempo, de facto, posso dizer de verdade que fomo-nos tornando praticamente confidentes. Pela proximidade, pelas conversas, pela direção espiritual quase mútua, tornei-me amigo e confidente. Nutria um amor reverente pelo seu Bispo, um cuidado contínuo para com a Igreja Mãe da Diocese de Lisboa, a nossa Sé Patriarcal, e um exímio cuidado pelas celebrações e pela arte de bem celebrar. Por convite do cónego Luís Manuel, comecei a colaborar com o Departamento de Liturgia no ano anterior ao ano da liturgia, para preparar e fazer os encontros vicariais na diocese inteira. Já na fase final da sua vida, posso testemunhar que oferece a sua doença e o seu sofrimento pelo Bispo de Lisboa e pelo clero de Lisboa. Raramente o vi lamentar-se ou queixar-se da sua circunstância, porque o seu modo de interpretar a sua situação era, de novo, em chave pascal. O modo de olhar a cruz, a inevitabilidade do túmulo, mas a certeza da ressurreição.”

Padre Ricardo Jacinto

 

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‘Nascemos da Páscoa’

O livro ‘Nascemos da Páscoa - O memorial do mistério pascal’, do cónego Luís Manuel Pereira da Silva, está organizado em cinco capítulos, por conjuntos temáticos. No primeiro capítulo, encontram-se conferências que expõem o que é ‘A Liturgia’. No segundo, o seu pensamento sobre ‘A Celebração da Missa’, ajudando o leitor a entrar no mistério da Eucaristia. No terceiro, ‘A Arte de Celebrar’, com conferências especialmente dirigidas a sacerdotes e, no quarto capítulo, a ‘Espiritualidade’ da liturgia. No quinto e último capítulo, encontram-se conferências sobre ‘A Mistagogia’ dos Sacramentos da Iniciação Cristã e de outros símbolos usados nos ritos cristão.

A obra encontra-se à venda na Livraria Nova Terra, no Patriarcado de Lisboa.

Informações: https://livros.liturgia.pt/382-nascemos-da-pascoa.html

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