Lisboa |
50 anos da dedicação da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa
Uma “fonte aberta no coração da cidade”
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Na celebração que assinalou os 50 anos da dedicação da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, o Cardeal-Patriarca desafiou os fiéis a serem “o coração de Jesus na cidade”. Ao Jornal VOZ DA VERDADE, o pároco, cónego António Janela, apresenta o retrato de uma paróquia que foi “profeticamente projetada” para funcionar como uma “paróquia urbana” e assinala a “disponibilidade” daqueles espaços para receberem iniciativas da Jornada Mundial da Juventude.

 

É um símbolo da arquitetura religiosa moderna, mas a importância da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, perto da Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa, vai muito para além do betão. No encerramento das comemorações dos 50 anos da dedicação deste templo (1970-2020), o Cardeal-Patriarca falou desta igreja como uma “fonte aberta no coração da cidade” e “um polo vivo de presença e manifestação de Deus neste mundo”. Agora, numa zona marcadamente de serviços, o templo continua a ser procurado por alguns fiéis que por ali passam e que, “a pé, de carro, de metro ou de outros transportes públicos, vão para as suas vidas, para os seus trabalhos e para os seus descansos” com “o que recebem” ali, daquela “fonte”, apontou D. Manuel Clemente.

“Além da belíssima arquitetura, esta igreja também oferece a devoção particularíssima ao Sagrado Coração de Jesus”, lembrou o Cardeal-Patriarca, na Missa no dia 11 de junho – precisamente, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, “a maior que podemos celebrar: o coração de Deus que, em Cristo, se oferece ao mundo”. “Deus é sensível ao que se passa neste mundo. O coração de Deus pulsa e, por isso, nós acordamos cada dia porque Ele é constante fonte de vida. Mas o coração de Deus sofre, no sofrimento de todos os seres humanos, no sofrimento da própria natureza, porque nós a estragamos muito. Ele é a constante fonte, da qual tudo brota e nada contraria mais esta fonte de vida do que a morte. Deus está aqui e o coração de Deus pulsa aqui”, garantiu D. Manuel Clemente.

 

A mesma fonte

Às largas dezenas de fiéis que estiveram presentes nesta celebração – e, alguns deles, também estiveram presentes no dia da dedicação daquela igreja –, o Cardeal-Patriarca deixou um desafio: “Ser o coração de Jesus na cidade”. “O coração de Deus ganha forma, figura, palavra, gesto no coração de Jesus, que, agora, está presente no mundo, através de quantos O recebem”, prosseguiu.

Perante a diminuição, cada vez mais acentuada, do número de residentes nestas paróquias do centro da cidade de Lisboa – e intensificada, no último ano, devido à pandemia –, D. Manuel Clemente animou os presentes pedindo-lhes para não se fixarem nos números. “Não vos preocupeis muito com números, porque isto não é de quantidades, mas de qualidades”, sublinhou. “Quem estava junto a Jesus quando, do seu coração trespassado, brotou sangue e água? Eles eram tão poucos! O Evangelho diz que estava lá a sua mãe, uma tia de Jesus, uma Maria, mulher de Cléofas – que também era da parentela de Jesus, mais uma, mais outra, mais um discípulo que os representava a todos... e estais aqui muitos mais! E a fonte é a mesma!”, reforçou o Cardeal-Patriarca de Lisboa que, no final da celebração, conduziu a oração de consagração ao Sagrado Coração de Jesus.

 

Pastoral urbana

Se em 1970, quando a Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi dedicada, a freguesia registava cerca de 20 mil residentes, os Censos de 2011 mostraram um número próximo de 4 mil (e ainda estão por apurar os resultados dos Censos deste ano). O ‘retrato’ é, por isso, muito diferente de há 50 anos, mas, para o atual pároco, cónego António Janela, esta é a ocasião para esta paróquia no coração da cidade se distanciar do modelo implementado de “paróquia rural”, para se apresentar como “paróquia urbana”, já “profeticamente projetada”, e “inserida no contexto urbano – uma Igreja na cidade – e não no bairro ou na aldeia”. “Estes complexos eclesiais ou respondem aos desafios de uma pastoral urbana ou estão na Idade Média. O modelo rural teve o seu tempo. Nós mantemos, em termos paroquiais, um mapa de paróquias rurais, paróquias onde se acentua muito a dimensão residencial. E, hoje, a característica do mundo urbano é o pluralismo, a mobilidade acentuada”, aponta este sacerdote, que compara o atual “modelo de paróquia rural” a uma “estação de serviço”. “O problema é que os carros já não andam a gasolina, mas a eletricidade e hidrogénio”, refere.

 

Para além dos números

Com “cada vez menos residentes e cada vez mais envelhecidos”, o número de crianças na catequese, o número de batizados e de casamentos são fáceis de contar e, apesar de várias experiências, as realidades pastorais que se constroem vão-se “diluindo”, lamenta o cónego Janela, que não deixa de sublinhar as “condições invejáveis” do complexo paroquial, apesar de necessitar de algumas obras de conservação: a igreja tem capacidade para 3250 pessoas, um auditório com 700 lugares, uma sala de conferências, um restaurante e, até, um ginásio, entre outros espaços. Durante os últimos anos, este complexo albergou o Instituto Diocesano da Formação Cristã (IDFC) do Patriarcado de Lisboa, a Pastoral Universitária, o Gabinete de Escuta e outros serviços. Até ao início da pandemia, a Missa de sábado (vespertina) e as duas de Domingo contabilizavam 150 pessoas e, durante a semana, a celebração das 12h35 recebia muitos dos trabalhadores das empresas vizinhas.

Apesar de os números projetarem uma realidade pastoral desta paróquia da cidade, o cónego António Janela vê para além dos números e sugere a utilização dos espaços do complexo paroquial como um “grande centro cultural da diocese na cidade de Lisboa” e a integração “numa unidade pastoral” composta pelas três paróquias que constituem a freguesia de Santo António (São José, Sagrado Coração de Jesus e São Mamede), juntamente com a paróquia da Pena, pertencente à freguesia de Arroios. “Isto permitiria uma sinergia, não só humana, mas de recursos materiais”, defende.

 

O desafio é a preparação

No imediato, pela “localização, disponibilidade e infraestruturas”, a paróquia do Sagrado Coração de Jesus quer apoiar a realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023, revela o pároco. Aliás, para este sacerdote com 80 anos de “juventude acumulada” – tal como referiu o Cardeal-Patriarca, no final da celebração dos 50 anos da dedicação da igreja –, este é “um momento muito desafiante, não só para a Igreja de Lisboa, mas nacional, porque é o desenvolver da pastoral juvenil, não só localmente, mas com uma articulação nacional”. “Neste setor, vejo com muito interesse que, de facto, começa a haver uma articulação entre as diferentes instâncias diocesanas que a preparam – e preparar a festa, já é viver a festa – e a estruturam numa pastoral juvenil de resposta oportuna e atual. Isso, já é um grande ganho!”, considera.

Para o cónego Janela, este dinamismo juvenil é um “desafio” que se “traduz em haver uma presença através do dinamismo dos movimentos”. “Os jovens são os mobilizadores. Este dinamismo da pastoral juvenil tem que ser a mobilização daqueles que já estão em assembleia, que já se sentem Igreja. E nós temos que apoiar isso, no sentido de uma formação integral. O dinamismo está nos movimentos! Onde é que vemos os líderes juvenis?”, questiona o sacerdote, deixando a certeza de que o que vai ficar do encontro internacional que Lisboa vai receber, em 2023, é “a preparação que tiver sido feita”. “Esse, é o desafio das paróquias”, garante.

 

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Livro destaca “obra singular” da arquitetura portuguesa do século XX

“É uma belíssima monografia que integra todos os aspetos, desde o concurso até à dedicação da igreja”, começa por classificar o pároco, cónego António Janela, que é também o autor do prefácio do livro que assinala os 50 anos da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. A obra foi apresentada esta quinta-feira, 17 de junho, e expõe o processo de edificação da igreja e do complexo paroquial, iniciado em 1962, “com o concurso público que atribuiu o primeiro lugar ao projeto dos arquitetos Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas”. Esta “igreja cosmopolita foi inovadora na sua inserção urbana, mas também na experimentação e uso do betão, incorporando o conhecimento técnico e as influências artísticas da época no panorama arquitetónico dos anos 1960”, lê-se, na nota de apresentação do livro. “O espaço da igreja e do centro paroquial conjuga urbanidade e interioridade, síntese de uma vontade de abrir o seu espaço central à cidade, à comunidade e à participação religiosa, no espírito do Concilio Vaticano II”, prossegue a nota.

 

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“A Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Lisboa foi dedicada a 19 de junho de 1970, concluindo-se então, de forma notável, um processo iniciado em 1962 com o concurso público que atribuiu o primeiro lugar ao projeto dos arquitetos Nuno Teotónio Pereira (1922-2016) e Nuno Portas (1934). Igreja cosmopolita, foi inovadora na sua inserção urbana, mas também na experimentação e uso do betão, incorporando o conhecimento técnico e as influências artísticas da época no panorama arquitetónico dos anos 1960. O espaço da Igreja e do Centro Paroquial conjuga urbanidade e interioridade, síntese de uma vontade de abrir o seu espaço central à cidade, à comunidade e à participação religiosa, no espírito do Concílio Vaticano II. Com este livro assinala-se a comemoração dos 50 anos desta obra singular da arquitetura portuguesa do século XX, justamente reconhecida com o Prémio Valmor em 1975 e como Monumento Nacional em 2010.”

Contracapa do livro ‘Igreja do Sagrado Coração de Jesus - Lisboa’

texto e fotos por Filipe Teixeira
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