Lisboa |
Ordenações presbiterais, nos Jerónimos
Criadores de pontes entre as pessoas e Deus
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São quatro os jovens, entre os 29 e os 32 anos, que vão ser ordenados sacerdotes neste Domingo, 4 de julho, pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente. Os diáconos António Ribeiro de Matos, Patrice Nikiema, Pedro Figueiredo e João Silva partilham as suas histórias de vocação com o Jornal VOZ DA VERDADE e frisam o desejo comum de servir a Igreja e o povo de Deus.

 

“Atador de pontas, construtor de pontes”

Esteve no seminário durante seis anos e saiu quando faltava pouco mais de um ano para ser ordenado. Mas, passado um ano e meio, o agora diácono António Ribeiro de Matos regressou para mais dois anos de formação. “No tempo fora do seminário, a veia evangelizadora não só não desapareceu, como parecia ainda mais vincada. O que eu achava que estava fechado, afinal estava claríssimo”, partilha este jovem ao Jornal VOZ DA VERDADE. Originário da paróquia de Santo Condestável, António nasceu “numa família tradicionalmente cristã”, mas que “não tinha prática religiosa”. “A figura de referência católica é a minha avó materna. Ir passar o Domingo com ela era sinónimo de ir à Missa”, conta. Os pais inscreveram-no em colégios católicos, “o que foi importante” na educação na fé. Com 13-14 anos, António estava envolvido em grupos do colégio e no movimento de Schoenstatt, mas não ia à Missa… “Um Domingo, levantei-me e disse: ‘Até já’. Comecei a ir à Missa sozinho, mesmo com muitos altos e baixos”, testemunha, garantindo que “foi enriquecedor” e lhe “permite agora ter outra leitura” sobre as vidas que lhe vão ser confiadas. Após o liceu, viveu um tempo em Inglaterra e regressou, para tirar a licenciatura em Gestão de Marketing, ligou-se às Equipas de Jovens de Nossa Senhora, fez a Missão País, onde conheceu o padre Nuno Amador. No verão de 2011, ‘recebe’ uma “bênção encapotada”. “Tive um acidente de carro – com a graça de Deus, até nem saí mal, mas podia ter morrido ali –, percebi que não estava a viver bem a vida e surgiram perguntas que já andavam dentro de mim desde o 8.º ano: ‘E se Deus me chama a ser padre? O que Deus quer de mim?’. Naquele dia, fui contra um muro, mas se calhar também fui contra uma pergunta…”. Em 2012, a decisão de ir para o seminário “foi um momento duro”, sobretudo para a avó e a mãe. “A minha irmã, com menos três anos e meio, ficou muito alegre e o meu pai disse-me uma coisa muito bonita: que me apoiava sempre, fosse no dia em que voltasse para casa ou no dia em que fosse padre”. Seguiram-se três anos no Seminário de Caparide, um “tempo maravilhoso”. “Foi a descoberta de mim, de Deus e da Igreja”. Vai depois para o Seminário dos Olivais e no início do 5.º ano, em 2017, deixa o seminário, passando “a servir na paróquia de Santo Condestável e na capelania da Universidade Católica” e a “trabalhar para a pastoral dos Salesianos de Lisboa”. Esteve ainda um mês como voluntário na Jornada Mundial da Juventude no Panamá, em 2019. “Foi a realidade que me mostrou aquilo para que o meu coração foi criado”, recorda, a propósito do regresso ao seminário, nesse ano. “Desejo muito poder ser um padre que cria pontes, mas sobretudo que cria a ponte entre a vida das pessoas e Deus. Digo muitas vezes: atador de pontas, construtor de pontes. Não numa teoria, mas porque o vivo”, expressa.

António Ribeiro de Matos, 31 anos

Paróquia de Santo Condestável

 

 

“É para aqui, Senhor? Então, vamos!”

Foi pelos escuteiros marítimos que o diácono João Silva diz ter sido “apanhado por Deus” para a ordenação, segundo conta ao Jornal VOZ DA VERDADE este jovem, que se licenciou em Animação Sociocultural antes de entrar no seminário. João é natural de Caneças, onde foi batizado aos cinco anos – “depois de muita insistência da minha santa avozinha paterna” –, mas considera que o seu percurso cristão foi sempre “muito irregular”. No final dos anos 90, com 7-8 anos, entra nos escuteiros e na catequese, em Caneças, mas em 2003 muda-se para os Escuteiros Marítimos de Belém, onde fica até 2008. Este agrupamento vive então “uma fase complicada” e decide sair. “Conheci os Escuteiros Marítimos do Parque das Nações no centenário do Jamboree Mundial, em 2007, e foi aí que fui conhecendo Jesus mais a fundo”, salienta. Ao acabar a quarta secção, dá-se conta que não sabia o que era ser escuteiro católico. “Se o agrupamento não fosse à Missa, eu também não fazia grande questão”, recorda. Foi procurar, “na internet”, e diz ter feito “asneira”. “Fiquei baralhado. Cheguei mesmo a pensar que isto de ser cristão não era para mim”, observa. O gosto pelos escuteiros marítimos falou mais alto. “Acho que foi por aqui que Nosso Senhor me apanhou… Eu gostava mesmo daquilo e valia a pena investir e perceber o que é isto de ser cristão”. Começou “a ser acompanhado”, a “ir à Missa”, confessou-se “pela primeira vez em muito tempo” e introduziu “ritmos de oração”. “Nosso Senhor foi encontrando a porta aberta e foi-me pondo este desafio”. João disse ‘Não’. “O meu objetivo era constituir uma família cristã e dedicar-me aos escuteiros marítimos até ser velho. Tinha o plano todo feito, mas Nosso Senhor tinha outra coisa para mim… Voltei a dizer ‘Não’ e andei na luta, mas Nosso Senhor ganhou-me pela exaustão: sempre que eu ia rezar, vinha a pergunta. Aceitei, para perceber, e falei com o padre Paulo Franco, que ficou muito admirado e me encaminhou para o Pré-Seminário”, conta. Este jovem tinha 21-22 anos. “Fui percebendo que isto é um caminho que tem alguma coisa de Deus. A serenidade que sentia, o bom ambiente criado, os momentos de oração”, explica. João Silva esteve três anos no Seminário de Caparide e os últimos quatro no Seminário dos Olivais. “O seminário foi esta descoberta do caminho, com lutas, com desilusões, com desafios, mas foi um descobrir-me, um descobrir Deus e a Igreja, conhecer as paróquias, os movimentos e a dimensão teológica e teórica”, frisa, garantindo que os pais, “quando perceberam que isto era sério”, “sempre” o apoiaram. “Chego aqui com uma grande alegria, com uma expectativa grande. Procuro ter a atitude: ‘É para aqui, Senhor? Então, vamos!’. Tenho a expectativa de servir o povo de Deus, de ser o melhor que puder ser”, termina.

João Silva, 30 anos

Paróquia do Parque das Nações

 

 

“Ter um coração de missionário”

Filho de emigrantes do Burkina Faso, o diácono Patrice Nikiema nasceu na Costa do Marfim e vai agora ser ordenado sacerdote para o Patriarcado de Lisboa. “Que o Senhor me dê um coração de missionário”, é o desejo deste jovem, expresso ao Jornal VOZ DA VERDADE. Quinto de seis irmãos, Patrice explica que o pai foi o primeiro a emigrar, para terminar os estudos em carpintaria. “Nasci numa família cristã e foi na família que comecei a minha relação com Deus”, apresenta-se, sublinhando que fez “o percurso normal da catequese”. Após o nascimento dos filhos, os pais conhecem o Caminho Neocatecumenal. “Na família, havia a oração das Laudes aos Domingos de manhã e oração diária”, testemunha. No ano 2000, “um acontecimento muito importante vai mexer” com a vida de Patrice. “Aos 11 anos, faleceu o meu pai devido a um problema no coração. Eu não aceitei e trouxe momentos de rebeldia e a pergunta: ‘Onde está Deus?’”, partilha. Patrice deixou “de dar importância às coisas da Igreja e de ir à Missa”. Passados dois anos, a mãe convida-o “a ouvir as catequeses do Caminho Neocatecumenal”, para entrar numa comunidade. “Aceitei, mas ia com uma certeza: o meu pai morreu, então eu ia morrer também. Havia um combate dentro de mim, com o sofrimento que eu tinha, e posso dizer que sou fruto de uma rebeldia e de um resgate de Deus, que vem salvar alguém que estava a resistir”, assume. Os catequistas da sua comunidade ajudaram-no “bastante”. “Foi uma coisa belíssima, entender que a Cruz foi a minha salvação. Sem isso, não perceberia que Deus é meu Pai”, frisa. Com 16 anos, Patrice vai para o Burkina Faso terminar o liceu. O chamamento despertou aos 20 anos. “Foi numa Eucaristia, onde disseram: ‘Se queres ser amado e amar os outros, segue-Me’. Eu disse que quero ser amado e amar os outros”, recorda. Dois anos depois, em 2011, é convidado a ir à Jornada Mundial da Juventude de Madrid, onde sentiu “verdadeiramente este chamamento vocacional”. “Senti mesmo forte”, assegura. Regressou ao Burkina Faso, para estudar Letras Modernas na universidade e continuar o discernimento. No ano seguinte, Patrice é convidado para o retiro em Porto San Giorgio, Itália, no centro do Caminho Neocatecumenal. “Lá, soube que o meu destino ia mudar. Estava com medo e ansiedade, e convidaram-me a abrir o Evangelho ao acaso e calhou o anúncio do Anjo à Virgem Maria, que diz: ‘Não temas’. Isso ajudou-me a não ter medo”. Este jovem foi então destinado a Lisboa, onde chegou a 19 de setembro de 2012, para o Seminário ‘Redemptoris Mater’, em Caneças. Estudou na Universidade Católica e, em 2017, foi em itinerância, para um ano de missão em França e dois no Gabão e Guiné Equatorial. “É importante esta abertura à missão, que me ajudou a crescer. É isto que eu desejo: que o Senhor me dê um coração de missionário”, ambiciona.

Patrice Nikiema, 32 anos

Burkina Faso

 

 

“Fazer o que Deus quer”

Licenciou-se em Gestão, antes de entrar no seminário. Hoje, o diácono Pedro Figueiredo diz sentir “uma grande felicidade” e “uma grande vontade de fazer o que Deus quer”. “Estamos nas mãos de Deus. Não temos morada permanente em lado nenhum, mas uma grande vontade de servir o povo de Deus, onde quer que ele esteja”, salienta ao Jornal VOZ DA VERDADE. Natural da Charneca, uma aldeia situada entre o Pé da Serra de Sintra e a praia do Guincho, Pedro foi batizado em Sintra, mas com a separação dos pais foi viver para Lisboa, onde faz a Primeira Comunhão e anda na catequese, apesar de não se lembrar “praticamente de nada”. Andou no Lar da Criança, na Lapa, no Colégio Pedro Nunes e foi para os Salesianos de Lisboa, tendo sido “uma boa vítima da pastoral deles”, sentindo-se “marcado” pelo testemunho de São Domingos Sávio. Apesar disso, entre o 7.º e o 12.º ano, largou “a fé” e gostava era de “ser fixe” e “sair à noite com os amigos”. “Deus foi posto completamente de lado”, recorda. Na universidade, após um acidente com o carro do pai, fica sem dinheiro para uma viagem à neve com os amigos e acaba “por ir parar à Missão País”, onde conhece “muitos católicos que davam as razões da sua esperança”. “Fico absolutamente entusiasmado. É aí que sou tocado por Deus”, frisa. Nesta experiência, no Fundão, um amigo convida-o a confessar-se. “Foi uma experiência daquelas de ‘rapa o tacho’, em que pedi ajuda ao padre para fazer um exame de consciência como deve ser, e tive aquele sentimento de toque de Jesus”. Contudo, ainda não se podia falar, “de todo”, de uma inquietação vocacional. Ser padre era algo que “nunca” lhe tinha “passado pela cabeça, sequer”. “Verdadeiramente”, reforça. Este jovem tinha 18 anos e começou a sentir “uma grande alegria”, a “ir à Missa ao Domingo”, a “rezar o Terço”, a “fazer formação com o Opus Dei” e é então encaminhado pelo padre Hugo Santos para o padre Mário Rui – “uma pessoa que me marca muito” –, passando a integrar o grupo de acólitos da paróquia de São Nicolau. “Em oração, percebo que sou chamado a acabar o curso de Gestão, mas eu queria era saber da Teologia”. Pedro entra no Seminário de Caparide em 2014.  “Entrei cheio de mim. O seminário ajudou-me a perceber que isto não é sobre ti, isto é Deus a querer pegar em ti para fazer a vida dos outros, para te entregares aos outros”, aponta, destacando o trabalho dos diretores espirituais. Após três anos, vai para o Seminário dos Olivais, onde está há quatro. “O que mais guardo deste tempo é a transformação que Deus fez em mim. Foi transformar o coração e perceber que é Jesus que vai operar através de ti”, acrescenta. Após a ordenação, é tempo de “servir o povo de Deus”. “A grande expectativa é ser o melhor padre que Deus quer que eu seja e entregar a vida à comunidade que me for confiada”, deseja.

Pedro Figueiredo, 29 anos

Paróquia de São Nicolau

 

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Os (futuros) novos padres e a JMJ Lisboa 2023


“A JMJ é a graça de tocarmos a diversidade e unidade da Igreja! Em cada um que nos visita, é Deus que vem ao nosso encontro. Como Maria, partamos apressadamente para esta missão que o Papa nos confia.”

Diácono António Ribeiro de Matos

 

“Que a JMJ Lisboa 2023 dê aos jovens a possibilidade de abrirem o coração a Jesus, sobretudo aqueles que não O conhecem, e deixarem que Ele transforme as suas vidas.”

Diácono João Silva

 

“Recordo uma frase do Papa João Paulo II e junto-a ao tema da JMJ Lisboa 2023: não tenhamos medo de nos pormos a caminho e de seguir Jesus Cristo. Apressadamente, como Maria!”

Diácono Patrice Nikiema

 

“Escancarar as portas da cidade de Lisboa a Jesus, com toda a disponibilidade e entusiasmo, e colaborar com a diocese e com todas as entidades.”

Diácono Pedro Figueiredo

 

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Ordenação de um diácono verbita

Além dos quatro novos padres para a Diocese de Lisboa, vai ser ainda ordenado diácono, com ânimo de ascender ao presbiterado, Daniel Matequeme Mateus, da Congregação dos Missionários do Verbo Divino.


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Transmissão em direto

A celebração das Ordenações, neste Domingo, 4 de julho, às 16h00, vai ser transmitida em direto pelas redes sociais (YouTube e Facebook) do Patriarcado de Lisboa e do Jornal VOZ DA VERDADE, e também no site da diocese (www.patriarcado-lisboa.pt).

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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