Lisboa |
Cardeal-Patriarca, D. Manuel Clemente
Carta aos diocesanos de Lisboa, no início do ano pastoral 2021-2022
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Caríssimos irmãos e irmãs do Patriarcado de Lisboa

 

1. É com muita proximidade e estima que vos saúdo no início do novo ano pastoral de 2021-22. Com os irmãos Bispos que comigo servem a Diocese, desejo que vos traga muitas oportunidades de crescimento na fé e na caridade de Cristo, em convivência fraterna e corresponsabilidade missionária. E especialmente agora, quando participamos responsavelmente no esforço da sociedade em geral para debelar a pandemia e garantir um bom futuro, que só o será se for realmente para todos.

O Documento final da caminhada sinodal de Lisboa (2014-2021), a que podeis aceder facilmente no “site” do Patriarcado, enumera no seu número 20 algumas “opções pastorais prioritárias” que devemos ter muito em conta. Proponho mesmo que nas reuniões que fizermos nesta altura com os colaboradores pastorais mais diretos, das paróquias e vigararias aos movimentos e grupos, se releia este número do Documento, no sentido de concretizar tais opções, conforme cada local ou setor. Na verdade, resume muito do que se pensou e ensaiou ao longo da caminhada sinodal, enriquecida com a colaboração e a oração de milhares de diocesanos – no próximo número da Vida Católica podereis ler quanto se refere à fase de receção do nosso Sínodo.

 

2. A primeira alínea das referidas opções pastorais indica precisamente «dar continuidade ao processo de receção da Constituição Sinodal de Lisboa, promovendo dinâmicas sinodais…».

É também o melhor modo de correspondermos ao que o Papa Francisco nos pede em ordem ao próximo Sínodo dos Bispos, que versará a sinodalidade na Igreja. Não encontraríamos melhor modo de contribuir para tal objetivo do que partilharmos as conclusões do que fizemos e projetámos durante os últimos sete anos. E assim faremos certamente.

As opções pastorais prioritárias selecionadas pelo nosso caminho sinodal sublinham, com a “promoção de dinâmicas sinodais”, a “pastoral juvenil e universitária”, a “resposta aos desafios que enfrentam as IPSS”, a “pertinência da constituição de unidades pastorais”, e “proporcionar verdadeiras experiências de anúncio do Evangelho no contexto da preparação e vivência da JMJ 2023”. A promoção de dinâmicas sinodais é transversal a todas as opções.

Não poderia ser doutro modo, pois é assim que Deus vive e atua – do Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Foi também assim que Jesus atuou, chamando e enviando discípulos, cuja unidade garantiu a autenticidade cristã do que foram e fizeram, como agora acontecerá connosco. Educar para conviver e agir “sinodalmente” é parte essencial da iniciação cristã e da vida eclesial no seu todo.

Conselhos pastorais e económicos, paróquia a paróquia e a nível diocesano, que realmente se estabeleçam e corretamente funcionem; encontros vicariais de ministros ordenados e de ministérios e serviços laicais: tudo isto é prioritário, como o nosso Sínodo realçou e muito importa cumprir.

Por vezes, a urgência das respostas a dar e dos objetivos a atingir pode apressar em termos individuais o que devíamos realizar ouvindo e caminhando com os outros. Mas isso será trazer para o âmbito eclesial o que é da vida corrente, mais do que da vida cristã propriamente dita. Bem pelo contrário, o incremento da sinodalidade em todos os âmbitos da vida da Igreja, comunidade a comunidade e das vigararias à diocese, é indispensável para nos evangelizarmos na ação.

Alguém lembrou já que “o mais importante de qualquer reunião é a própria reunião”, se for momento verdadeiramente eclesial, de reconhecimento mútuo e escuta atenta de cada um. Daí mesmo, e começando todos por escutar a Deus, sairá algo de evangelizador e criativo, como inúmeras passagens bíblicas nos repetem.

 

3. A pastoral juvenil e universitária é a segunda alínea das “opções prioritárias” que o nosso Sínodo indicou, propondo a criação de espaços de referência para o desenvolvimento espiritual e o acompanhamento vocacional e mútuo. Tudo o que respeita a este setor da pastoral tem especial acuidade no horizonte cada vez mais próximo da Jornada Mundial da Juventude, que é muito mais do que um evento a acontecer: é um processo em curso e criador de bom futuro.

Como já partilhei, a principal motivação que me levou a propor ao Papa Francisco a realização da JMJ em Lisboa proveio das realidades juvenis católicas, com várias interligações eclesiais (movimentos, dioceses, paróquias, institutos religiosos e seculares), que me sugeriram fazê-lo. Quem reparar no que vem acontecendo com Missões País, Núcleos de Estudantes Católicos, Campos de Férias e iniciativas de voluntariado juvenil, apercebe-se do grande potencial evangelizador que contêm. Ligam-se também a movimentos juvenis e universitários em cujos centros e espaços de referência se atingem os objetivos de formação cristã, acompanhamento espiritual e discernimento vocacional, com fruto comprovado. Contamos particularmente com o Escutismo Católico (CNE), que em 2023 completará o seu centenário em Portugal.

Tudo isto se pode e deve incrementar, rumo à JMJ, como já vai acontecendo nos encontros do dia 23 de cada mês e com iniciativas missionárias que motivam a participação. Irão também aumentando os pedidos de colaboração à medida do tempo que se acelera. Momento alto será certamente a próxima Solenidade de Cristo Rei (21 de novembro) – Dia Diocesano da Juventude. Aliás, a última alínea das opções pastorais prioritárias que o nosso Sínodo deixou refere-se precisamente a experiências de anúncio do Evangelho no contexto da preparação e vivência da JMJ 2023. Com os jovens e para nos rejuvenescer evangelicamente a todos.

 

4. É também sinodalmente, que poderemos responder aos “desafios que enfrentam as IPSS”, quer as que “são da Igreja” quer aquelas em que também “está a Igreja”, porque nelas estão cristãos.

Além do setor público e do privado, o setor social em que se inserem as IPSS respondeu prontamente a muitas necessidades que a pandemia trouxe ou agravou. Dou graças a Deus por tanto bem que se fez através delas. Mas isto mesmo nos leva a redobrar esforços para as defender e fortalecer, como para evidenciar diante das entidades públicas e da população em geral que a existência e o bom funcionamento das IPSS são essenciais para desenvolver sentimentos e práticas que nos constituam somo “sociedade” propriamente dita.

Criámos na diocese a Federação Solicitude, para melhor atingirmos tal objetivo e verifico com gratidão e agrado que vai prosseguindo o seu bom caminho, aliás não exclusivo no vasto campo da entreajuda institucional. Importa muito que as comunidades, paroquiais e outras, sintam que as instituições sociocaritativas também são “suas” e lhes requerem a devida colaboração. Não está em causa a autonomia institucional que justamente têm, mas não se esquece a motivação comum que a todos nos liga. Centros Sociais Paroquiais e Cáritas (diocesana e paroquiais), Conferências Vicentinas e Misericórdias, Lares e muitas outras iniciativas solidárias: a tudo devemos interesse e apoio.

 

5. Outra opção pastoral indicada pelo Sínodo diocesano refere-se à pertinência da constituição de unidades pastorais, integrando as diversas realidades eclesiais, com maior interligação de entidades e clareza de gestão.

Por “unidade pastoral” não se entende meramente o facto de várias comunidades e instituições poderem estar confiadas a um ou mais ministros ordenados. Pretende-se, isso sim, que as paróquias e realidades eclesiais presentes em determinado espaço territorial ou sociocultural colaborem realmente na definição e prossecução de objetivos pastorais comuns. Colaboração que envolve certamente a padres e diáconos, mas não menos os fiéis leigos e os consagrados ali presentes e atuantes, tanto no que respeita à Palavra de Deus e à Catequese, como na Liturgia e na ação sociocaritativa.

Alguma coisa se fez já nesse sentido – Missões Vicarais e Semanas Vicarais da Caridade, por exemplo, bem como muitos encontros de formação para fiéis de várias paróquias ou para a preparação de batismos e matrimónios – e por aqui havemos de prosseguir. Tanto mais quanto a urbanização generalizada faz com que a vida em geral também aconteça cada vez mais assim, originando vários contactos e pertenças, muito para além da residência territorial. Para já e sobretudo, atendamos ao que nos está mais próximo, paróquia a paróquia e setor a setor.

 

Caríssimos diocesanos, desejo-vos as maiores felicidades pessoais, familiares e comunitárias neste novo ano pastoral. Deus vos abençoe e Nossa Senhora vos inspire – Ela que não demorou na primeira evangelização do mundo, levando em si mesma a Cristo, que todos aguardavam!

 

Lisboa, 1 de setembro de 2021

+ Manuel, Cardeal-Patriarca, com os irmãos Bispos que comigo servem a Diocese

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