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Padre Andrade (1933-2021)
Um sacerdote que era uma ‘rede social’ mas também um ‘centro social’
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Andava sempre de batina, com os bolsos carregados de rebuçados para dar às crianças. Ao longo de mais de meio século, o padre Andrade percorreu a pé toda a zona da Abóboda, no concelho de Cascais, procurando o bem das pessoas. Faleceu recentemente, aos 88 anos, o sacerdote que era uma ‘rede social’, mas também um ‘centro social’, segundo o atual pároco.

 

O padre Andrade foi um sacerdote que “encarnou as dimensões da Igreja em todas as suas vertentes”. “Não esquecendo o plano pastoral, apostou muito no plano social. No seu tempo, foi um homem muito atual, muito inteligente, um homem que sabia esperar e que deixou de facto uma obra notável”, recorda ao Jornal VOZ DA VERDADE o atual pároco da Abóboda, padre Miguel Ribeiro. Foi “um homem fundamental”, a “referência”, nesta localidade no nordeste da freguesia de São Domingos de Rana, no concelho de Cascais. “Quando o padre Andrade veio para a Abóboda, no final dos anos 50, não havia condições nenhumas de esgotos e eletricidade, nem casas legalizadas. Era uma zona com gente que veio trabalhar para cá e foi construindo as suas casas aos fins-de-semana, quando os fiscais não andavam por aí. O padre Andrade começa em força o trabalho pastoral na Abóboda, e nunca esqueceu a vertente humana, das condições das pessoas, das condições sociais. O padre Andrade era uma ‘rede social’, porque unia as pessoas, punha as pessoas em contacto umas com as outras”, expõe o padre Miguel, justificando: “Ele passava nas casas todas e era frequente dizer que ia jantar, porque o que ele queria era estar com as pessoas. O padre Andrade conhecia as pessoas nas suas casas. Todas”.

O pároco da Abóboda salienta que o sacerdote falecido tinha “um jeito enorme para criar ocasiões de encontro, como festas, num tempo em que não havia nada, nem ninguém organizava nada”. “Não havia o trabalho das coletividades que hoje existe e, nessas festas, ele congregava as pessoas. E depois organizava também peregrinações, excursões, passeios. Era um homem que, muito antes das autarquias, começou a organizar tudo isso”, frisa. “Ele era o padre, o autarca, o professor, era o pastor próximo, muito próximo, das pessoas. De facto, fez um trabalho notável a esse nível e criou um espírito de comunidade que ainda hoje persiste, do qual eu recolho os frutos. Era de facto uma ‘rede social’ sem a parte má, que é aquele anonimato”, resume.

 

Promover o bem das pessoas

Ao longo de mais de 50 anos, o padre Andrade percorreu toda a zona da atual paróquia da Abóboda, composta por cinco lugares: Conceição da Abóboda, Cabeço de Mouro, Outeiro de Polima, Talaíde e Trajouce. O padre Miguel Ribeiro faz, por isso, outra analogia sobre o colega sacerdote, dizendo que o padre Andrade “era um ‘centro social’, também”. “Temos muitas cartas dele em que faz o levantamento de quantas crianças é que há nas indústrias, nas empresas, para pedir uma creche, para pedir um jardim de infância, para pedir uma escola. E ele dizia aos responsáveis onde deveria ser feita essa escola, com quantas salas. De um modo muito simples, limitando-se ao essencial, era um sacerdote ‘centro social’, sem a burocracia que há hoje”, conta o padre Miguel, reforçando que, “para estas pessoas da Abóboda, das mais velhas e das de meia idade, a referência de vida é o senhor padre Andrade”. “Era alguém que realmente promovia o bem das pessoas. Eram às dezenas as cartas para o presidente da Câmara a pedir para alcatroar aquela rua, para colocar eletricidade na outra ou dizendo que aquela não tem esgotos. Era um verdadeiro zelador do bem comum”, acrescenta o atual pároco.

O sacerdote espiritano, que faleceu aos 88 anos, tinha ainda uma outra característica. “Era um homem que andava sempre a pé. Ele chegou a ser capelão dos Maristas [em Carcavelos] e ia a pé até Talaíde [na zona norte da Abóboda], que ainda são uns bons quilómetros”, refere o padre Miguel.

 

Valorizar a vida comunitária

Sacerdote da mesma congregação, o padre Tony Neves sublinhou que o padre Andrade tinha “uma rara inteligência” e “sentido de Missão”, além de “um enorme sentido de pertença à Congregação do Espírito Santo”. “Sempre valorizou a vida comunitária e optou por um estilo de vida pobre (em exagero, por vezes), simples e de dedicação total aos mais excluídos. Marcou milhares de pessoas, eu incluído. Para a ‘sua’ Abóboda era capaz de tudo”, recordou o padre Tony, numa publicação no Facebook. Este sacerdote, que foi provincial dos Espiritanos entre 2012 e 2018, não esquece as muitas videochamadas que realizou com o padre Andrade. “Recebia sempre os sorrisos mais largos e as saudações mais genuínas, mesmo quando as palavras já custavam a sair. Agradeço-lhe a fé que anuncia por palavras e vida; agradeço o extremo testemunho de felicidade e consagração. Deus o abraçou e lhe reservou um bom lugar naquele Céu de que tanto falava a todos... Obrigado, P. Andrade. Descanse em paz”, termina a publicação do padre Tony Neves.

 

Recordado pela política

O presidente da Câmara Municipal de Cascais homenageou o padre Andrade, na hora da sua morte, lembrando que faleceu um sacerdote “de referência”. “Partiu um Homem BOM que ainda é hoje uma referência para muitos jovens das décadas de 60, 70, 80 e 90 do século passado, em especial para os que tiveram o privilégio de o ter como professor no Liceu de Oeiras e para os jovens da Freguesia de S. Domingos de Rana. Descanse em paz Senhor Padre Andrade”, escreveu Carlos Carreiras, na sua página no Facebook.

Também a Junta de Freguesia de São Domingos de Rana manifestou “o seu profundo pesar” pelo falecimento do padre Andrade. “Ao longo do longo sacerdócio na freguesia, conseguiu com a sua entrega e dedicação ao próximo tocar diferentes gerações e conquistar um lugar especial nos corações de todos aqueles que tiveram o privilégio de consigo privar”, destacou a entidade, numa publicação na mesma rede social.

 

Uma escola com o seu nome

Foi a 11 de novembro de 2015 que a antiga Escola Básica n.º 1 da Abóboda passou a ter o nome ‘Escola Básica Padre Andrade’. Uma ideia proposta pela Associação de Pais do Agrupamento de Escolas Frei Gonçalo de Azevedo, que contou com o apoio da própria escola, da freguesia local e também da autarquia cascalense. Há quase seis anos, durante a cerimónia, o padre Andrade dizia-se um homem feliz. “Sinto-me com um duplo sentimento, de agradecimento e de gratidão, porque quem é chamado por Deus para uma vocação deve procurar cumpri-la e ser o melhor que puder. E o melhor que puder é conhecer a todos”, manifestava o sacerdote, na altura da homenagem.

O padre Miguel Ribeiro recorda que a escola era um lugar onde o padre Andrade “ia muitas vezes”. “Como bom missionário, ele andava sempre de batina e, no bolso de trás, vinha carregado de rebuçados para dar aos miúdos. Muitos dizem que quando o padre Andrade ia à escola era uma festa”, partilha o pároco da Abóboda, sublinhando que esta foi “uma homenagem, em vida, muito justa”.

 

Odor de santidade

Foi em 2009 que o padre Miguel conheceu o padre Andrade. Quatro anos mais tarde, em 2013, assume a paróquia da Abóboda. “Quando entrei para administrador paroquial da Abóboda, o padre Andrade esteve a ajudar-me até meados de 2015 e de certeza que havia coisas que eu fazia que ele não estava de acordo, mas nunca me chamou à atenção uma única vez. Soube sempre ocupar o seu lugar, que era o de ajudar. Sempre admirei isso nele. Foi, de facto, um servo. Deixou que eu tomasse o meu lugar, crescesse, e foi um grande ensinamento, sem ele me dizer uma palavra contra”, recorda, destacando igualmente a “segunda coisa” que o impressionou no padre Andrade: “Ele soube sair. Quando foi para a sua nova comunidade, em Braga, em março de 2016, com certeza que foi com saudade e tristeza, mas sem fazer ondas. Saiu tranquilamente”.

Dos anos em que privou com o padre Andrade, o padre Miguel Ribeiro guarda uma certeza: “Aos pais que vêm pedir o batismo para os seus filhos, eu costumo dizer que o que se espera de um batizado é ser este odor de santidade, este bom perfume na vida das pessoas. O padre Andrade é um exemplo de santidade. Talvez nunca venha a ser beatificado, mas, nesta zona, é um exemplo de santidade”.

 

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Perfil

O padre Manuel da Costa Andrade foi responsável, durante mais de 50 anos, pelo cuidado pastoral da zona da Abóboda, na Vigararia de Cascais. O sacerdote da Congregação do Espírito Santo nasceu em Carapeços, Barcelos, na Arquidiocese de Braga, a 13 de março de 1933, e era o mais novo de 13 irmãos. Entrou para o seminário de Godim-Régua, em 1944, e fez a profissão religiosa sete anos mais tarde. Em 1954, foi enviado para continuar os estudos teológicos em Roma, onde foi ordenado sacerdote, a 28 de abril de 1957, tendo feito a licenciatura em Dogma, pela Universidade Gregoriana de Roma. Foi professor, ecónomo e sub-mestre de noviços, foi superior da comunidade no Seminário da Torre d’Aguilha, lecionou Música, Dogma, Direito Público, Filosofia, Moral, Grego, Liturgia e Pastoral Catequética. Foi ainda professor de Religião e Moral no Liceu de Oeiras e coadjutor na paróquia de São Domingos de Rana, com a área da Abóboda. Acompanhou o processo de criação da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda, em 2004, tendo sido, até fevereiro de 2013, vigário paroquial da Abóboda e, durante cinco meses, até julho desse ano, administrador paroquial da mesma paróquia. Por motivos de saúde, em 2016, é transferido para o Lar Anima Una, em Fraião, Braga, onde viria a falecer na madrugada de 14 de setembro, aos 88 anos.

 

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“Nova igreja permite à paróquia crescer”

A 12 de maio de 2019, a paróquia da Abóboda viu ser dedicada a nova igreja, numa celebração presidida pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa que contou com a presença do padre Andrade. “A vinda dele foi uma surpresa para as pessoas”, refere o pároco. “O padre Andrade e o padre Veríssimo Teles chegaram na véspera, de carrinha, à uma da manhã, e vejo o padre Andrade com um sorriso felicíssimo. Naquele sorriso, eu vi a alegria de estar num sítio que ele sempre sonhou. Naquele sorriso, vi um despojamento em relação à obra. Era um sorriso muito livre”, destaca o padre Miguel Ribeiro, lembrando que “a igreja estava cheíssima, a abarrotar de gente”. “Quase todas elas, tinham partilhado a vida com o padre Andrade. Foi um dia muito feliz para todos”, garante.

A nova igreja paroquial da Abóboda trouxe a possibilidade de “a paróquia crescer”. “Na primeira festa da padroeira, em vez das 150 pessoas que se apertavam no Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Abóboda, tivemos umas 600. Trouxe condições para a catequese. Antes, tínhamos quatro salas e pouco mais de 100 crianças e adolescentes, agora chegam a 200. Temos condições para crescermos como paróquia, para os grupos, temos capelas mortuárias com condições, com espaço, e um centro de juventude”, exemplifica, sublinhando que “a nova igreja veio no tempo certo para viver este tempo de pandemia”. “Foi mesmo um tesouro que conseguimos. A Abóboda é uma paróquia que estava apertada e agora respira. As paredes não evangelizam ninguém, mas a comunidade está cá toda e começa a tomar consciência da sua importância e da sua condição de batizada”, frisa.

Para este ano pastoral, fica “o desejo de constituir o conselho pastoral paroquial” e de “frutificar esta sinodalidade, que é desejo do nosso Patriarca e do Papa”. “Sem ela, não há Igreja no futuro. Disso não tenho dúvidas. E aqui também não haverá. O facto de termos este templo agora, não nos garante nada se não houver esta tomada de consciência da vocação de cada um”, alerta o pároco da Abóboda.

 

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Na foto, o padre Andrade com o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, na celebração de dedicação da nova igreja da Abóboda, em maio de 2019, naquela que foi a última visita do sacerdote à comunidade que serviu durante mais de 50 anos.

texto por Diogo Paiva Brandão
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