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À procura da Palavra
As primeiras palavras
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DOMINGO XXVII COMUM Ano B

“O homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa,

e os dois serão uma só carne.”

Mc 10, 7-8

 

Eu não sabia, e talvez muitos de vós também não. As primeiras palavras humanas na Bíblia, nos relatos da criação, são um poema de amor. O homem maravilhado a saudar a criação da mulher: “Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gen 2, 23). Ainda que já tivesse dado o nome a todos os animais ainda não tinha sido ouvida a voz humana. É o encontro com um outro, da mesma natureza e dignidade, feito do seu lado numa complementaridade desejada por Deus, que torna possível a vitória sobre a solidão, a vida que o diálogo semeia e faz crescer. Como foi possível esquecer a igual dignidade pessoal do homem e da mulher? E ainda hoje, em tantas latitudes, em tantos campos da existência, continuar, na prática, a não ser reconhecido?

 

Criados pelo Deus-Comunhão e para a comunhão, o homem e a mulher não encontram plenitude na solidão. Ainda que a abundância de coisas e a capacidade de transformar tudo em objectos utilitários pareça encher o coração humano, o vazio que nele existe só pode ser preenchido pela relação dialogal, de dádiva e não de posse, com o outro, com Deus. É essa relação mútua, de doação total num projecto comum, lado a lado, de tal modo que não se pode destruir um sem destruir o outro, que a união do amor humano realiza. E é esse o desejo de Deus. “Ser uma só carne” exige uma separação do “primeiro amor” (os dos pais) para que os dois realizem a unidade de tudo o que constitui a natureza humana: corpo e espírito, pensamento e amor, sentimentos e vontade. E não aconteça, como caricaturiza uma anedota: “Quando o homem acordou do sono e viu a mulher, voltou-se para Deus e disse: ‘Ah!.... mas o que eu queria era uma mãezinha!’”

 

No reconhecimento mútuo emerge o espaço para a diferença fecunda que dá sentido à união. O compromisso num caminho de fidelidade e verdade garante a travessia das tempestades, do cansaço, do egoísmo, reanimando sempre o maravilhamento inicial. O amor não permanece por milagre, mas pela responsabilidade dos que se querem amar. O desejo de fidelidade é resistência à tentação de contabilizar ou legalizar os gestos de amor.

 

Não segui a análise dos dados sobre divórcios e casamentos em Portugal e na Europa. Cada história é sempre tão única. Mas é preciso olhar de frente esta realidade e assumir responsabilidades. Como cristãos é fundamental concretizarmos os apelos que a “Amoris laetitia” do Papa Francisco nos lança. Os homens e mulheres não deixarão de procurar dizer e viver as primeiras palavras que ecoaram na criação. Como nos podemos entreajudar a acreditar no amor?

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