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À procura da Palavra
E depois?
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DOMINGO V QUARESMA Ano A

"Desligai-o e deixai-o ir.”

Jo 11, 44

 

Podemos falar de algumas ressurreições. Da que é tão comum a todos, que nem nos damos conta quando nos entregamos ao descanso do sono na esperança de acordar, da que é vida abraçada com maior coragem e agradecimento depois de um perigo de morte, daquela que Jesus promete e será a maior das surpresas, um dia, nesse fim aberto à eternidade. Nos evangelhos encontramos três pessoas que Jesus ressuscita: a menina filha de Jairo, chefe de uma sinagoga; o jovem, único filho da viúva de Naim; e Lázaro, o irmão de Marta e Maria e seu amigo, de Betânia. Nestes momentos os evangelistas dão-nos a comoção de Jesus, e João diz-nos que Jesus chorou. É o choro que abençoa as lágrimas de impotência de todos diante da morte, que acolhe todas as perguntas diante do desejo de uma vida infinita que ali parece tão finita.

Dos ressuscitados dos evangelhos pouco mais sabemos. A menina é entregue aos pais e Jesus preocupa-se em que lhe dêm de comer, o jovem é entregue a sua mãe, e Lázaro é desligado das vestes mortuárias e deixado ir. Mas como mudaram as suas vidas? Com que olhos e gestos novos refizeram as suas histórias? Imagino o regressar à vida com o sabor de um novo nascimento. Mas a ressurreição de Jesus é algo substancialmente novo. E pleno, e surpreendente, e cheio de amor! E é dessa ressurreição que já participamos pelo Baptismo. Tudo é renovado e o mundo ganha um horizonte de felicidade e de responsabilidade que não imaginávamos. Porque ressuscitar implica querer que a vida de graça e verdade, de justiça e amor, de que Deus é fonte, chegue a todos!   

Há 24 anos que Frei Bento Domingues interpela o nosso pensar e agir, de cristãos e de todos, numa coluna do jornal Público. “Está cada vez mais na lista negra”, como diz uma amiga minha, pela coragem de despertar consciências e alargar horizontes de pensamento, tornando prático e directo o evangelho de Jesus, no meio de um humor e jovialidade que alegram. “Um mundo que falta fazer” é o título de uma colectânea (a primeira de outras, esperamos!) das suas (mais de mil!) crónicas dos últimos 16 anos, organizada por António Marujo e Maria Julieta Mendes Dias. Se, para além das amêndoas (se fôr possível comprá-las nestes tempos difíceis) tivéssemos o hábito de oferecer um livro na Páscoa, atrever-me-ia a sugeri-lo. Porque respira-se ressurreição nas suas páginas, e a sua leitura dos acontecimentos ilumina a responsabilidade partilhada pelo mundo que o evangelho nos pede que façamos. O tempo não envelhece os textos, antes lhes aguça o sabor, e revela a urgência da nossa acção de ressuscitados.  

Acreditamos em Jesus vivo. E depois? Sabemos que mundo novo Ele nos convida a construir. E depois? Celebramos a ressurreição cada domingo e até cada dia. E depois? De que vida nova estão cheios os nossos dias, as nossas escolhas, as nossas relações, os nossos problemas e esperanças? O mundo que falta fazer é bem mais fácil e simples do que pensamos. Basta fazê-lo com os outros. E querer fazê-lo com Jesus!

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