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As histórias terríveis dos escravos dos nossos tempos
Epidemia de terror
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O Papa denunciou, na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, a existência de milhões de seres humanos que vivem escravizados, apesar de estarmos já em pleno século XXI. Muitos destes novos escravos são cristãos.

 

Yolande ainda não deve ter escutado as palavras do Papa Francisco sobre as diversas formas de escravatura que envergonham o mundo nos dias que passam. Yolande vive na República Democrática do Congo. Há três anos, pouco depois de ter casado, foi raptada e violada por homens que pertencem a uma das várias milícias armadas que pululam no país. Ficou grávida. Agora tem uma filha nos braços e uma vergonha enorme que lhe esconde o rosto e lhe tolda o olhar. Ela não se pode esconder, não pode esconder a filha, mas todos apontam para ela com o dedo acusador. Ela é culpada! Aquela criança mancha a reputação do marido e de toda a família.

Yolande está só e segura a filha dos braços. Yolande é apenas uma das 48 mulheres e adolescentes que são violadas, a cada hora, na República Democrática do Congo. Os números são das Nações Unidas e revelam mais do que uma tragédia: falam-nos de uma epidemia de terror.

 

Soldados de 5 anos

Há poucos dias, Velerie Amos, responsável pela assistência humanitária das Nações Unidas na Síria, denunciou que estão a ser recrutadas crianças, pelo Estado Islâmico, para as várias frentes de combate. Algumas dessas crianças têm apenas cinco anos. A maioria pertence a minorias religiosas, como os cristãos. A palavra “recrutar” é um eufemismo para o rapto violento destes meninos e adolescentes. Na verdade, eles são arrancados às suas famílias e levados para campos de treino, como um situado na região de Ar-Raqqa. Os testemunhos que chegam de lá são aterradores. Há crianças executadas em público, outras que são torturadas. Os números têm uma dimensão tal que anestesiam. Em quase quatro anos de guerra civil, há já mais de 200 mil mortos e 1 milhão de feridos.

Kobani, junto à fronteira com a Turquia, passou a estar no centro das atenções mediáticas desde que as forças jihadistas ocuparam uma parte considerável desta cidade, defendida pelos combatentes curdos. Nem todos conseguiram fugir a tempo. Foi um avanço fulminante dos jihadistas. Houve famílias inteiras que ficaram encurraladas, jovens e crianças que viveram dias de terror. A ONG Human Right Whatch acompanhou algumas dessas crianças que só foram libertadas ao fim de quatro meses de cativeiro. Os rapazes eram obrigados a rezar cinco vezes por dia e a decorar partes do Corão. Se não dissessem correctamente os textos ou tentassem escapar, eram espancados e obrigados a revelar nomes e endereços de familiares.

 

36 milhões de escravos

O Papa Francisco denunciou a existência de escravatura em muitos países. O mundo ainda não deixou a escuridão da Idade Média em demasiados lugares. Segundo dados da ONU, haverá hoje cerca de 300 mil crianças-soldado. Jovens que servem para combater, carregar armas, cozinhar. Crianças que são também abusadas sexualmente. Há muitas milícias que usam esta mão-de-obra barata e obediente. Mas também há países que o fazem.

Calcula-se que haja, no mundo, cerca de 36 milhões de escravos. Os dados foram revelados em Novembro do ano passado por uma instituição que luta pela erradicação da escravatura, a Walk Free. Segundo esta organização, a Índia, a China, o Paquistão, o Usbequistão e a Rússia são países onde se encontram cerca de 61% dos escravos dos tempos modernos. A lista é imensa, é como uma infâmia que escorre pelas fronteiras sem se deter. Taiwan, Sudão do Sul, Coreia do Norte, Kosovo e Chipre fazem parte do grupo de países onde se registou a presença de pessoas escravizadas, privadas da sua liberdade, obrigadas a trabalhar, a prostituir-se. A lista também inclui Portugal, onde se registaram casos de tráfico de pessoas e de situações de trabalho escravo. O pior país do mundo é a Mauritânia, onde 4% da população está privada da liberdade. Paquistão, República Democrática do Congo, Sudão, Síria e República Centro-Africana são outros países onde a vida está em saldo, onde se comercializam pessoas em mercados, ao lado de animais, roupa, comida.


 

Mulheres à venda no mercado

 

Nas últimas semanas, os jihadistas do Estado Islâmico receberam um manual sobre como comprar e vender mulheres e meninas que caíram nas mãos deste grupo terrorista. Calcula-se que milhares de prisioneiras não-muçulmanas, cristãs e yazidis, tenham sido capturadas durante os últimos meses. O referido manual, escrito em árabe, dá indicações sobre como as mulheres e meninas podem ser vendidas, usadas como concubinas ou dadas de presente. Pode ler-se: “Elas são mera propriedade e podem ser distribuídas e vendidas”. Yolande provavelmente não conhece o martírio destas mulheres e crianças. Provavelmente nem ouviu ainda falar no Estado Islâmico, das guerras no Iraque e na Síria e dos seus milhões de refugiados. Para ela basta a memória do que viveu, os braços que a arrastaram para fora de casa, a humilhação e a dor de ter sido violada. Depois, há a filha que nasceu e que lhe recorda agora, e até ao fim dos seus dias, o rosto do homem que a brutalizou. Desprezada pelo marido e família, Yolande vive na idade das trevas e sente-se violada todos os dias. Há milhões de pessoas assim, no mundo. Todas têm um nome, uma história. Todas estão em sofrimento. Para muitos, porém, são apenas estatística. Há 36 milhões de escravos no mundo. E estamos já no décimo quinto ano do século XXI.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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