Entrevistas |
Padre Fernando Sampaio, coordenador diocesano dos Capelães Hospitalares
“Trabalhar para a vida, até ao último momento!”
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Diariamente está presente no Hospital de Santa Maria e na Maternidade Alfredo da Costa. O padre Fernando Sampaio, de 54 anos, é o coordenador diocesano dos Capelães Hospitalares e apela aos doentes para viverem cristãmente o tempo da doença e do sofrimento. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, este sacerdote lembra que “o capelão não mata ninguém” e desafia as comunidades cristãs a enviarem voluntários.

 

Na Mensagem para o Dia Mundial do Doente, que se celebra no dia 11 de Fevereiro, o Papa encoraja os doentes e os que sofrem a encontrarem na fé “uma âncora segura”, porque “quem crê jamais está sozinho”. Este é o grande desafio da pastoral hospitalar?

Sim, este é um desafio constante, diário, de apoiar os doentes nessa procura. O Santo Padre tem toda a razão, porque a fé é uma âncora face ao sofrimento! Um dos problemas, hoje, é o esquecimento de que a fé é essa âncora de apoio face a toda a turbulência psicológica, existencial, espiritual que a doença e o sofrimento provocam na pessoa. Muitas vezes as pessoas, face ao sofrimento e à doença, esquecem esta dimensão e não vivem sequer a dimensão da fé. Mesmo católicos! Recordo-me muitas vezes de uma senhora que na fase terminal da sua vida tinha sempre um sorriso na cara. Eu achava espantoso como é que ela, uma doente de cancro que tinha a morte próxima, estava sempre de sorriso na cara. Ela gostava de receber a Comunhão, recebeu a Santa Unção e a dada altura disse-me: ‘Se a vida é só isto, não valeu a pena cá ter vindo porque ela é dura e difícil! Mas estou convencida que isto neste mundo é apenas o começo de algo extraordinário que Deus tem para nos oferecer’. Foi deste modo, com uma fé extraordinária, que ela enfrentou a sua doença e o seu sofrimento.

Diariamente, temos exemplos de muitos doentes que ao comungarem dizem ‘É isto que me ajuda a vencer a dor e o sofrimento’. Esta é a experiência que nós temos da importância da fé! E da dificuldade que, muitas vezes, outras pessoas têm precisamente porque não têm fé ou não a valorizam. A fé é um recurso extraordinário na serenidade interior e no despertar da esperança!

 

Este documento de Bento XVI tem como tema ‘Levanta-te e vai; a tua fé te salvou!’. É um caminho longo a desbravar no meio hospitalar, concorda?

O desafio que o Papa lança neste título, ‘Levanta-te e vai; a tua fé te salvou!’, é um extraordinário dinamismo de esperança para os doentes. Com frequência, a doença acabrunha a pessoa e esta mensagem mostra a atitude positiva, activa, da pessoa que quer lutar contra o próprio sofrimento. Isto levanta outro aspecto, que é terrífico e que muitas vezes põe em causa a confiança das pessoas em Deus: é o dizer e acusar que Deus é o autor do sofrimento e das doenças. A doença faz parte da nossa condição humana. Muitas vezes pensa-se que a doença é causada pelo nosso pecado, mas as plantas e os animais não pecam e também têm doenças… A nossa condição frágil, leva a que possamos adoecer. Acusar Deus de ser o autor do nosso sofrimento impede-nos muitas vezes de nos aproximar-mos d’Ele! Este ‘levanta-te e anda, vai à procura, vai ao encontro do Senhor’ é precisamente para irmos ao encontro de Cristo! O voltarmos o nosso coração para Deus, o fazermos a nossa oração – que não é mais do que um momento de intimidade com o Senhor – mostra-nos como Deus está unido a nós e está connosco na nossa luta contra a doença! Nós precisamos de viver cristãmente o tempo da doença e do sofrimento.

 

O Patriarcado de Lisboa, através das capelanias hospitalares, está presente em praticamente todos os hospitais da diocese. Qual a importância da pastoral hospitalar?

O hospital é um lugar de fronteira da vida com a morte, é um lugar de fronteira com o mundo, onde se cruzam múltiplos saberes, filosofias e crenças. É um lugar avançado da própria Igreja! Ou melhor, é um lugar avançado onde o cristão está e é necessário que ele tenha acesso à espiritualidade. A Igreja não pode estar ausente deste sector! É extraordinariamente importante pelo bem que realiza em relação às pessoas.

 

Que papel tem a espiritualidade no processo de cura de um doente?

O papel da espiritualidade no processo de cura de um doente – ou pelo menos, de ajuda no seu bem-estar – é fundamental! É curioso que o conceito que nós hoje temos de saúde é um conceito que não é mais que biomecanicista. E quando temos um conceito biomecanicista, desumanizamos a saúde. Ao olharmos a pessoa na sua globalidade, como pessoa – que tem também a dimensão espiritual, religiosa, existencial – estamos a dar conta que a saúde não é apenas uma questão físico-biológica, mas a saúde é também uma questão espiritual. Neste sentido, damos conta que muitas vezes há situações de sofrimento que não têm nada a ver com questões físicas, mas com questões espirituais.

 

Mas há alguma partilha de informação com o corpo clínico sobre determinado doente?

O corpo clínico dá-se conta desta importância. Há naturalmente gente que desvaloriza, mas há muitos que se dão conta da importância da espiritualidade no doente. É particularmente importante nas situações oncológicas, de sida e nas situações severas de saúde, porque é um factor de sentido e de esperança. A doença e o sofrimento põem em causa o sentido, pelo que a prática religiosa e a espiritualidade são factores de sentido de unificação da própria pessoa!

 

O Decreto-Lei 253/2009, que regulamenta a assistência espiritual e religiosa nos estabelecimentos do Serviço Nacional de Saúde, ressalva precisamente essa importância…

O decreto-lei valoriza a dimensão da espiritualidade e valoriza em dois sentidos: no sentido do bem-estar do doente e no sentido da qualidade do serviço. A existência do serviço de assistência espiritual e religiosa num hospital é, para o hospital, um factor de qualidade precisamente porque tem uma visão holística da saúde.

 

O que é que um doente deve fazer quando chega a um hospital e quer ter assistência espiritual?

É muito curioso que as pessoas, de uma maneira geral, sabem que nos hospitais há capelães, mas quando entram no hospital esquecem que existe serviço religioso… A primeira coisa que um cristão deve fazer quando chega ao hospital é pedir aos enfermeiros que contacte a assistência espiritual e religiosa. E isso deve-o fazer logo! Deste modo, o doente tem acesso a toda a assistência religiosa!

O capelão não mata ninguém! Por vezes as pessoas pensam ‘Aqui d’el Rei que eu não estou tão mal que precise que o capelão venha…’. A questão não é estar mal ou não estar mal; é a vivência da fé! Como diz o Santo Padre, “viver a fé como âncora”, como esperança, durante o tempo do sofrimento.

 

Que lugar ocupa a pastoral hospitalar na chamada nova evangelização?

A pastoral hospitalar é extraordinariamente evangelizadora! Não no sentido de trazer uma mensagem explícita, mas no sentido do ministério da presença junto dos doentes. Porque é uma pastoral personalizada, de contacto humano. E muitas vezes é a partir do contacto humano que as pessoas começam a repensar a sua própria situação de fé. Não é necessário andar a pregar, é necessário sim estar presente junto dos doentes, de uma maneira muito humana. Ao longo destes mais de 25 anos que sou capelão hospitalar, tenho observado que há muita gente que se reconciliou com a Igreja!

 

A nota pastoral ‘Cuidar da vida até à morte – Contributo para a reflexão ética sobre o morrer’, publicada pelos bispos portugueses em Novembro de 2009, recordava que o respeito pela vida passa também pela hora da morte. Que papel a Igreja poderá ter na reflexão sobre esta temática?

A Igreja tem um papel importante no sentido de chamar a atenção para a dignidade da pessoa. E a dignidade da pessoa não está necessariamente em antecipar a morte. Há pessoas que dizem ‘antecipar a morte é um acto de coragem’; eu não considero um acto de coragem, mas um acto de cobardia. Nesse sentido, a Igreja tem um papel extraordinário no sentido da dignificação da pessoa humana, em todos os seus momentos da vida! E afirmar a dignidade da pessoa até ao momento da morte, presente junto do doente, ajudando a dar dignidade à parte final da vida é extraordinariamente importante!

Podemos ver essa parte final da vida como uma espécie de escrito sobre o último capítulo da vida. E escrever este último capítulo com dignidade, ajudar a pessoa a ter essa dignidade, é a coisa mais fabulosa que podemos fazer! Há pessoas que por vezes dizem que gostavam de morrer ou que gostavam que se realizasse a eutanásia, mas isso acontece quando se sentem abandonados… o doente tem é receio de estar sozinho ou de morrer sozinho. E neste sentido a Igreja tem um papel importantíssimo pela sua presença humana.

 

A visita aos doentes é uma obra de misericórdia, que vive muito da presença dos leigos…

Os hospitais são muito grandes, pelo que é fundamental a presença de leigos! Não apenas na continuidade do nosso trabalho pastoral, mas porque a presença de leigos é extraordinariamente benéfica para os próprios doentes. Porque os leigos tornam presente a comunidade e a presença da comunidade nos hospitais é muito importante. Nós lamentamos que não haja mais voluntários neste sector de pastoral, ao nível das capelanias. No Santa Maria, por exemplo, temos apenas 12 voluntários, que ajudam essencialmente ao Domingo, para dar a comunhão aos doentes. Recentemente escrevi uma carta aos párocos da cidade e de fora da cidade a ver se conseguíamos aumentar o número do voluntariado… vamos ver os ecos que teremos.

 

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Perfil

O padre Fernando Sampaio, de 54 anos, é actualmente o coordenador diocesano dos Capelães Hospitalares e capelão do Hospital de Santa Maria e da Maternidade Alfredo da Costa. Vive, portanto, ‘mundos hospitalares’ distintos: “O Santa Maria também tem maternidade, mas a Alfredo da Costa foi para mim uma novidade no sentido do pessoal. É um hospital pequeno, quase de natureza familiar, e isso cria um ambiente muito bonito. O Santa Maria é um mundo! Mas é um mundo desafiante, também a nós próprios, para conseguirmos estar presentes em todo o hospital”.

Nascido em Sendim, Felgueiras, na Diocese do Porto, este sacerdote foi ordenado em 1985, tendo estado durante 9 anos no IPO. “Eu fui parar à pastoral hospitalar quase por acaso, não foi um lugar pastoral que eu tenha privilegiado desde o início. Em finais de 1986, era eu padre há pouco mais de um ano, um colega estava para ir para o IPO mas teve de ir para os Estados Unidos e monsenhor Feytor Pinto, ao tempo coordenador diocesano dos Capelães Hospitalares, convidou-me para ser eu o novo capelão desse hospital”, recorda o padre Sampaio. Passados mais de 25 anos, este sacerdote continua a fazer do mundo hospitalar o seu campo de missão. “Nós não trabalhamos para a morte… nós trabalhamos para a vida, até ao último momento!”.

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