Entrevistas |
Irmã Marta Alves, Serva de Nossa Senhora de Fátima
“Uma vocação dentro da vocação”
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A irmã Marta Alves, de 38 anos, testemunha ser chamada a “viver o tempo de doença em comunhão com as pessoas doentes e não doentes”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, esta religiosa Serva de Nossa Senhora de Fátima, natural de Turquel, convive com um cancro que, embora terminal, não retira o sorriso a quem vive a alegria de uma entrega diária a Deus.

 

Como foi o seu percurso religioso antes de entrar na Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima?

Nesta fase da minha vida, tenho precisamente 19 anos de casa dos meus pais e outros 19 na casa religiosa que me recebeu. Tenho um irmão mais velho e, na nossa família, habitualmente, rezávamos e íamos à Missa. Tínhamos, por isso, uma vida cristã mais ou menos regular. Em família, vivíamos valores bonitos, como a confiança e a fidelidade à palavra dada, que foram tão importantes como a fé que recebi dos meus pais. Realizei, então, o percurso normal da catequese, onde estive mais tempo do que seria previsto. Naquele tempo, vivia-se uma fase em que não havia crismas em Turquel, e por isso fiquei na catequese até aos 18 anos. Só fui crismada aos 18 anos!

 

Como é que conheceu a Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima?

Eu tenho uma tia, a Suzete, que é a irmã mais velha da minha mãe e que é religiosa nesta mesma congregação. Portanto, eu sempre conheci a congregação por causa da minha tia Suzete. Não tive nenhuma influência directa da sua parte mas, é verdade que indirectamente sim! Porque ela é uma pessoa querida na família, é uma referência. Todos os anos no Verão passava uma temporada connosco. Mas, por outro lado, eu não achava ‘muita graça’ às irmãs desta congregação que até estavam na minha terra. Costuma dizer-se que ‘os santos da terra não fazem milagres…’, por isso, o despertar foi mais tarde, quando conheci a irmã Regina em algumas actividades que a congregação promovia nessa altura. Eu tinha treze anos, e recordo que fiquei muito encantada com a sua maneira de ser. Achei que assim valia a pena! Ela é uma mulher muito espontânea, muito viva, muito apaixonada por Jesus Cristo e isso transborda dela com muita naturalidade. Fiquei muito cativada pela sua maneira de ser. Continuei, então, a frequentar os encontros. Eu gostava muito de Deus mas ser irmã, ser freira? Estava fora de moda para mim! Tinha medo, e depois via que as irmãs vestiam de uma forma esquisita e isso era, para mim, um estilo de vida diferente. No entanto, através da irmã Regina pude conhecer facetas da vida religiosa e das Servas, em particular, que me atraíram e que reparei que valiam a pena. Valiam a minha vida. Esta paixão por Deus, o serviço à Igreja, a perspectiva missionária foram aspectos que me tocaram muito e foi, então, com 19 anos, que pedi a entrada na Congregação. E aqui estou!

 

Quando entrou na Congregação tinha realizado a sua formação académica normal?

Sim! Tinha feito o 12º Ano no Externato Cooperativo da Benedita. Em Turquel, fiz o 1º Ciclo – sou ainda do tempo da Telescola – e depois fui para o Externato. Entrei, entretanto, no curso de Psicologia, em Coimbra, e fiz o primeiro ano do curso. Só mais tarde completei o curso, já enquanto religiosa.

 

Quem são as Servas de Nossa Senhora de Fátima? Que carisma a atraiu à vida religiosa?

O carisma da Congregação é Sacerdotal e Mariano. Temos a dimensão sacerdotal de Cristo como Aquele que é enviado ao mundo com uma missão que o Pai lhe dá. E nós procuramos também viver a missão de enviadas ao mundo, para deixar vir ao de cima um Deus que está presente e que nos ama, na vida comum das pessoas. Por isso é que, muitas vezes, as irmãs trabalham lado a lado com as pessoas. Na paróquia, naturalmente, mas noutras profissões, como professoras de qualquer área, enfermeiras ou simplesmente ao lado da vida das pessoas. Isto acontece na dimensão da Encarnação de Jesus Cristo, que era Deus e que vem para o mundo, viver o nosso mundo, na vida comum de nós, humanos. Por outro lado, temos a dimensão Mariana do carisma, porque naturalmente a serva por excelência do Senhor era Ela, Maria. É Ela que nos ensina como se adere a Cristo, como se serve Deus, e como se vive a vida cristã e o Evangelho na vida quotidiana.

 

A resposta a uma vocação de consagração implica o deixar tudo para trás. Alguma vez pensou constituir família?

Sim! Aliás tenho, graças a Deus, uma boa experiência de família naquilo que é a minha família mais alargada. Mas é verdade que esta questão de Deus, e do tudo de Deus, me cativou mais cedo. Lá na minha terra havia um rapazinho de quem eu gostava e, embora não tivéssemos namorado, fomos próximos. Mas a perspectiva de Deus estava mais presente como um todo que fazia sentido para a minha vida. Independentemente de ser religiosa ou não, a questão de Deus já existia antes na minha vida. Ainda pensei em ser médica sem fronteiras, ou outras coisas, para fugir à questão da vida consagrada... Mas a perspectiva de Deus abarcar todos os aspectos da minha vida, já estava presente antes.

 

Como é deixar tudo?

Quando deixamos tudo, mesmo que seja pouco, é muito, porque é tudo. E é realmente muito! O meu passado de vida de família, de escola, dos colegas de faculdade, de uma vida social de outra maneira, são coisas muito bonitas que deixei, naturalmente, mas continuo a viver no nosso mundo e na nossa sociedade. Mas é, sem dúvida, de maneira diferente. Ao mesmo tempo, numa perspectiva mais religiosa, deixar tudo significa realmente não ter nada. Eu não tenho nada em meu nome, não sou possuidora de nada. Tenho a minha roupa e os meus livros e pouco mais. Mas isso não é uma coisa que me tenha alguma vez pesado. A perspectiva de liberdade, de não termos nada de especial e de nos podermos mover com facilidade – hoje estamos aqui, amanhã estamos noutro lugar em missão – é uma coisa que me dá mais alegria do que propriamente pensar sobre o que tenho ou não tenho. Tenho tudo o que preciso! Nós, irmãs, fazemos voto de pobreza mas, graças a Deus, temos casas e o que precisamos para nos deslocarmos... É uma vida bonita, diferente!

 

Numa sociedade que vive, acima de tudo, na dimensão do ter, na lógica do consumo, da procura do que é efémero, faz sentido esta opção radical?

Nós valorizamos muito o ter porque saboreamos pouco a partilha. Quando saboreamos mais a partilha, quer na família, quer com os amigos, na paróquia e até mesmo em outras dimensões da nossa vida, já não valorizamos tanto o ter. É claro que é importante ter algumas coisas! São necessários os meios de comunicação, os meios de sobrevivência, como os alimentos, e o que precisamos para nos deslocarmos. Tudo isso é importante, mas não valem por si! Valem na medida em que estamos em relação uns com os outros. Isso é mais importante!

 

E esta sociedade ajuda ou dificulta a vivência de uma vocação consagrada?

Não podemos dizer que ajude, até porque o facto de surgirem poucas vocações à vida consagrada também nos diz algo sobre a nossa sociedade, que não sublinha muito esta dimensão da partilha, de uma vida livre naquilo que a liberdade tem de mais bonito. Mas eu creio que o futuro breve trará muitas surpresas ao nível da vida da Igreja, da vida da fé e das vocações. Porque, mais que não seja pela ausência, a nossa sociedade grita pela falta de coisas básicas e essenciais à nossa vida humana, à nossa vida de relação, à nossa vida espiritual, com Deus e, portanto, essa falta faz-se sentir e vai aparecer.

 

Por vezes, Deus coloca desafios ao ser humano que o ‘obrigam’ a colocar a própria vida nas Suas mãos. A irmã Marta tem vindo a fazer ao longo dos últimos tempos um caminho neste sentido. Como tem sido a sua experiência de convivência com a doença?

Eu fiz um périplo na minha vida como irmã. Estive em Coimbra a terminar os estudos, depois estive na Amareleja, no Alentejo, passei por Bruxelas e desde o final do ano de 2010 que estou em Portugal. Passado pouco tempo foi-me detectado um cancro da mama. Como é óbvio, não estava nada à espera, e foi, por isso, uma surpresa! Mas nós, irmãs, desde o início que vemos aí a mão de Deus, porque eu não estava para vir para Portugal mas para Moçambique. Já tinha o passaporte e estava tudo orientado para ir para África. Mas, por várias circunstâncias da Congregação, fui chamada a Portugal. Por isso, vemos aí a mão de Deus porque, provavelmente, em Moçambique seria mais complicado fazer o diagnóstico e, ao chegar lá, não iria logo ao médico. Este cancro foi diagnosticado no dia 13 de Maio do ano passado, e comecei a fazer quimioterapia no dia 28 de Junho. Fui operada, fiz uma mastectomia em Novembro, a seguir radioterapia, e quando já esperávamos que estivesse tudo mais ou menos em ordem, passado pouco tempo, percebemos que estava com metástases ósseas e hepáticas. Eu sei que não terei muito tempo de vida. Como é que eu vivo isso? Desde o princípio não foi propriamente uma má notícia! Deixou-me um nervoso miudinho, claro. Mas eu encarei esta doença na perspectiva de que nós, irmãs, vivemos a vida comum das pessoas. E faz parte estar doente. Como irmã, é quase uma vocação dentro da minha vocação, que é a de partilhar a vida real de muitos pais e de muitas mães. Por isso, não foi propriamente uma má notícia. É claro que é complicado quando nos confrontamos com a quimioterapia... Eu sou seguida no IPO de Lisboa e são muitas pessoas, de todas as idades, que vemos todos os dias. Daí dizer que é uma maneira de viver a vida normal.

 

Por vezes, quando há o confronto com a doença, a tentação é a da revolta...

Revoltar-me nunca foi uma tentação que eu tivesse. A nossa vida está nas mãos de Deus, e Ele, melhor do que nós, sabe o que é bom. À partida, uma doença em si mesmo não é boa. Porém, estas coisas, não sabemos medi-las. Não sabemos o que é bom ou o que é mau. É melhor estar doente ou ter saúde? Pois, em princípio é melhor ter saúde, mas mais importante que a saúde é muitas outras coisas: a paz, a alegria, a partilha, a amizade… Não! Eu nunca me revoltei contra Deus! Até pelo contrário, penso e a minha fé diz-me isso, que Deus está muito presente nesta minha situação como em toda a nossa vida normal de todos os dias.

 

Este é um tempo de missão?

Sim! Sou chamada a viver este tempo de doença em comunhão com as pessoas doentes e não doentes, em Igreja, vivendo a minha vida oferecida a Deus, tal como já estava anteriormente…

 

Nunca perdeu a alegria que tem?

Não! E reconheço que é de facto um dom de Deus.

 

O que diria a quem vive neste momento a mesma situação de doença?

Cada pessoa terá de fazer o seu próprio caminho. A doença faz parte da vida e todos somos um bocadinho doentes, até mesmo das relações, o que é bem pior! Mas a vida é possível e há coisas bem mais importantes do que ter saúde. Muitas vezes, na doença, vivemos etapas muito interessantes da vida que envolvem mesmo as pessoas que vivem ao nosso redor, manifestando muita proximidade.

 

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“Deus é surpresa e manifestação”

 

O que diria a uma jovem sobre a experiência da vida religiosa?

Quando me procuram, gosto muito de ouvir a experiência de cada pessoa, que é sempre uma experiência muito rica. Porque já há algo de muito grande e de bonito que Deus colocou no seu coração e que essa pessoa já experimentou, no diz que respeito a uma vida de relação com Deus e com a Igreja. Por isso, normalmente escuto e valorizo essa experiência porque a vida da pessoa com Deus é o mais importante e é o que subsistirá toda a vida. Por isso, no caso de a pessoa ser chamada a uma vocação, Deus continua essa surpresa e essa sua manifestação. Na vida comum Deus, manifesta-se! E a vocação não é uma ‘carapuça’ que Deus põe em cima da pessoa; é algo que já existe e que há que acolher e ajudar a germinar e crescer com mais força para dar frutos.

 

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Uma mensagem

“Há uma frase da nossa fundadora, Luíza Andaluz, que utilizamos muito e que nos toca particularmente: ‘Passar fazendo o bem à imitação do Mestre Divino, tornar felizes aqueles que nos rodeiam, que doce programa de vida!’”.

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