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A libertação de Qaraqosh, ao fim de dois anos de violência
“Já sofremos o suficiente…”
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Os sinos voltaram a tocar nas igrejas. Logo depois de os primeiros soldados iraquianos e curdos terem entrado na cidade, correram mundo as primeiras imagens de Qaraqosh, a cidade cristã iraquiana após dois anos e dois meses de ocupação jihadista.


As igrejas esventradas, vazias de quaisquer símbolos religiosos e com as paredes escurecidas pelo fogo e marcas de balas, traduziam em absoluto os dias de inferno que se viveram por ali, em Qaraqosh, e em tantas outras vilas e aldeias da chamada Planície de Nínive, de onde milhares de cristãos foram expulsos pela barbárie jihadista em Agosto de 2014. Os primeiros soldados entraram em Qaraqosh na quarta-feira, dia 19 de Outubro. A cidade não ficou logo completamente libertada. Aqui e ali, algumas bolsas de resistência ainda ofereceram perigo como que a assinalar que o inimigo estava por perto, que tinha sido afastado mas não destruído. Longe dali, mas com a cidade no pensamento, muitos cristãos acompanharam a par e passo as operações militares. A Planície de Nínive é apenas uma porção do território reconquistado aos jihadistas do auto-proclamado “Estado Islâmico”. As batalhas prosseguem e ninguém sabe, ao certo, quando tudo isto estará terminado. Se alguma vez vai estar.

 

Ansiedade e apreensão

Em Erbil, cidade no Curdistão Iraquiano para onde fugiram milhares de famílias cristãs, todos seguiam com ansiedade e apreensão as notícias do avanço das tropas da coligação e iam partilhando, graças à Internet, fotografias e filmes das zonas libertadas. Na quarta-feira, dia 19 de Outubro, os risos e as lágrimas confundiam-se em muitos rostos. Aquelas casas, aquelas ruas de Qaraqosh, tudo aquilo lhes pertencia, tudo aquilo lhes tinha sido roubado com uma rapidez fulminante no dia 6 de Agosto de 2014. Ninguém mais conseguiu esquecer aquelas horas de horror, a fuga apressada de quem apenas teve tempo de salvar a própria vida deixando tudo o resto para trás. Foram dois anos, dois meses e doze dias de sofrimento para milhares de pessoas que perderam tudo menos a fé. Foram dois anos, dois meses e doze dias à espera daquela notícia: a libertação de Qaraqosh, da Planície de Nínive. Agora, todos só pensam em voltar. No entanto, o regresso não é fácil.

 

Regressar a casa

A família Mateh vive agora numa casa pré-fabricada num acampamento para cristãos em Erbil. Tal como eles, também Raeda seguiu com toda a atenção a reconquista dos militares iraquianos apoiados por forças curdas e a aviação da coligação internacional. Numa das imagens que se repetiram vezes sem conta na Internet, Raeda reconheceu a sua igreja, onde ia sempre aos domingos, onde rezava as orações que por ali sempre foram murmuradas a Deus desde o princípio do Cristianismo. “Olha, a nossa igreja…” Raeda via a imagem da sua igreja filmada com um telemóvel. O templo estava vazio, com o chão atulhado de lixo. Ao lado de uns militares, um grupo de sacerdotes ortodoxos rezava em voz alto e as suas orações ecoavam como se fossem um lamento. Raeda, tal como os Mateh, vivem em Erbil, no Curdistão Iraquiano, mas sonham com o dia em que possam voltar para casa, regressar às suas coisas, à vida que levavam. Erbil é, para quase todos, apenas um local de passagem. Ninguém sabe ao certo quando vão poder regressar nem como isso irá acontecer. No entanto, por ali, por Erbil, naquela cidade provisória erguida em grande parte graças à solidariedade dos benfeitores e amigos da Fundação AIS, já ninguém pensa noutra coisa, mas ninguém esconde também o medo. “Se Deus quiser, iremos todos regressar a casa. Já sofremos o suficiente.”

 

Dar graças a Deus

A simples menção ao dia 6 de Agosto de 2014 ainda é suficiente para deixar alguns lavados em lágrimas. Aded perdeu um filho e um sobrinho naquele dia. Ambos morreram no preciso instante em que uma granada explodiu em casa, no quintal. Como milhares de vizinhos e de amigos, tiveram de fugir num par de horas. “Hoje, com a libertação da nossa cidade, todos os Cristãos estão muito felizes, mas ainda preocupados com o futuro.” A região da Planície de Nínive foi libertada, é certo, mas ninguém se sente ainda verdadeiramente em segurança. Sem ninguém para os proteger de futuros ataques, quem arriscará regressar? Martin era seminarista quando teve que fugir de Qaraqosh para Erbil, onde tem vivido num campo de refugiados. Há semanas, foi ordenado sacerdote. Estava em Bagdade quando viu na televisão a notícia, tão ansiada, da libertação de Qaraqosh. “A primeira coisa que eu queria fazer é dar graças a Deus. Estou tão feliz. Sempre acreditei que isto aconteceria um dia… agora, mal posso esperar para ver a cidade. O bem triunfou sobre o mal. Deus não quer mais ver seu o povo infeliz. Ele quer que sejamos felizes.”

 

O tesouro da fé

O regresso a casa, de qualquer forma, nunca será para já. Além das óbvias questões de segurança, há ainda que perceber como se vai dar a própria reestruturação territorial daquela região do Iraque, tendo em conta as ambições autonómicas dos curdos e os equilíbrios entre sunitas e xiitas. Trata-se de um “puzzle” extraordinariamente complexo que precisa de ser acompanhado pela comunidade cristã. O Patriarca Católico Caldeu, Louis Raphael Sako, está esperançado de que tudo irá correr bem e que os Cristãos, assim como as outras minorias religiosas, terão o seu lugar assegurado no Iraque depois da libertação do país. “Eu tenho esperança que a libertação da planície de Nínive, que está em andamento agora, será bem-sucedida. Isso é um sinal de esperança para nós”, disse o Patriarca, pedindo, no entanto, as nossas orações para que acabe em bem esta história que começou tão tragicamente. Foram dois anos, dois meses e doze dias de sofrimento para milhares de pessoas que perderam tudo menos a fé, e que hoje a guardam como o seu bem mais precioso, o tesouro inacessível impossível de roubar.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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