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Iraque: Campanha Regresso dos Cristãos à Planície de Nínive
Gente como nós
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Chamam-se Marven, Warda, Youssif, Suleiman… Foram eles, mas poderíamos ser nós. De um dia para o outro, perderam tudo o que tinham, foram obrigados a fugir perante o holocausto provocado pelos jihadistas. Agora, quando o regresso a casa começa a ser possível, continuam a precisar de ajuda. Há três anos, ninguém os socorreu. E agora? Os Cristãos iraquianos vão ser ignorados outra vez?

 

“De Julho a Agosto de 2014, 125 mil cristãos foram forçados a abandonar Mossul e a Planície de Nínive. Foram para Erbil e Duhok.” Bashar Warda, Arcebispo Caldeu de Erbil, resume em apenas 24 palavras todo o drama vivido nesses dias em que os jihadistas ocuparam as terras bíblicas onde, desde há dois mil anos, há memória da presença cristã. Uma memória que se desvaneceu em semanas. Perante a violência, a intolerância e o fanatismo, os Cristãos não tiveram alternativa. Ou fugiam e salvavam as suas vidas, ou ficavam e seriam presos, torturados e mortos. A história dos milhares de cristãos forçados a fugir de suas casas, das aldeias, vilas e cidades onde viviam no Verão de 2014 perante a ofensiva dos jihadistas do auto-proclamado Estado Islâmico, é por demais conhecida. Já se escreveram rios de palavras sobre o sofrimento destas pessoas, destas famílias, mas, no entanto, todas as histórias estão ainda por contar em toda a dimensão da tragédia que ocorreu nesses dias e que se prolongou, como um ferro em brasa, até aos dias de hoje. São feridas ainda por sarar.

 

Sobreviver

Marvin Kamel tinha apenas 17 anos quando o holocausto jihadista atingiu a sua aldeia. Numa altura em que todos os sonhos seriam possíveis na sua vida, como na vida de todos os jovens de 17 anos, Maren teve de fugir. A sua história mudou radicalmente naqueles dias, naquelas horas. “Um dia, uma organização terrorista chamada Daesh – o auto-proclamado Estado Islâmico – atacou a nossa aldeia. Na altura parecia inacreditável o que estava a acontecer e pensámos: vai passar. Depois de deixarmos a nossa aldeia, fomos para Duhok. Ficámos por lá durante dois meses, mas não podíamos viver lá para sempre pois não podemos ser refugiados no nosso próprio país.” E, no entanto, são tantos os cristãos que deixaram de ser livres, que passaram a ter de viver de mão estendida para conseguirem sobreviver no dia-a-dia.

 

Fugir em pânico

Foi imparável. Raban Youssif é monge no Mosteiro de Mar Mattei. Ele também testemunhou esses dias de violência em que os cristãos foram obrigados a fugir sem que ninguém, sem que nenhum país os acudisse. “Tudo começou no princípio de Junho de 2014, quando muitos ataques tornaram a situação em Mossul muito difícil. A 10 de Junho, o Daesh entrou em Mossul e ocupou a cidade. A 6 de Agosto, os jihadistas atacaram a Planície de Nínive.” Foram mais de 125 mil cristãos, como reconheceu Bashar Warda, o Arcebispo Caldeu de Erbil, que tiveram de fugir em pânico. Nenhum destes cristãos esquecerá o que se passou naquelas horas, naquelas semanas e meses. “Quando as pessoas chegaram, eu estava na Igreja de Mart Shmooi, em Ankawa”, recorda Benhman Benoka, vigário-geral dos Católicos Sírios de Erbil. “Chegaram exaustas. Era uma situação muito difícil. E o que chamou a atenção foi que todos, no dia seguinte, queriam ir à Missa. Não havia espaço sequer para tantas pessoas.” De facto, a cidade de Ankawa é pequena e os refugiados iam ficando onde era possível: em praças, nas bermas das ruas, em campos de futebol, em casas particulares, em igrejas. “Celebraram-se Missas em todos os lugares”, recorda o vigário católico. Todos estes 125 mil cristãos fugiram por causa da sua fé. De um dia para o outro, de um instante para o outro, passaram de cidadãos normais que viviam no seu próprio país, a refugiados.

 

E agora, como vai ser?

Almass Suleiman nasceu em 1979, é casada e tem seis filhos. É uma dessas famílias que passou a estar de mãos estendidas, que perdeu tudo o que tinha e que depende, agora, apenas da solidariedade internacional de organizações como a Fundação AIS. A noite da fuga continua presente como uma assombração. “À meia-noite ficámos sem electricidade. Diziam que o Daesh ia entrar em Karamlesh. Acordei os meus filhos que já estavam a dormir. Não trouxemos nada connosco, só os bilhetes de identidade, e fugimos.” Hoje, Suleiman vive da generosidade dos benfeitores da AIS. “A Igreja dá-nos tudo, paga-nos a renda…” Suleiman quer regressar a casa, voltar a ser dona da sua vida, do seu destino, mas isso não depende de si. O regresso é um sonho que ultrapassa a sua vontade. Mas uma coisa Suleiman sabe bem. Tudo o que lhe aconteceu foi apenas por causa da sua fé em Cristo. “Foi tudo devido à nossa fé. Fugimos por causa da nossa fé e aceitamos agora a vontade de Deus. Na verdade, deixámos tudo por Deus.” Agora, quando o regresso a casa começa a ser possível, Suleiman continua a precisar de ajuda. Há três anos, ninguém socorreu a sua família. E agora? Os Cristãos iraquianos vão ser ignorados outra vez?

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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