Lisboa |
Livro ‘A semente lançada à terra’ evoca D. António dos Reis Rodrigues
“Um Bispo que analisava a realidade procurando ir além da superfície”
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O livro de D. António dos Reis Rodrigues ‘A semente lançada à terra – Breves notas de espiritualidade’, agora publicado pela Lucerna, reúne alguns textos “nunca conformistas e sempre exigentes” do antigo Bispo Auxiliar de Lisboa, falecido em 2009, como recordou o Cardeal-Patriarca, D. Manuel Clemente. Na apresentação da obra, o padre Duarte da Cunha lembrou a vida discreta e com “pouco espaço para banalidades” do antigo prelado.

 

Foi nos anos 80 que o padre Duarte da Cunha viu, pela primeira vez, D. António dos Reis Rodrigues. Desse tempo, o sacerdote lembra a relação de “amizade” e de “paternidade” que o prelado tinha tido com o seu pai e que o levou a conhecer mais deste bispo “discreto, mas acutilante”. Na apresentação da obra ‘A semente lançada à terra – Breves notas de espiritualidade’, no passado dia 3 de fevereiro, na Igreja de São Nicolau, em Lisboa, que reúne notas espirituais de D. António dos Reis Rodrigues, o sacerdote lembrou o prelado que sempre lhe pareceu “acolhedor e divertido”, embora alguns dele tivessem “medo”, revela. “Da amizade pessoal que ele sempre cuidava como se cada um fosse único, aos poucos passei a compreender a importância do seu pensamento e do modo como o apresentava. Com uma didática impressionante, mas nada floreada”, recordou o padre Duarte da Cunha, que conviveu, desde muito novo, com o antigo Bispo Auxiliar de Lisboa, devido ao facto de o seu pai ter sido presidente da Juventude Universitária Católica (JUC) na altura em que D. António era o assistente espiritual.

 

Conhecimento

O gosto pela leitura e pelas principais obras literárias portuguesas fizeram com que D. António dos Reis Rodrigues tivesse um conhecimento “acima da média” da língua portuguesa. “Eram sempre interessantíssimas as conversas que se tinha com o senhor D. António, a propósito da língua ou de qualquer outro tema. Mas se falo de palavras é porque me parece paradigmático do que ele foi e do modo como vivia. Ele conhecia o significado e a história das etimologias mas também percebia que na história não havia só passado e sentia-se por vezes a liberdade de quem se sabe protagonista da história e se sente com o direito de propor algo de novo”, referiu o padre Duarte da Cunha, salientando que, apesar do domínio da língua, o mais importante, na vida de D. António, era o “conteúdo, a experiência de vida, os Mistérios de Deus e do homem”. “Como ele gostava de discutir ideias e analisar a realidade procurando ir além da superfície! Um dia, falando-lhe do que estava a estudar em Roma, lembro-me de o ver entusiasmado e dizer que bons eram os tempos mediáveis onde se discutiam verdades e agora só impressões! Ele lia muito sobre filosofia e sobre teologia, além de conhecer lindamente a história e muitas histórias”, lembrou.

 

Sempre mais

Foi, até ao fim da sua vida, em 2009, um buscador. “Quis procurar sempre mais profundamente”, referiu. “Tentava aproveitar tudo o que fosse bom, sem deixar de apontar o que lhe parecia errado ou mal explicado. Até ao fim da vida teve sede de aprender e, por isso, de ensinar”, referiu o padre Duarte. Nessa busca, inclui-se o gosto pela arte e arquitetura, o que o levou a coordenar as obras de restruturação do Mosteiro de São Vicente de Fora, quer na parte museológica, quer na parte onde passou a funcionar a Cúria Patriarcal e onde exerceu as funções de vigário geral. Enquanto secretário da Cúria Patriarcal, o padre Duarte da Cunha lembrou os momentos de trabalho conjunto com D. António dos Reis Rodrigues como “uma graça” e um importante contributo para o desempenho das fun D. António dos Reis Rodrigues que reune hancela da Lucernar do dom que muitos dele "ções de secretário do CCEE (Conselho das Conferências Episcopais da Europa), entre 2009 e 2018. “Quantas coisas aprendi com ele. A ter as coisas organizadas, acessíveis, conhecidas. A ter atenção aos pormenores, a verificar se as coisas estavam bem pensadas e bem elaboradas. Eram tudo coisas que ele exigia, a nós que colaborávamos com ele, mas antes de mais a ele mesmo. Um texto do D. António tinha sempre variadas versões. Procurava a perfeição, no compreender o que queria dizer e no modo de dizer, pensando a quem o lia, mas tentando nunca descurar a beleza”, referiu o sacerdote, na apresentação do último livro de D. António dos Reis Rodrigues.

 

Formação

Antes de entrar no seminário, em 1942, D. António dos Reis Rodrigues formou-se em Direito, e chegou a ser presidente da Juventude Escolar Católica (JEC), dirigente das Conferências de São Vicente de Paulo e, ainda, fundador e diretor da Flama, jornal de estudantes. Depois de ordenado, o Cardeal Cerejeira nomeou-o assistente nacional e diocesano da JUC, lugar que ocupou durante 18 anos. O seu trabalho, com especial enfoque na formação, foi lembrado, no lançamento do livro, pelo amigo e então presidente da JUC, Pedro Roseta. “A sua inteligência, a sua vastíssima cultura, o seu interesse pelas artes, pela literatura, pelo cinema, pela história, a elegância da sua escrita, a sua lucidez sobre os acontecimentos do mundo e em Portugal, a sua visão cristã, profunda e aberta, ajudaram a que ele próprio se transformasse, logo de seguida, e ainda muito novo, num educador na fé mas também na liberdade. Ele fazia de nós, os que passávamos pela universidade, seres livres. Ele deixou em nós as tais sementes, que foram sementes de liberdade”, memorou.

 

"Há tanto que fazer”

A preocupação pela formação e a forma discreta de ser de D. António dos Reis Rodrigues foram também lembrados pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, no passado Domingo, dia 3 de fevereiro. “Não precisava de nada para se afirmar consistentemente. Estava certo que a verdade voltaria sempre ao de cima sempre que estivesse mais ofuscada”.

Na Missa de recordação e sufrágio de D. António dos Reis Rodrigues, que se seguiu à apresentação da sua última obra, D. Manuel Clemente recordou algumas notas “nunca conformistas e sempre exigentes” do antigo Bispo Auxiliar de Lisboa, entre 1975 e 1998. “Começando pela homilia que fez nas suas Bodas de Ouro sacerdotais, celebradas a 3 de março de 1997, no nosso Seminário Maior, em que se formara e fora ordenado. Disse assim, entre muito mais que será bom reler: «Não estou preso a nada do que fui, a nada do que fiz, a nada do que vivi […]. Cinquenta anos de ministério não me cansaram; o corpo sem dúvida, não o espírito. E digo como diziam os jovens católicos espanhóis da geração com a qual privei […]: “Há tanto que fazer!”» Prosseguia, portanto, num caminho aberto. Tanto mais quanto espiritualmente impelido pela constante demanda que justifica as vidas”, sublinhou o Cardeal-Patriarca de Lisboa, na Igreja de São Nicolau.

A mesma busca decidida, determinada pela vontade de “ir em frente” e em busca da “perfeição de que não podemos desistir – a ação completa que só em Deus se alcança”, foi também lembrada por D. Manuel Clemente, a partir de uma das notas do livro ‘A semente lançada à terra – Breves notas de espiritualidade’. “A perfeição não é um dado adquirido, é um desafio. É um caminho a percorrer, em direção a um horizonte que, no entanto, nunca se atinge. Pois, consoante o Discípulo amado, numa das suas cartas, “Deus é maior que o nosso coração (1 Jo 3, 20)”. “Infindo como Deus, infindo é o caminho. D. António soube bem que, nisto mesmo, ‘parar é morrer’. Agradecemos a sua vida e ensino, para o percorrermos também”, desejou D. Manuel Clemente, na homilia da celebração.

 

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Biografia

D. António dos Reis Rodrigues nasceu no dia 24 de junho de 1918, em Ourém. Depois do liceu, ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa, onde se formou em 1941. No período em que frequentou a universidade foi presidente da Juventude Escolar Católica (JEC), dirigente das Conferências de São Vicente de Paulo e, ainda, fundador e diretor da Flama, jornal de estudantes.

Em 1942 entrou no Seminário dos Olivais, tendo sido ordenado sacerdote em 1947.

Durante 18 anos (1947-1965) foi assistente nacional e diocesano da Juventude Universitária Católica (JUC) e durante 16 anos (1947-1963) capelão da Academia Militar, onde lecionou Deontologia Militar e Ética. No mesmo período, lecionou Doutrina Social da Igreja no Instituto de Serviço Social.

Em 1965 foi responsável pelo programa ‘Naquele Tempo’, da Radiotelevisão Portuguesa, de que resultou a obra ‘O Tempo e a Graça’, publicada em 1967.

Em 1955 foi nomeado cónego da Sé Patriarcal de Lisboa e em julho de 1966 foi vigário geral do Ordinariato Castrense. Pouco depois, assumiu as funções de diretor Nacional da Obra Católica Portuguesa das Migrações e, em outubro do mesmo ano, foi eleito bispo titular de Madarsuma, tendo recebido a ordenação episcopal a 8 de Janeiro de 1967, na Igreja dos Jerónimos, em Lisboa.

Desempenhou as funções de pró-vigário castrense e capelão-mor das Forças Armadas entre 1967 e 1975, ano em que foi nomeado Bispo Auxiliar do Patriarcado de Lisboa. Na Conferência Episcopal Portuguesa, exerceu, de 1967 a 1981, o cargo de presidente da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo; de 1975 a 1981, o de secretário e, de 1981 a 1984, o de vice-presidente da mesma conferência. Fez parte, por vários mandatos, do conselho permanente da conferência. No quinquénio de 1972-1977, foi, por designação pontifícia, membro da Comissão Pontifícia das Migrações e Turismo.

No Patriarcado de Lisboa, como Bispo Auxiliar a partir de 1975, foi vigário geral desde 1983 até à sua jubilação, em 1998, e vigário judicial do Tribunal Eclesiástico de 1990 a 1995. Acompanhou por diversos anos as vigararias do Termo Ocidental de Lisboa e vários âmbitos da pastoral diocesana. Durante anos coordenou as obras de restruturação do Mosteiro de São Vicente de Fora, quer na parte museológica, quer no que viriam a ser os escritórios da Cúria Patriarcal.

 

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Sinopse de ‘A semente lançada à terra – Breves notas de espiritualidade’

O presente volume reúne diversas notas espirituais que D. António dos Reis Rodrigues foi coligindo como sementes que poderiam vir a crescer e a dar fruto noutras almas, agrupando-as segundo as diversas etapas do ano litúrgico – Advento, Natal, Quaresma, Páscoa e Tempo Comum – e concluindo com um capítulo de reflexões sobre a Igreja. Trata-se de um legado perene que permitirá aos leitores, em qualquer momento, refletir mais aprofundadamente sobre os textos bíblicos em íntima relação com aquele que é o seu quotidiano, numa atitude de oração, conversão, ação evangelizadora e procura de sentido cristão perante as mais diversas circunstâncias da vida.

Editora Lucerna

PVP: 10¤

Informação: http://lucernaonline.pt

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