Missão |
Inês Moreira, Grupo Missionário Ondjoyetu
O coração pendurado num embondeiro
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Inês Moreira nasceu em Coimbra, a 7 de junho de 1986. Viveu em Mira de Aire até aos 10 anos de idade. Cresceu numa família católica. É licenciada em Fisioterapia. Em Dezembro de 2018 partiu em missão com o Grupo Missionário Ondjoyetu, por um mês, para Angola.

 

A sua infância foi passada em Mira de Aire, onde viveu até aos 10 anos. Mudou-se depois com a sua família para o Alqueidão da Serra onde viveu até aos 18 anos. Nessa altura, foi estudar para o Instituto Politécnico de Setúbal. Cresceu numa família católica que lhe “transmitiu valores fundamentais”. Fez o percurso catequético, recebeu o Sacramento do Crisma e começou desde cedo “a participar em atividades organizadas pela Juventude Operária Católica (JOC), onde fiz o meu crescimento na fé e onde aprendi o valor da dignidade humana. Fui colaborando também com outras organizações, nomeadamente a Cáritas e mais recentemente com o Centro de Apoio ao Sem-abrigo.” Em 2010, concluiu a licenciatura em Fisioterapia e partilha: “Comecei por fazer umas substituições numa clínica em Fátima e posteriormente trabalhei num lar de idosos na zona de Loures. Uns meses após ter começado a trabalhar no lar fui desafiada a dedicar-me a tempo inteiro à JOC, integrando a direção. Acabei por me despedir do meu local de trabalho e durante um ano e meio deixei a profissão de fisioterapeuta em stand by. Procurei abraçar de corpo e alma o projeto. Sentia-me missionária em Portugal e sentia que o meu papel era aqui. O trabalho com jovens em bairros sociais na zona de Loures foi determinante. O que fazer com estes jovens? Num bairro onde domina a violência, como levar uma mensagem de amor? Possivelmente o contacto com muitas famílias angolanas, cabo-verdianas, são-tomenses foi despertando em mim uma curiosidade de conhecer o continente africano. Se hoje consigo descobrir sinais da presença de Deus na minha vida é, sem dúvida, pela caminhada que fiz durante esse tempo: as orações, os retiros, os grupos de jovens que acompanhei e onde sentia necessidade de mostrar convicção na mensagem que transmitia, o estudo do Evangelho, os livros lidos, as atividades e o contacto com pessoas marcantes que me foram transmitindo tanto. E a transformação foi acontecendo. Senti que algo estava diferente quando em determinados momentos da minha vida dei por mim a viver situações simples, do quotidiano e simultaneamente a sentir as interpelações do Evangelho. Neste caminho, o caderno de vida foi (e continua a ser) uma ferramenta essencial, onde ponho por escrito algumas situações que vão acontecendo, as reflexões que vão sendo suscitadas, as histórias de vida daqueles com quem me cruzo e a forma como Deus se revela através deles, as interrogações, as dúvidas... Uma dinâmica de ação/reflexão. E por escrito as situações adquirem outra força!”.

 

“Inesperadamente tudo se organizou para partir”

Quando concluiu o tempo previsto como dirigente teve de encontrar novamente um trabalho como fisioterapeuta, o que aconteceu passado pouco tempo. “Inicialmente em Peniche, depois em Lagoa, no Algarve, e posteriormente em Penacova. Comecei a ganhar alguma experiência ao nível da reabilitação neurológica e no final de 2015 surgiu a possibilidade de trabalhar num centro de referência nesta área em São Brás de Alportel (Centro de Medicina de Reabilitação do Sul). Mudei-me novamente para o Algarve, onde fiquei sozinha, até casar com o meu namorado de longa data. Casámos no dia 1 de maio de 2018, numa cerimónia simples, seguida de um piquenique ao ar livre com familiares e amigos, procurando escutar a interpelação do Papa Francisco na Alegria do Amor: ‘Queridos noivos, tende a coragem de ser diferentes, não vos deixeis devorar pela sociedade do consumo e da aparência. O que importa é o amor que vos une’. Depois de muitos anos a namorar à distância, ele conseguiu um trabalho no Algarve, pelo que a nossa vida a dois começou a sul. Antes de tomarmos a decisão de casar, partilhei com o meu companheiro o chamamento que começava a surgir dentro de mim para partir em missão. Ele apoiou-me desde o primeiro momento. Honestamente eu pensava que não se concretizaria, pelo menos a curto prazo, mas inesperadamente tudo se organizou para partir para Angola um mês”, partilha.

 

“Terei de regressar para o resgatar”

Começou então (pouco tempo antes do casamento) a sua preparação para a missão: “Comecei a participar nas reuniões mensais do Grupo Ondjoyetu, da Diocese de Leiria, e nos espaços de formação em conjunto com outras pessoas que estavam em preparação para partir em missão. Foram tempos exigentes mas importantes para perceber se era efetivamente este o caminho a seguir. No dia 19 de Outubro (durante a Vigília Missionária diocesana) concretizou-se o nosso envio missionário, foi um momento importante em que senti a responsabilidade de não defraudar expectativas mas também uma serenidade por me sentir enviada por Deus”.

Sobre a missão, partilha a experiência na primeira pessoa: “No dia 17 de Dezembro de 2018 parti juntamente com duas amigas, terapeutas da fala, um mês em missão para o Gungo (uma região montanhosa de difícil acesso na diocese do Sumbe, Angola), fomos integrar a equipa missionária da Diocese de Leiria. Estava preparada para fazer o que fosse preciso, mas acabámos por intervir principalmente na área da saúde. O paludismo continua a ser, infelizmente, uma realidade marcante. Houve ainda tempo para momentos de formação com jovens e com as crianças construímos um presépio de capim pelo Natal. Para além disso, na missão há sempre trabalho a fazer e as tarefas podem ser as mais diversas: tirar água do poço, carregar a betoneira para o camião, carregar um saco de milho, dar água aos porcos, dar explicações de informática ou amassar o pão. O povo do Gungo é muito pobre, as pessoas têm tão pouco, vivem do milho que semeiam, no entanto transmitem tanta alegria e o acolhimento que fazem à equipa missionária é incrível. As manifestações de fé são muito fortes. Foi marcante perceber que tantos manos camungungos fizeram longas horas de caminhada a pé para passarem as celebrações de Natal na missão, muitos sabendo que ficariam a dormir ao relento aqueles dias. A primeira missa em que participámos foi a vigília de Natal. As lágrimas caíam-me da alegria que sentia do povo ao celebrar o nascimento de Jesus com danças, batuques e palmas... Senti que temos muito a aprender com este povo a alegria do Evangelho! Não posso dizer que tudo foi fácil nesta experiência. Na verdade, o início foi bem duro, compreender qual poderia ser o meu papel. Ajudou-me saber que não estava ali por mim, que era enviada por Deus e era nos momentos diários de oração que ia buscar a força de que precisava, tentando escutar o que Deus me pedia em cada momento. A presença e apoio dos restantes missionários foi também fundamental. É verdade que fazemos pouco se pensarmos no muito que há a fazer. E um mês não é realmente nada. Mas no dia em que cheguei a Luanda li uma frase na parede de um centro de acolhimento para crianças que dizia: ‘Sozinhos não conseguimos mudar o mundo mas podemos ajudar em conjunto’. Àqueles que sentem o apelo de partir, não deixem de o fazer. Não há condições, nem momentos ideais. Várias pessoas me questionaram por “abandonar” durante um mês o marido pouco tempo depois de casarmos. Não foi uma decisão tomada de ânimo leve e implicou esforço de ambas as partes mas foi fruto de uma decisão tomada em conjunto e a relação saiu reforçada. Agora é tempo de regressar às rotinas, voltar a encaixar nas dinâmicas que, após um mês num contexto tão diferente, me parecem já distantes. Ainda é cedo para perceber que mudanças aconteceram dentro de mim. Diz-se que quem parte do Gungo deixa o coração pendurado num embondeiro... Terei de regressar para o resgatar?”.

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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