Domingo |
À procura da Palavra
O desprendimento
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DOMINGO XXIII COMUM Ano C

“Quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens,

não pode ser meu discípulo.”

Lc 14, 33

É a caminho que mais gosto de imaginar Jesus. Quer nas caminhadas que faço, quer nos ritmos de renovação que os tempos proporcionam, com Ele ou, por vezes, meio perdido ou com medo de seguir adiante, quero ir a seu lado. Cada caminho abre sempre o mundo em forma de cruz: para a frente, para trás, e para os lados. Revela as escolhas, os cortes, tantas vezes difíceis, e o que é possível levar ou tem de se deixar. Inscrevemos um “mais” na linha do tempo e do espaço, e esse é o sinal da vida plena com Cristo.

 

A cruz implica uma radicalidade que dói. Dói desligarmo-nos dos laços de sangue, das formas habituais de construir o mundo com base na riqueza e no domínio dos mais fracos, da ambígua relação da religião com o poder, da tentação do estatuto e do nome sonante, da “família” e da “terra”, dos “nossos” que serão sempre mais importantes que os “outros”. Dói parar para pensar, e resistir à tentação do orgulho que cega e não ajuda a ver claro se é possível a obra megalómana que nos vai envaidecer. Dói ainda ser humilde para não entrar em guerras em que tanta vida se perderá; ter a coragem do diálogo e trabalhar pela paz; desistir de nos julgarmos superiores aos outros para reconhecer a riqueza dos dons de cada pessoa.

 

A caminho de Jerusalém, Jesus interpela a multidão que O segue. Ao contrário dos populismos não Lhe interessa ter recordes de audiências, nem manipular ou enganar as pessoas. A Boa Nova que traz implica converter a vida toda, a começar nas ideias e escolhas sobre Deus, as relações humanas e o sentido da vida. Aponta, por isso, a exigência do desprendimento. É preciso passar do local ao universal, da aparência à realidade, da guerra à paz. Se as famílias são prisões, se o que conta neste mundo é a riqueza e a ostentação, se alimentamos inimizades e a primeira solução é a guerra, é preciso renunciar a tudo isso para seguir Jesus. E assim, ninguém o segue ao engano!

 

É verdade que tal exigência influenciou certamente a falsa distinção entre “seguidores perfeitos” e “seguidores imperfeitos” de Jesus. Os primeiros seriam os consagrados, padres e religiosos que deixam bens, família, terras, “tudo” por causa de Cristo e da Igreja. Os outros seriam os que “não conseguem” esse despreendimento, e, por isso, têm a sua vida “no mundo”, as suas famílias e profissões, os seus bens e, naturalmente, “não estão tão perto de Deus”. Os primeiros seriam “mais facilmente” santos! Será que já se ultrapassou esta ideia falsa?

 

Jesus vem ao encontro de todos, em todas as condições de vida. Chama-nos a todos à mesma radicalidade: viver como filhos de Deus e irmãos de todos. Com as consequências difíceis e as alegrias inerentes. A cruz que desenhamos com os nossos passos não nos deixa acomodar!

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