Entrevistas |
Padre Tiago Neto, diretor do Sector da Catequese de Lisboa
“Este novo Diretório para a Catequese põe a Igreja em dinâmica de saída”
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O novo Diretório para a Catequese, apresentado recentemente pelo Vaticano, quer orientar a ação catequética para “aquilo que é a sua tarefa: evangelizar e propor a fé”, garante, em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, o diretor do Sector da Catequese do Patriarcado de Lisboa. Em jeito de balanço, o padre Tiago Neto revela como decorreu a catequese durante o tempo de confinamento e sublinha o envolvimento das famílias neste período.

 

Qual a principal novidade trazida pelo novo Diretório para a Catequese? O que motivou esta nova edição?

Em primeiro lugar, saúdo esta iniciativa de propor um novo Diretório para a Catequese, particularmente porque ele se situa no contexto do 25.º aniversário do Catecismo da Igreja Católica, assinalado em 2017. Um diretório é sempre um texto muito contextual, relacionado com a realidade que a Igreja vive, em cada tempo. Depois do diretório de 1971, tivemos o de 1997, e, agora, este, que vem responder a algumas questões do tempo atual.

Neste documento, temos duas dimensões essenciais, de novidade e centralidade. Em primeiro lugar, é a relação que se estabelece entre catequese e evangelização, ou seja, a centralidade no ‘kerygma’ – primeiro anúncio, como essencial na tarefa catequética. Habitualmente, estamos habituados a pensar o ‘kerygma’ na fase inicial do processo de evangelização, mas o que vemos na Exortação Apostólica ‘Evangelii Gaudium’, do Papa Francisco – mas não só –, é que o ‘kerygma’ trespassa tudo aquilo que são as etapas do processo de evangelização. Não há crescimento na fé sem ouvir de novo, e em qualquer e todas as circunstâncias, o primeiro anúncio do Evangelho. Esta é a ideia central daquilo que é uma catequese evangelizadora, orientada e centrada na evangelização e não tão relacionada com a iniciação sacramental – uma tónica muito presente no diretório anterior. Adquire grande relevância a categoria do encontro com Jesus Cristo como condição essencial da missão. A outra dimensão tem a ver com o esforço de inculturação da catequese no mundo atual. Os diretórios são contextuais e, neste diretório, existem alguns aspetos que dizem respeito à questão da globalização da cultura – e o que isso traz de desafios naquilo que é a forma como as pessoas se relacionam e convivem. Existe também a questão da cultura digital, dos desafios que apresenta e de como pode estar ao serviço da evangelização.

Penso que este diretório é o primeiro de uma sociedade, de um mundo pós-cristão (no sentido clássico). A dimensão ‘kerygmática’ – que está presente neste documento – tem muito a ver não só com aquilo que se diz, mas com a forma como se entende aquilo que fazemos. Portanto, a catequese quer-se libertar daquilo que são as ‘amarras’ tradicionais da sua conceção e quer dar o salto para aquilo que é a sua tarefa: evangelizar e propor a fé no mundo secularizado, já não cristão. Este é um diretório que põe a Igreja em dinâmica de saída.

 

No concreto, no dia-a-dia dos catequistas, crianças e jovens, o que vai mudar?

Isso é uma pergunta difícil. Um diretório é sempre um texto que recolhe um caminho que a Igreja fez. Mais do que ser uma nascente, é a foz de um grande caminho. Aqui, nós temos três dimensões essenciais. Em primeiro lugar, os documentos da Igreja que decorrem dos últimos Sínodos (Nova Evangelização, Família, Jovens). Depois, a questão das novas linguagens e, dentro das linguagens, a cultura digital. Por fim, existe também a dimensão missionária da catequese, que a faz estar mais presente e ativa da proposta da fé cristã e no diálogo com o mundo. Creio que estas são as dimensões essenciais, mas também existem outras que dizem respeito, por exemplo, à identidade e formação do catequista, à centralidade da família e à catequese em contextos mais diversificados (os migrantes, o diálogo inter-religioso, as diferentes periferias humanas).

 

De que forma este Diretório para a Catequese potencia o uso dos novos meios de comunicação digitais?

O diretório refere a questão da relação entre a catequese e a cultura digital. No fundo, a palavra “meio” é uma palavra perigosa, porque o mundo digital não é apenas um “meio”, é um ambiente onde nós vivemos. Partindo da reflexão da Exortação Apostólica ‘Christus Vivit’, que resultou do Sínodo dos Bispos sobre os Jovens, o documento aponta para aquilo que são dimensões positivas deste continente digital: o diálogo, o intercâmbio de experiências, o acesso à informação... Já não se pode pensar a ação pastoral sem a presença da Igreja no mundo digital. Mas também aí, a nossa mentalidade tem que mudar, porque aquilo que se passa nas redes é a interatividade entre os intervenientes, em tempo real. Claro que podemos ter sites e coisas maravilhosas, com repositórios, mas esta interatividade é um desafio que a catequese deve seguir.

 

... e que muito tem seguido, durante este tempo de pandemia...

É claro que esta situação de pandemia veio evidenciar essa realidade e potenciar muito desta interação digital, na hora. A grande maioria das paróquias conseguiu fazer um processo de integração no mundo digital nas suas práticas quotidianas, conjugando os diferentes recursos com o encontro interativo. A maior parte jogou com essas duas dimensões. O mais importante – e o diretório aponta para isso – é que o digital proporcione experiências de fé, de encontro com Deus e com os outros.

 

Este diretório vem influenciar a renovação dos catecismos utilizados em Portugal?

Claro que sim. Este diretório desafia-nos a que a catequese introduza novas linguagens, nomeadamente a linguagem narrativa, a linguagem das artes, para além da linguagem digital – de que já falámos.

A linguagem narrativa tem muito a ver com a memória da fé, com o contar a história da fé. O acesso ao dogma da fé faz-se através da dimensão narrativa, do contar a história. Isto é determinante para a identidade cristã.

A questão das artes aponta para a dimensão mistagógica, a que o Papa também faz referência na ‘Evangelii Gaudium’. A linguagem das artes, como linguagem acessível e compreensível, é determinante para contactar com o mistério de Deus. Há também uma parte muito interessante, que tem a ver com alguns desafios culturais que são particularmente desafios antropológicos. Este diretório ajuda-nos a encontrar formas de dialogar com as novas gerações, através das novas linguagens. Por exemplo, neste segundo ano do projeto ‘Say Yes’, numa das etapas, iremos trabalhar com os adolescentes a linguagem das artes, através da contemplação de um quadro de várias curas de Jesus. Também o projeto que iremos propor aos adolescentes tem por base um texto sobre desporto. Aquilo que são as formas dos jovens e adolescentes viverem o seu dia a dia têm que entrar, necessariamente, na catequese. A catequese tem, hoje, um grande desafio que é ajudar as pessoas a serem pessoas. Isto é muito desafiante.

 

Podemos então esperar novos catecismos?

Não me cabe a mim decidir. No entanto, penso que, na lógica do ‘Say Yes’ – para a adolescência, haverá certamente novos catecismos, também com base neste diretório. Sendo este um texto para a Igreja universal, seria bom pensarmos as revisões dos materiais que temos, de acordo com as suas indicações e com as necessidades culturais do nosso tempo. O processo de revisão dos materiais catequéticos deveria ser um processo permanente.

 

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Durante a pandemia, a “larga maioria” das paróquias manteve a catequese

 

O diretor do Sector da Catequese, padre Tiago Neto, faz um balanço positivo da catequese em tempo de confinamento e revela que a “larga maioria” das paróquias manteve as iniciativas catequéticas através de novas formas de interagir e envolver as crianças e adolescentes e as suas famílias.

 

A catequese foi possível durante este tempo de confinamento?

No primeiro balanço que fizemos, através de um questionário, constatámos que uma larga maioria das paróquias manteve a catequese durante este tempo. Os catequistas encontraram formas de continuar a catequese com os seus grupos e de interagir com as suas famílias. Outro ponto importante foi ver a importância que a catequese teve neste tempo como lugar de interpretação da pandemia à luz da fé cristã, ou seja, tivemos na catequese um exercício de interpretação da experiência que estamos a viver. Em terceiro lugar, a função educativa dos pais no contexto da fé cristã. Aquilo que revelou esta pandemia é que muitos pais se aproximaram de Deus, através das atividades propostas.

No Patriarcado de Lisboa, em pareceria com Secretariado Nacional da Educação Cristã, lançámos também o projeto ‘Catequese em nossa casa’ [propostas de catequeses, em formato vídeo], servindo de complemento ao trabalho feito pelos catequistas. Teve como objetivo primeiro chegar às famílias e às crianças que não tinham a possibilidade de ter grupo de catequese. Claro que depois serviu também para todos utilizarem e foi um importante recurso. Os vídeos tiveram mais de 500 mil visualizações, divididos por 48 episódios, ao longo de oito semanas.

A nível do Sector da Catequese, durante este período fizemos mais de 50 reuniões online com catequistas. Mantivemos as propostas formativas e fizemos muitas reuniões de avaliação junto dos diversos organismos de coordenação local, para procurarmos saber como as coisas estavam a decorrer. Estamos ainda a fazer uma formação para os coordenadores de projeto ‘Say Yes’, sobre a pedagogia de projeto, onde estão inscritos mais de 100 catequistas.

 

Como irá decorrer a catequese a partir de setembro?

Já temos algumas indicações preparadas e que iremos, brevemente, partilhar com os catequistas. Temos que contar com este ‘abre e fecha’ durante este tempo que se aproxima, mas também já estamos mais preparados para isso. A ideia central que iremos propor aos catequistas é, em primeiro lugar, capacitá-los para utilizarem melhor as ferramentas digitais. Por isso, vamos desenvolver ações de formação sobre como gerir um grupo numa reunião online e que recursos utilizar para tornar os encontros mais interativos.

Para cada catequese, iremos também ter uma proposta de atividade, em casa, em que qualquer criança pode fazer, utilizando um meio digital. Vamos, por isso, manter a presença no digital, mantendo também a interatividade.

Outro objetivo, apesar de não sabermos o número de crianças em cada local, é o de propor uma alternância entre a catequese presencial, na paróquia, e a catequese online. Nesta alternância, e sempre que possível, deverá ser privilegiado o papel essencial da família. Iremos pensar em propostas concretas para valorizar a família e o seu papel evangelizador.

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